{"id":2121,"date":"2022-12-16T17:05:53","date_gmt":"2022-12-16T20:05:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2121"},"modified":"2022-12-16T17:05:53","modified_gmt":"2022-12-16T20:05:53","slug":"nao-ceder-ao-primeiro-convite-da-tendencia-homossexual-em-schreber1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/12\/16\/nao-ceder-ao-primeiro-convite-da-tendencia-homossexual-em-schreber1\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00e3o ceder ao primeiro convite\u201d: da tend\u00eancia homossexual em Schreber[1]"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2122\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-007-Nelson-Matheus-Silva-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-007-Nelson-Matheus-Silva-300x300.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-007-Nelson-Matheus-Silva.png 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-007-Nelson-Matheus-Silva-150x150.png 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-007-Nelson-Matheus-Silva-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Nelson Matheus Silva<\/h6>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro encontrarmos em Lacan um esfor\u00e7o de conduzir algum pressuposto freudiano mais al\u00e9m daquilo que permitiu ao pr\u00f3prio Freud assimilar no que tange a uma certa quest\u00e3o como parte de um dado mecanismo que se lhe era apresentado. Em outras palavras, j\u00e1 naquilo que Lacan mesmo chama de \u201cprimeiro ensino\u201d (1964\/1988, p. 24) nos \u00e9 poss\u00edvel extrair o movimento presente dele de se servir da estrada principal erigida e sedimentada por Freud, para, num trabalho constante, poder ir al\u00e9m dela. Para o encontro de hoje, escolhi trabalhar um tema que perpassa toda a discuss\u00e3o do caso do presidente Schreber, por ser ela a primeira postula\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica oferecida pela psican\u00e1lise a respeito do qual se daria o mecanismo da paranoia, a saber, uma defesa contra uma tend\u00eancia homossexual.<\/p>\n<p>Na aula em que Lacan destaca o enunciado proferido por Schreber, \u201c<em>n\u00e3o ceder ao primeiro convite<\/em>\u201d (LACAN, 1955-56\/1988, p.318), a um s\u00f3 tempo ele tanto nos adverte que na ideia da tend\u00eancia homossexual pode ter \u201coutra coisa\u201d como tamb\u00e9m p\u00f5e em evid\u00eancia a fun\u00e7\u00e3o do <em>tu<\/em> em sua rela\u00e7\u00e3o com o <em>eu<\/em>, e esse ponto \u00e9 essencial. Para tanto, cito Lacan, \u201cquanto a saber o que \u00e9 que \u00e9 essa homossexualidade, em que ponto da economia do sujeito ela interv\u00e9m, como ela determina a psicose &#8211; creio poder testemunhar que s\u00f3 h\u00e1 de esbo\u00e7ado, neste sentido, encaminhamentos os mais imprecisos, e mesmo os mais opostos\u201d (LACAN, 1955-56\/1988, p.41).<\/p>\n<p>Para Freud (1911\/2010), o que importava para entender as psicoses n\u00e3o era o sintoma, como nos casos de neurose, mas o mecanismo sobre o qual ela se funda. Na \u00e9poca em que ele destrincha o caso do presidente Schreber &#8211; vale ressaltar que Freud se dedicou \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de variadas hist\u00f3rias cl\u00ednicas para concluir sua hip\u00f3tese -, e apoiado sobre sua teoria do autoerotismo, que diz do percurso da economia libidinal, cujo caminho segue desse primeiro tempo l\u00f3gico &#8211; o autoerotismo &#8211; para o amor objetal, Freud vai afirmar que o del\u00edrio do sujeito paranoico remete \u00e0 esta etapa primeira do desenvolvimento libidinal. Em 1911, ele dir\u00e1 que essa passagem se d\u00e1 pela sa\u00edda de uma suposta homossexualidade, marcada por um est\u00e1dio onde o indiv\u00edduo toma a si mesmo, o seu pr\u00f3prio corpo, como objeto de amor, em dire\u00e7\u00e3o a uma heterossexualidade, onde uma outra pessoa, com genitais distintos, \u00e9 tomada como objeto de amor. Freud sup\u00f5e, a grosso modo, que no caso Schreber, a mo\u00e7\u00e3o pulsional homossexual, ent\u00e3o recalcada, retorna de um ponto inassimil\u00e1vel, provocando o desencadeamento do del\u00edrio do doente.