{"id":2115,"date":"2022-12-16T16:40:32","date_gmt":"2022-12-16T19:40:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2115"},"modified":"2022-12-16T16:40:32","modified_gmt":"2022-12-16T19:40:32","slug":"bem-dizer-o-feminino-do-que-ex-siste-no-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/12\/16\/bem-dizer-o-feminino-do-que-ex-siste-no-corpo\/","title":{"rendered":"Bem dizer o feminino: do que ex-siste no corpo"},"content":{"rendered":"<h6><strong>\u00a0<\/strong><strong>Delza Eloy de Santana Gon\u00e7alves<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p><strong>\u00a0<\/strong>\u201cO excesso de mim chega a doer<br \/>\ne quando estou excessiva<br \/>\ntenho que dar de mim como o leite<br \/>\nque se n\u00e3o fluir rebenta o seio.\u201d \u00b9<\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2116\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-009-Delza-Eloy-de-Santana-Gon\u00e7alves-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-009-Delza-Eloy-de-Santana-Gon\u00e7alves-300x300.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-009-Delza-Eloy-de-Santana-Gon\u00e7alves.png 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-009-Delza-Eloy-de-Santana-Gon\u00e7alves-150x150.png 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-009-Delza-Eloy-de-Santana-Gon\u00e7alves-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>A psican\u00e1lise nos convoca a experimentar na carne suas postula\u00e7\u00f5es. E \u00e9, igualmente, da carne que um saber sobre o humano pode ser extra\u00eddo e formulado. No entanto, Lacan nos desperta para o que \u00e9 anterior a qualquer formula\u00e7\u00e3o, para o saber de <em>lalangue<\/em>, que assovia aqu\u00e9m das perip\u00e9cias da linguagem. Onde fomos afetados, fissurados, e n\u00e3o h\u00e1 conhecimento que liquide esse mal-estar. Nos cabe, ent\u00e3o, <em>savoir-faire<\/em> com isso.<\/p>\n<p>O que <em>ex-siste<\/em> no corpo \u00e9 o \u00eaxtimo, neologismo lacaniano para se referir ao que h\u00e1 de mais \u00edntimo e, por outra face, externo, por permanecer fora do campo simb\u00f3lico. O resto que escapa do banho de linguagem, por isso se conserva estranho (Gon\u00e7alves, 2014). Estranho, mas t\u00e3o familiar que podemos cerni-lo no \u00e2mago do ser.<\/p>\n<p>Ao construir a tabela da sexua\u00e7\u00e3o, Lacan (1972-3) faz a distin\u00e7\u00e3o entre o gozo masculino e o gozo feminino e, ressalva, isso n\u00e3o se restringe ao sexo biol\u00f3gico: \u201co homem, uma mulher, n\u00e3o s\u00e3o nada mais que significantes\u201d (p.45). Logo, feminino \u00e9 um modo de gozo suplementar. Falamos de um <em>mais, ainda<\/em>, um gozo que se abre ao infinito, al\u00e9m dos contornos precisos do falo. \u201cEsse gozo que se experimenta e do qual n\u00e3o se sabe nada, n\u00e3o \u00e9 ele o que nos coloca na via da <em>ex-sist\u00eancia<\/em>? (Lacan, 1972-3, p.82).<\/p>\n<p>Lacan (1972-3) aproxima o feminino e o m\u00edstico, a dimens\u00e3o do inef\u00e1vel que escapa \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o de um significante que lhe contenha, portanto, <em>ex-siste<\/em> aos discursos e s\u00f3 pode ser <em>n\u00e3otodo<\/em> apreendido, Um a Um. Assim como <em>A <\/em>mulher, n\u00e3o h\u00e1 significante que a vista toda, tampouco \u00e0 todas. Nessa perspectiva, Brousse (2019) distingue o real do corpo do corpo enquanto semblante, \u201ca carne humana n\u00e3o tem identidade\u201d (p.27). Podemos dizer de um corpo de f\u00eamea, um corpo capaz de gerar um filho; mas, o corpo da mulher, isso n\u00e3o h\u00e1 signo que o contemple, sen\u00e3o pela via do discurso, e esse, por sua vez, \u00e9 plural e mut\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para seguir, trago trechos de O Leopardo \u00e9 um animal delicado, de Marina Colasanti (1998), com suas letras enredadas \u00e0 er\u00f3tica e ao desencontro pr\u00f3prio dos sexos. Escolho esse conto porque ele nos d\u00e1 o retrato de um corpo feminino, enquanto discurso, e tamb\u00e9m anuncia algo do gozo feminino, que pode tomar o corpo de uma mulher. Proponho uma discrimina\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, haja vista que os tr\u00eas registros \u2013 real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio &#8211; formam um cruzamento indissoci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Colasanti descreve a cena de uma mulher em seus afazeres dom\u00e9sticos, quando \u00e9 surpreendida pela chegada de um evento na cidade interiorana onde vive:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO pensamento deslizou sem ruptura para o seu arm\u00e1rio, escolhendo mentalmente a roupa que ia usar, o vestido vermelho de bolinhas, porque tinha um jeito de seda e uma saia god\u00ea que lhe acariciaria as coxas quando andasse sobre os saltos altos em meio aos sons e \u00e0 gente toda\u201d (Colasanti, 1998, p.82).