{"id":2124,"date":"2022-12-16T17:07:07","date_gmt":"2022-12-16T20:07:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2124"},"modified":"2022-12-16T17:07:07","modified_gmt":"2022-12-16T20:07:07","slug":"contemporaneidade-e-sintoma-obsessivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/12\/16\/contemporaneidade-e-sintoma-obsessivo\/","title":{"rendered":"Contemporaneidade e sintoma obsessivo"},"content":{"rendered":"<h6><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2125\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-006-Ruth-Cavalcanti-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-006-Ruth-Cavalcanti-300x300.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-006-Ruth-Cavalcanti.png 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-006-Ruth-Cavalcanti-150x150.png 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-006-Ruth-Cavalcanti-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Ruth Cavalcanti<br \/>\n<\/strong>Aluna do Curso Regular do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/h6>\n<blockquote><p>\u00a0\u201cN\u00e3o \u00e9 certo que a histeria ainda exista. Mas se h\u00e1 uma neurose que ainda existe \u00e9 a neurose obsessiva\u201d (LACAN, 1979, p. 219-220, apud BARROS, p. 84)<\/p><\/blockquote>\n<p>Afinal, por que a neurose obsessiva certamente ainda existe e \u00e9 chamada neurose do futuro? A hip\u00f3tese \u00e9 de que o decl\u00ednio do Nome-do-pai e do falo como significante do desejo tenham feito com que esse prevale\u00e7a como significante do gozo, por meio de imperativos que aparecem nas compuls\u00f5es, obsess\u00f5es ou fantasias. Atos autom\u00e1ticos e em s\u00e9rie poderiam ser tomados como compuls\u00f5es, nas quais se alinhariam as toxicomanias, as depress\u00f5es e os fen\u00f4menos de desinser\u00e7\u00e3o social, todos marcados por uma mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com a alteridade e o decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna. \u201cO que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sua exist\u00eancia, mas a possibilidade de, por um lado, formarem uma unidade cl\u00ednica, e, por outro, de serem endere\u00e7adas aos psicanalistas para tratamento\u201d (Ibid, p. 110-115).<\/p>\n<p>Podemos observar como as obsess\u00f5es e compuls\u00f5es ainda se fazem presentes na cl\u00ednica e nos la\u00e7os sociais. Sabemos que os sintomas n\u00e3o s\u00e3o desligados da sua \u00e9poca e \u00e9 interessante observar como a maior preval\u00eancia da neurose obsessiva, hoje, \u00e9 alimentada pelos dispositivos sociais, que funcionariam como um est\u00edmulo, no sujeito, ao recrudescimento dos sintomas obsessivos, com maior n\u00edvel de ang\u00fastia. Isso pode ser observado, por exemplo, nas redes sociais, na constante busca por likes do Instagram, ou na ansiedade por respostas imediatas no Whatsapp.<\/p>\n<p>O neur\u00f3tico obsessivo tem uma fantasia erotoman\u00edaca de oferecer ao outro uma bela imagem de si (ALVARENGA, 2019, p. 118). Nessa conjuntura, as redes sociais abastecidas por imagens laboriosamente editadas, postadas de forma quase compulsiva, tornam-se uma fonte praticamente inesgot\u00e1vel para a sustenta\u00e7\u00e3o do sintoma obsessivo.<\/p>\n<p>Como o pr\u00f3prio Freud ressaltou, nos casos de neurose obsessiva, prevalece a onipot\u00eancia atribu\u00edda aos pensamentos, sentimentos e desejos. Onipot\u00eancia que conflita com a impot\u00eancia dos impedimentos, d\u00favidas e proibi\u00e7\u00f5es que marcam a impossibilidade do desejo para o obsessivo (FREUD, 2013, p. 94-95).<\/p>\n<p>S\u00e9rgio de Campos nos mostra como o obsessivo lan\u00e7a m\u00e3o de diferentes estrat\u00e9gias para se defender, de forma a ocultar o seu desejo e estar sempre pronto para a guerra (CAMPOS, 2015, p. 164). Numa sociedade que estimula a competitividade, busca a super compet\u00eancia, m\u00e1xima efici\u00eancia e grande desempenho, onde todos s\u00e3o observados pelo Big Brother das redes sociais, o obsessivo \u00e9 levado a aprimorar seus \u201ctalentos naturais\u201d e, ao mesmo tempo, se angustia diante dos imperativos que exigem dele sempre uma proeza maior para que se sinta reconhecido.<\/p>\n<p>O momento contempor\u00e2neo tem criado uma mentalidade social que parece mimetizar o psiquismo do sujeito no campo da neurose obsessiva, formando uma estrutura que potencializa a culpa e paralisa o desejo. Por outro lado, a alian\u00e7a entre ci\u00eancia, tecnologia e capitalismo parece potencializar alguns tra\u00e7os de neurose obsessiva observados, nos nossos dias, pela modifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es do sujeito com os objetos de consumo (BARROS, 2012, p. 69).<\/p>\n<p>Atualmente, n\u00e3o concentramos o nosso desejo por muito tempo em um s\u00f3 objeto, mas em uma s\u00e9rie, em princ\u00edpio, infinita de artigos de consumo (BAUMANN, 1999, apud BARROS, p. 70). \u201cComo disse Lacan a respeito da neurose obsessiva, h\u00e1 um predom\u00ednio da meton\u00edmia, e, em consequ\u00eancia, o sujeito fica impossibilitado de saber que objeto causa o seu desejo\u201d (Ibid, p. 71). \u201cO ideal para o obsessivo \u00e9 que esse movimento fosse infinito, que nunca houvesse um ponto de parada, pois, enquanto se mant\u00e9m o deslizamento, n\u00e3o se imp\u00f5e para ele a quest\u00e3o do seu desejo, que pode se manter imposs\u00edvel\u201d (Ibid, 49).