<\/p>\n<p><strong>O registro imagin\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>O que parece not\u00e1vel nessa hip\u00f3tese, n\u00e3o \u00e9 a correla\u00e7\u00e3o direta que Freud tenta estabelecer entre o fator sexual, da suposi\u00e7\u00e3o de uma escolha objetal e o retorno daquilo que teria sido recalcado, com a perda da realidade na psicose, mas o ponto para onde o sujeito regride ao ter sua realidade dissolvida. N\u00e3o passa despercebido para Freud (1914\/2010), que para alguns sujeitos essa fase intermedi\u00e1ria, chamada de narcisismo, entre o autoerotismo e a escolha de amor objetal, pode fixar uma grande quantidade de libido.<\/p>\n<p>O narcisismo, que corresponde a esse momento de organiza\u00e7\u00e3o da energia libidinal, tem como correlato, se for poss\u00edvel assim diz\u00ea-lo, o primeiro tempo do complexo de \u00c9dipo. Lacan (1949\/1998) formalizou esse tempo da constitui\u00e7\u00e3o subjetiva a partir de seu esquema do est\u00e1dio do espelho, como referente \u00e0 a\u00e7\u00e3o ps\u00edquica necess\u00e1ria que marcaria a entrada no narcisismo, etapa onde se desenrola a forma\u00e7\u00e3o do <em>eu<\/em> [je] dada pela assun\u00e7\u00e3o jubilat\u00f3ria da imagem de si mesmo e sua posterior simboliza\u00e7\u00e3o &#8211; uma passagem que se d\u00e1 da fragmenta\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es parciais no corpo tido como despeda\u00e7ado \u00e0 unidade do corpo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O est\u00e1dio do espelho, para esclarecer de forma breve esse ponto, pode ser dividido em tr\u00eas tempos l\u00f3gicos. Num primeiro tempo, o sujeito enxerga uma imagem, mas n\u00e3o se v\u00ea nela; o segundo tempo \u00e9 marcado por um transitivismo, ou seja, h\u00e1 uma indetermina\u00e7\u00e3o de quem v\u00ea e est\u00e1 sendo visto na dimens\u00e3o especular. \u00c9 nesse tempo que podemos localizar tanto a rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade que o <em>eu<\/em> estabelece com o <em>tu<\/em> &#8211; o outro especular &#8211; ao mesmo tempo que se presentifica uma desorienta\u00e7\u00e3o sobre quem \u00e9 o <em>eu<\/em> e quem \u00e9 o <em>tu<\/em>. Se tomarmos como exemplo o pr\u00f3prio desenvolvimento de Freud (1911\/2010) a respeito de sua hip\u00f3tese do caso Schreber, podemos dizer que <u>onde<\/u> h\u00e1 a evoca\u00e7\u00e3o do pensamento &#8220;eu n\u00e3o o amo&#8221;, o &#8220;tu me me odeias&#8221; adv\u00e9m no lugar. Isso, ent\u00e3o, d\u00e1 corpo ao problema que objetivo desenvolver aqui. No terceiro tempo da rela\u00e7\u00e3o com a imagem, ocorre a entrada do simb\u00f3lico por meio de um Outro, externo \u00e0 cena, que surge e aponta o <em>eu<\/em> daquele se v\u00ea, e reconhece a imagem refletida no espelho, &#8220;sim, \u00e9 voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s do Outro que nos fazemos reconhecer, por meio do qual antes ele j\u00e1 havia sido reconhecido. O est\u00e1dio do espelho, com isso, institui n\u00e3o s\u00f3 a forma\u00e7\u00e3o do <em>eu<\/em>, mas o lugar do Outro como alteridade. Se na psicose Outro \u00e9 absoluto e adv\u00e9m como perseguidor e gozador, \u00e9 porque se trata de um outro capturado dentro da dimens\u00e3o indissoci\u00e1vel do pr\u00f3prio <em>eu<\/em>, no registro imagin\u00e1rio. \u201cJamais houve <em>tu<\/em> em outro lugar do que ali onde se diz <em>tu<\/em>\u201d (LACAN, 1955-56\/1988, p.318). O mecanismo da alucina\u00e7\u00e3o verbal, como nos ensina Lacan, \u00e9 majorit\u00e1rio em nos demonstrar que aquilo que o sujeito diz ouvir \u00e9 a boca dele mesmo que balbucia, tomada como sendo um outro externo \u00e0 cena. O Outro simb\u00f3lico \u00e9 por estrutura uma dial\u00e9tica superposta no plano do imagin\u00e1rio. \u00c9 somente quando a imagem especular se unifica, onde antes havia um corpo tido como despeda\u00e7ado, que podemos falar de rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica M\u00e3e-Crian\u00e7a. Tal dialetiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 na psicose.