<\/p><\/blockquote>\n<p>No fragmento acima, apanhamos tra\u00e7os do feminino em nossa geografia \u2013 o vestido, as coxas, o salto alto. \u201cAproveitou para passar esmalte nas unhas, de p\u00e9 sob a luz forte do espelho<em>\u201d<\/em> (Colasanti, 1998, p. 83). Sublinho o fundo misterioso que permeia a narrativa e marca a mulher como aquela que esconde algo por tr\u00e1s do que mostra. O que, apesar da \u201cluz forte\u201d, permanece velado, convoca a interroga\u00e7\u00e3o freudiana: o que quer uma mulher? Laurent (2012) discorre sobre o sil\u00eancio que se instala nessa quest\u00e3o. Ao que n\u00e3o \u00e9 descrit\u00edvel do gozo feminino, resta <em>si-escrever<\/em>, letra artesanal, inventada, que s\u00f3 se l\u00ea sob a \u201cluz forte\u201d da singularidade e, ainda assim, diz n\u00e3o tudo.<\/p>\n<p>O conto desenha a busca da personagem por um encontro sexual, por um deleite que fosse capaz de tir\u00e1-la da apatia cotidiana. A apreens\u00e3o lacaniana de um gozo n\u00e3o localizado, que transborda, refere-se a um acontecimento de corpo que pode desaguar tanto em estrago, o que Lacan nomeia devasta\u00e7\u00e3o, quanto no deslumbramento, como narrado nesse trecho:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSentindo que na boca o c\u00e9u se abria, permitindo que perfumes e sabores lhe invadissem a cabe\u00e7a. Era fogo sobre a l\u00edngua. E a l\u00edngua se inundou para receb\u00ea-lo. O fino punhal da pimenta rasgou-lhe o nariz. A cor o aroma a quentura daquela comida deslizaram garganta abaixo abrasando-lhe o corpo\u201d (Colasanti, 1998, p. 85).<\/p><\/blockquote>\n<p>Aqui as fronteiras entre dentro e fora tornam-se evanescidas. Com o codinome Leopardo, Colasanti circunda o inomin\u00e1vel que <em>ex-siste<\/em> no gozo da personagem. T\u00e3o quanto delicado, o Leopardo \u00e9 um animal visceral.<\/p>\n<p>\u201cSentiu as unhas viscosas, olhou os dedos tingidos de vermelho, podia ser sangue, podia ser a luz [&#8230;]. Limpou os dedos no vestido, ajeitou os cabelos com as costas da m\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o percebeu que tinha esquecido as sand\u00e1lias\u201d (p.89). O conto \u00e9 finalizado nesse ponto, e eu tamb\u00e9m concluo, assinalando que um corpo de mulher goza no eco dos significantes que lhe fazem marca. Mas n\u00e3o s\u00f3, pois l\u00e1 antes da palavra fazer signific\u00e2ncia, h\u00e1 vest\u00edgios de uma puls\u00e3o que insiste e n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. Falamos do real, e \u201co real \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante, \u00e9 o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d (Lacan, 1972-3, p.140).<\/p>\n<p>Uma mulher pode ex-sistir, tornando-se, fazendo-se, nas sutilezas de seu pr\u00f3prio timbre. \u201cEstou me criando [&#8230;] D\u00f3i. Mas \u00e9 dor de parto\u201d (Lispector, 2019, p. 55). \u00a0Bem dizer o feminino \u00e9 transformar o sil\u00eancio da mudez em intervalos de escans\u00e3o que possibilitam compor uma can\u00e7\u00e3o-corpo, como metaforiza Lacan ao falar do litoral, onde a imensid\u00e3o do mar encontra alguma borda, n\u00e3o para conter sua pot\u00eancia, mas para possibilitar la\u00e7os. Feminino \u00e9 mist\u00e9rio. Ser mulher \u00e9 inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>BROUSSE, M.-H. <strong>Mulheres e Discursos<\/strong>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2019.<\/h6>\n<h6>COLASANTI, M. <strong>O leopardo \u00e9 um animal delicado<\/strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.<\/h6>\n<h6>GON\u00c7ALVES, N. In: <strong>Discusi\u00f3n sobre extimidad: seminario itinerante clinico<\/strong>. Bogot\u00e1 D.C., 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230;ou pior<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1971-2\/2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1972-3\/2008.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. <strong>A psican\u00e1lise e a escolha das mulheres. <\/strong>Belo Horizonte: Scriptum, 2012.<\/h6>\n<h6>LISPECTOR, C. <strong>\u00c1gua Viva<\/strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Delza Eloy de Santana Gon\u00e7alves \u00a0\u201cO excesso de mim chega a doer e quando estou excessiva tenho que dar de mim como o leite que se n\u00e3o fluir rebenta o seio.\u201d \u00b9 A psican\u00e1lise nos convoca a experimentar na carne suas postula\u00e7\u00f5es. 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