<\/p>\n<p><strong>Dire\u00e7\u00e3o do tratamento<\/strong><\/p>\n<p>O sintoma obsessivo \u00e9 uma tentativa de restitui\u00e7\u00e3o do falo, de fazer existir a pot\u00eancia. Como tratamento, Elisa Alvarenga sugere que o manejo cl\u00ednico n\u00e3o leve \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o desse falo como instrumento do poder, mas a fazer do falo o significante do desejo e permitir que o sujeito se confronte com a castra\u00e7\u00e3o, primeiro no campo do outro, depois chegando a subjetivar a sua pr\u00f3pria castra\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00f3 quando o sujeito percebe que n\u00e3o \u00e9 o falo, \u00e9 que ele poder\u00e1 t\u00ea-lo ou n\u00e3o t\u00ea-lo (ALVARENGA, 2019, p. 52-54).<\/p>\n<p>Diante de um analisante com tra\u00e7os obsessivos, o analista procura perturbar a defesa, possibilitando a histeriza\u00e7\u00e3o do discurso, \u201cpara indicar uma modifica\u00e7\u00e3o na posi\u00e7\u00e3o do sujeito que lhe permita falar a partir da sua divis\u00e3o, e n\u00e3o somente, como seria natural no caso das obsess\u00f5es, das suas defesas\u201d (BARROS, 2012, p. 31). Esta \u00e9 tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o para entrada em an\u00e1lise. \u201cA entrada no dispositivo anal\u00edtico permite sair do funcionamento compulsivo, onde prevalece a posi\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, ou do funcionamento oblativo, que gira em torno dos objetos oferecidos ao Outro\u201d (ALVARENGA, p. 118). \u00c9 preciso atravessar a fantasia f\u00e1lica, a fantasia de completar o outro ou degrad\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O dispositivo anal\u00edtico parece funcionar para os sujeitos obsessivos somente depois de uma passagem pela transfer\u00eancia negativa, sob a forma de desconfian\u00e7a ou hostilidade (BARROS, 2012, p. 37). Assim, depois de o analista sobreviver a esse momento, a sua interven\u00e7\u00e3o pode se manter num sentido mais ativo, n\u00e3o s\u00f3 interpretando, mas por meio de atos procurando \u2018sacudir\u2019 o sujeito, buscando que ele saia do gozo f\u00e1lico para um gozo mais flex\u00edvel, n\u00e3o-todo f\u00e1lico, e possa lidar com o gozo feminino, na mulher e nele mesmo. O manejo teria o sentido de quebrar a fortaleza f\u00e1lica, para que o analisante possa sair de uma posi\u00e7\u00e3o enrijecida e permitir uma maior aproxima\u00e7\u00e3o do outro. O analista buscaria, assim, levar o analisante a sair da oblatividade, dar o que se tem, para a generosidade, dar o que n\u00e3o se tem (ALVARENGA, 1921).<\/p>\n<p>De modo geral, os sintomas compulsivos atuais se mostram dispersos e recusam, a princ\u00edpio, o saber que estaria contido na interpreta\u00e7\u00e3o. Acompanhando Barros, \u00e9 poss\u00edvel verificar que:<\/p>\n<p>Se antes era a esperan\u00e7a de produzir um saber sobre a causa do seu sofrimento que mobilizava algu\u00e9m at\u00e9 a an\u00e1lise, agora \u00e9 o pr\u00f3prio encontro com o analista que tem a fun\u00e7\u00e3o de despertar o saber e fazer com que o sintoma, que se apresenta inicialmente como pura repeti\u00e7\u00e3o, produza o seu Outro e de alguma forma permita a constru\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o social poss\u00edvel (Ibid, p. 115).<\/p>\n<p>Em tempos de novos\/velhos sintomas, cabe ao analista ir al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o e ser capaz de suportar este lugar de transfer\u00eancia negativa ou at\u00e9 mesmo inexistente e se oferecer como objeto de amor e \u00f3dio ao sujeito que experimenta uma satisfa\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria com o seu sintoma.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>(1) \u00a0Alvarenga, Elisa. Neurose obsessiva no feminino, Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2019. \u00a0Alvarenga, Elisa. Aula proferida aos alunos do Curso Regular do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia, em 2021.<\/h6>\n<h6>(2)\u00a0\u00a0 Balmann, Z. Globaliza\u00e7\u00e3o &#8211; As consequ\u00eancias humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1999.<\/h6>\n<h6>(3) \u00a0Barros, Romildo. Compuls\u00f5es e obsess\u00f5es, uma neurose de futuro. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2012.<\/h6>\n<h6>(4) \u00a0\u00a0Campos, S\u00e9rgio. Supereu, das origens aos seus destinos. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2015.<\/h6>\n<h6>(5) Freud, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2013.<\/h6>\n<h6>(6)\u00a0 Lacan, J: Lettres de l\u00b4Ecole, n\u00ba 25, vol. II, 1979, pag. 219-220<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruth Cavalcanti Aluna do Curso Regular do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia \u00a0\u201cN\u00e3o \u00e9 certo que a histeria ainda exista. 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