<\/p>\n<p>No caso Schreber, constatamos que h\u00e1 uma fixa\u00e7\u00e3o da libidido nesse registro do imagin\u00e1rio, como tamb\u00e9m se evidencia uma dilui\u00e7\u00e3o de sua imagem narc\u00edsica, ao que Lacan chamou de regress\u00e3o t\u00f3pica ao est\u00e1dio do espelho, o que nos \u00e9 demonstrado quando de sua representa\u00e7\u00e3o como um \u201ccad\u00e1ver leproso conduzindo um outro cad\u00e1ver leproso\u201d. \u00c9 interessante notar aqui a presen\u00e7a desse duplo especular j\u00e1 presente na entrada da psicose de Schreber.<\/p>\n<p>Enquanto a realidade montada por Schreber se dissolvia em cascata, uma dimens\u00e3o mais real de sua constitui\u00e7\u00e3o se apresentava. Como esclarece Daniel Cena Re\u00eddo (2017\/2019), \u201cen el caso Schreber la ca\u00edda de la imagen especular, su diluci\u00f3n, da como resultado la aparici\u00f3n de los cad\u00e1veres leprosos que desnudan al objeto (a) como desecho (lixo) o carro\u00f1a (carni\u00e7a) universal. Revelado el lugar de objeto (a) que ocupa el sujeto psic\u00f3tico como desecho\u201d.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es delirantes encontradas por Schreber s\u00e3o recursos que ele utiliza para tentar sair desse lugar de dejeto na rela\u00e7\u00e3o que se estabelece com o Outro. Do \u201cassasinato de almas\u201d, que n\u00e3o lhe resultou nenhum tipo de apaziguamento, o percurso para restabelecer a realidade conduziu o delirante a uma sua solu\u00e7\u00e3o hiperb\u00f3lica, n\u00e3o de ser um homem castrado, onde se situaria numa posi\u00e7\u00e3o feminina, mas de se <em>feminizar<\/em> (Verweiblichung) at\u00e9 se transformar na mulher de Deus, o que culminar\u00e1 em dar exist\u00eancia ali onde a n\u00e3o-exist\u00eancia tem o seu lugar.<\/p>\n<p><strong>Sobre a transfer\u00eancia na paranoia<\/strong><\/p>\n<p>Nesse ideal delirante, Flechsig assumiu uma posi\u00e7\u00e3o determinante diante de Schreber, seu paciente. O fato do m\u00e9dico interessar-se pelo que ocorria com seu corpo, para pesquisas cient\u00edficas, gerava intensa ang\u00fastia em Schreber, o que nos revela a l\u00f3gica por onde se deu a transfer\u00eancia nesse caso. Freud (1911\/2010) j\u00e1 havia destacado que diante de Flechsig, o paciente aderiu a uma suposta posi\u00e7\u00e3o feminina, o que estaria vinculado \u00e0 tend\u00eancia homossexual recalcada. Por\u00e9m, como podemos verificar \u00e9 na condi\u00e7\u00e3o de objeto a, como dejeto, como objeto gozado, que Schreber se localiza diante de seu m\u00e9dico. O problema com a alteridade invade a transfer\u00eancia e a consolida.<\/p>\n<p>Flechsig \u00e9 aspirado para o del\u00edrio de Schreber assumindo vers\u00f5es variadas e conflitivas dessa miragem narc\u00edsica fragmentada a qual o nosso doente regride. \u201cE vemos assim, em toda extens\u00e3o dessa hist\u00f3ria, um Flechsig fragmentado, um Flechsig superior, o Flechsig luminoso, e uma parte inferior que chega at\u00e9 a ser fragmentada entre quarenta e sessenta pequenas almas\u201d (LACAN, 1955-56\/1988, p. 119).<\/p>\n<p>Nesse lugar onde se deu a transfer\u00eancia de Schreber para com seu m\u00e9dico, h\u00e1 algo que Lacan nos ensina. Numa reca\u00edda de Schreber, Flechsig, mesmo sabendo do hist\u00f3rico de seu paciente e das tentativas frustradas de engravidar sua esposa, que tivera abortos espont\u00e2neos, \u201cdiz a ele que, desde a \u00faltima vez, fizeram-se enormes progressos em psiquiatria, e que se vai bot\u00e1-lo num desses soninhos que vai ser bem <em>fecundo<\/em>\u201d (LACAN, 1955-56\/1988, p. 356). Lacan alerta que talvez justo isso jamais deveria ter sido dito. Nessa mesma noite Schreber tenta se enforcar.<\/p>\n<p>Benetti (2017), tomando como refer\u00eancia uma articula\u00e7\u00e3o entre o primeiro e o \u00faltimo ensino de Lacan, esclarece que a transfer\u00eancia na psicose paran\u00f3ica deve trabalhar \u201ccontra\u201d a met\u00e1fora delirante. Isso porque, diante da irrup\u00e7\u00e3o de um \u201c<em>Um-pai<\/em> como sem raz\u00e3o\u201d se produz \u201co efeito de sentido como de for\u00e7amento para o campo de um Outro a ser pensado como o mais estranho a qualquer sentido\u201d (LACAN, 1972\/2003, p. 466). Nesse campo, como sabemos, o sujeito psic\u00f3tico, desnudado em sua posi\u00e7\u00e3o, tende a incluir no del\u00edrio aquele ou aquela que para ele se apresenta como esse Outro sem media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, um Outro gozador, que \u00e9 facilmente capturado pela dimens\u00e3o imagin\u00e1ria sob a qual o psic\u00f3tico est\u00e1 fixado.<\/p>\n<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o de Flechsig no del\u00edrio de Schreber, tamb\u00e9m nos ensina algo sobre a transfer\u00eancia no que verte sobre a retifica\u00e7\u00e3o. Se na neurose, a retifica\u00e7\u00e3o recai sobre o sujeito, na psicose \u00e9 o Outro que precisa ser retificado. Recordo-me de <em>I<\/em>, uma paciente psic\u00f3tica, com forte presen\u00e7a de tra\u00e7os paranoicos, que ao chegar em meu consult\u00f3rio costumava pedir para ser anunciada na portaria. A aus\u00eancia de um secret\u00e1rio que pudesse responder ao chamado do empresarial, fez como combinado que a portaria s\u00f3 entraria em contato em caso de emerg\u00eancia. A insist\u00eancia da paciente, que queria certificar-se de que o analista estaria dispon\u00edvel para ela naquele hor\u00e1rio (vale salientar que ela sempre chegava muito tempo antes do hor\u00e1rio de sua sess\u00e3o), fazia com a porteira do empresarial, constrangida diante do apela fren\u00e9tico da paciente, entrasse em contato diversas vezes.<\/p>\n<p>Numa ocasi\u00e3o, e devido \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o sucessiva da chamada ao interfone, o analista reitera o acordo feito com a administra\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio. A porteira, provavelmente nervosa diante da situa\u00e7\u00e3o, repassa o desconforto do analista \u00e0 paciente que aguarda uma confirma\u00e7\u00e3o. O enunciado da paciente diz dos efeitos apaziguadores que se sucederam ap\u00f3s esse evento: \u201cdescobri que voc\u00ea \u00e9 gente tamb\u00e9m, e fica irritado\u201d. Na manobra transferencial, o analista consente com a interpreta\u00e7\u00e3o da paciente que falou isso estampando um sorriso como n\u00e3o lhe era de costume.<\/p>\n<p><strong>Para concluir<\/strong><\/p>\n<p>Nesse sentido, \u201cse Freud depositou tanta \u00eanfase na quest\u00e3o homossexual, foi, primeiro, para demonstrar que ela condiciona a ideia de grandeza no del\u00edrio, por\u00e9m, mais essencialmente, ele denuncia ali o modo de alteridade segundo a qual se efetua a metamorfose do sujeito, ou, em outras palavras, o lugar onde se sucedem suas \u201ctransfer\u00eancias\u201d delirantes\u201d (LACAN, 1957-58\/1998, p. 551). Em nenhum momento, como podemos acompanhar ao longo da obra freudiana e nos debates que Lacan levanta ao longo de seu Semin\u00e1rio 3, servindo-se dos pontos levantados pela sra. Ida Malcapine, se trata, em Schreber, de uma homossexualidade como escolha de amor objetal.<\/p>\n<p>No que tange \u00e0 escolha de objeto e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 imposs\u00edvel apont\u00e1-las sem levarmos em conta o est\u00e1dio do espelho e a refer\u00eancia \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. \u201cA realiza\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o sexual no ser humano est\u00e1 ligada, nos diz Freud &#8211; e nos diz a experi\u00eancia &#8211; \u00e0 prova da travessia de uma rela\u00e7\u00e3o fundamentalmente simbolizada, a do \u00c9dipo\u201d (LACAN, 1955-56\/1988, p. 208).<\/p>\n<p>Se Freud (1914\/2010) insiste que h\u00e1 na escolha de objeto homossexual a predom\u00e2ncia do tipo narc\u00edsico, seja em sua regress\u00e3o ou fixa\u00e7\u00e3o, disso n\u00e3o se extrai nenhum privil\u00e9gio. O tema da homossexualidade, como \u00e9 posto no narcismo, s\u00f3 vem a ser esclarecido por Lacan em seu escrito \u201cO aturdito\u201d, em 1972, afirmando ter sido ele o \u00fanico a ter tentado desfazer tal equ\u00edvoco. Ao descrever o que seria o pr\u00f3prio estatuto do homem &#8211; eu diria, do lado homem -, Lacan o localiza como sendo o do homossexual. \u201cIsto \u00e9, com o que at\u00e9 aqui era chamado de homem resumido, que \u00e9 o prot\u00f3tipo do semelhante\u201d (LACAN, 1972\/2003, p. 468). Assim, ainda com Lacan (1972\/2003), sabemos que o estatuto do h\u00e9teros pertence, n\u00e3o \u00e0 escolha de amor objetal nem \u00e0s imagens dos caracteres secund\u00e1rios que cada um carrega no corpo, mas \u00e0 dimens\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>Se a dissolu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria em Schreber revela-nos uma fragilidade, e at\u00e9 um n\u00e3o atravessamento, no que concerne ao est\u00e1dio do espelho, como falar em escolha escolha de objeto na psicose?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>BENETTI, Antonio (2017) <strong>L\u00f3gica da transfer\u00eancia e psicose.<\/strong> Site da Se\u00e7\u00e3o Bahia da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Salvador, novembro de 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.ebpbahia.com.br\/jornadas\/2017\/logica-da-transferencia-e-psicose\/\">http:\/\/www.ebpbahia.com.br\/jornadas\/2017\/logica-da-transferencia-e-psicose\/<\/a>&gt; \u00daltimo acesso em: 2 de setembro de 2022.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund (1911) <strong>Observa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia relatado em uma autobiografia: O caso Schreber.<\/strong> <em>In:<\/em> Obras completas de Sigmund Freud, volume 11. Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo, Editora Cia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund (1914) <strong>Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo.<\/strong> <em>In:<\/em> Obras completas de Sigmund Freud, volume 12. Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo, Editora Cia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques (1955-56) <strong>O semin\u00e1rio, livro 3: As psicoses.<\/strong> Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques (1957-58) <strong>De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose.<\/strong> <em>In:<\/em> Escritos. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques (1964) <strong>O semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentos da psican\u00e1lise.<\/strong> Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques (1972) <strong>O aturdito.<\/strong> <em>In:<\/em> Outros escritos. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>RE\u00cdDO, Daniel Cena (2017) <strong>Distorsiones y soluciones del narcisismo en la psicosis.<\/strong> Site da Escuela Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis del Campo Freudiano, Barcelona, mar\u00e7o de 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/elp.org.es\/distorsiones-y-soluciones-del-narcisismo-en-la-psicosis-daniel-cena-reido\/\">https:\/\/elp.org.es\/distorsiones-y-soluciones-del-narcisismo-en-la-psicosis-daniel-cena-reido<\/a>&gt; \u00daltimo acesso em: 10 de agosto de 2022.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Trabalho apresentado no N\u00facleo de Psicose associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Matheus Silva N\u00e3o \u00e9 raro encontrarmos em Lacan um esfor\u00e7o de conduzir algum pressuposto freudiano mais al\u00e9m daquilo que permitiu ao pr\u00f3prio Freud assimilar no que tange a uma certa quest\u00e3o como parte de um dado mecanismo que se lhe era apresentado. 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