{"id":2127,"date":"2022-12-16T17:09:17","date_gmt":"2022-12-16T20:09:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2127"},"modified":"2022-12-16T17:09:17","modified_gmt":"2022-12-16T20:09:17","slug":"o-amor-espera-o-gozo-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/12\/16\/o-amor-espera-o-gozo-nao\/","title":{"rendered":"O amor espera, o gozo n\u00e3o!"},"content":{"rendered":"<h6><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2128\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-005-Glauco-de-Carvalho-Morais-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-005-Glauco-de-Carvalho-Morais-300x300.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-005-Glauco-de-Carvalho-Morais-150x150.png 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-005-Glauco-de-Carvalho-Morais.png 476w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Glauco de Carvalho Morais<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o se afobe, n\u00e3o<br \/>\nQue nada \u00e9 pra j\u00e1<br \/>\nO amor n\u00e3o tem pressa<br \/>\nEle pode esperar em sil\u00eancio<br \/>\nNum fundo de arm\u00e1rio<br \/>\nNa posta-restante<br \/>\nMil\u00eanios, mil\u00eanios<br \/>\nNo ar&#8230;\u201d<br \/>\n(CHICO BUARQUE, 1993)<\/p><\/blockquote>\n<p>O axioma: &#8220;n\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual&#8221; (LACAN, 1973\/2003, p.454), parte da conjectura que a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e9 faltante, que a incompletude \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o estrutural. Antecedendo esse axioma e seguindo para uma articula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel perante essa condi\u00e7\u00e3o do sujeito, Lacan estabeleceu quatro discursos &#8211; modaliz\u00e1veis em suas disposi\u00e7\u00f5es &#8211; que organizariam as rela\u00e7\u00f5es entre sujeito, Outro, saber e objeto. O princ\u00edpio de todo discurso ou la\u00e7o social \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o do campo do sujeito com o campo do Outro, no qual se faz presente a falta, a incompletude.<\/p>\n<p>Em 1970, no Semin\u00e1rio 17 \u2013 O avesso da psican\u00e1lise, Lacan (1969-70 \/ 1992) menciona uma \u201cmuta\u00e7\u00e3o capital [&#8230;] que confere ao Discurso do Mestre seu estilo capitalista\u201d (Lacan, (1969-70 \/ 1992, p.160). Uma subvers\u00e3o no matema entre o significante e o sujeito, ser\u00e1 suficiente para constituir o que ele denominar\u00e1, em Televis\u00e3o (1974), Discurso do Capitalista \u2013 nesse discurso, o sujeito n\u00e3o se dirige a um Outro &#8211; como nos demais &#8211; mas ao objeto. Nessa nova forma de la\u00e7o, a rela\u00e7\u00e3o com o objeto \u00e9 privilegiada e promissora, pois extinguiria o mal-estar e faria existir a hipot\u00e9tica completude &#8211; a rela\u00e7\u00e3o sexual. No matema observamos que os objetos mais-de gozar <em>(a)<\/em> v\u00eam no lugar da produ\u00e7\u00e3o e, com um fr\u00e1gil anteparo da l\u00f3gica significante (S1 -&gt; S2), deixa o sujeito \u00e0 merc\u00ea dos objetos ($ &lt;- a). Isso indica que todo discurso que \u00e9 conectado no capitalismo, deixa de lado as coisas da falta, do amor. (LACAN, 1971-1972).<\/p>\n<p>Amar e falta s\u00e3o sinon\u00edmias, \u00e9 sobre o amor que Lacan (1960-61\/1992) diz: &#8220;amar \u00e9 dar aquilo que n\u00e3o se tem, a algu\u00e9m que n\u00e3o o quer&#8221; (p.122). Ainda que enigm\u00e1tico, esse axioma lacaniano resulta numa redund\u00e2ncia l\u00f3gica, visto que para amar, o sujeito precisaria reconhecer que h\u00e1 algo em si que falta e que supostamente estaria no outro.<\/p>\n<p>O tema da busca pela felicidade n\u00e3o \u00e9 novo \u00e0 psican\u00e1lise, em \u201cO mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (vol. XXI), Freud destaca que nossa pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o limita \u00e0 possibilidade de felicidade, visto que: \u2018\u2019 existe algo na natureza da puls\u00e3o sexual desfavor\u00e1vel a obten\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o plena\u201d. Frente a exist\u00eancia que \u00e9 gravosa, traz dores, desenganos e tarefas insol\u00faveis, para tolerar isso que \u00e9 pr\u00f3prio da constitui\u00e7\u00e3o, Freud diz: \u201cPara suport\u00e1-las, n\u00e3o podemos prescindir de calmantes\u201d e os situa em tr\u00eas tipos: distra\u00e7\u00f5es poderosas que nos fazem valorar um pouco nossa mis\u00e9ria, satisfa\u00e7\u00f5es substitutivas que a reduzem, e subst\u00e2ncias inebriantes que nos tornam insens\u00edveis a ela. O \u00faltimo grupo se diferencia dos outros, enquanto nos primeiros se busca reduzir a dor de existir, no \u00faltimo h\u00e1 algo do tornar-se insens\u00edvel aos fatos, a vida.<\/p>\n<p>Frente a condi\u00e7\u00e3o da felicidade &#8211; que \u00e9 sempre epis\u00f3dica e parcial &#8211; uma poss\u00edvel maneira de contornar essa limita\u00e7\u00e3o \u00e9 faz\u00ea-la constantemente exigente e imperativa. Fazer do acaso um dever que consiste em obedecer \u00e0 exig\u00eancia de gozo superegoico: \u201cGoze!\u201d, algo frequente no contempor\u00e2neo, visto que a atualidade, reflexo dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e cient\u00edficos, al\u00e9m de oferecer um consumo desenfreado, responde a esse imperativo categ\u00f3rico: goze!, que pode ser lido como um empuxo ao gozo &#8211; com ou sem o Outro.<\/p>\n<p>Se por um lado, com a a\u00e7\u00e3o da linguagem sobre o corpo, da entrada no campo do Outro, perde-se o acesso direto ao gozo e, responder ao imperativo categ\u00f3rico: goze!, de forma incessante e desenfreada \u00e9 uma das tentativas de acesso a esse gozo inacess\u00edvel; por outro, ser falante implica em necessitar do amor \u2013 \u201cdar a falta\u201d, entregar aquilo que n\u00e3o se tem&#8230;<\/p>\n<p>O gozo \u00e9 do corpo pr\u00f3prio, o desejo \u00e9 do sujeito &#8211; efeito da articula\u00e7\u00e3o significante resultante da submiss\u00e3o \u00e0 linguagem. Entre eles, o amor como ponte, como o que faz la\u00e7o. \u00a0As tentativas do sujeito contempor\u00e2neo em estreitar seus la\u00e7os com o objeto, retirando da cena o Outro s\u00e3o in\u00fameras, mas o gozo sem o Outro \u00e9 devastador e mort\u00edfero.<\/p>\n<p>O la\u00e7o, o amor, se faz necess\u00e1rio para a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito. Enquanto localizado no corpo, o gozo s\u00f3 poder\u00e1 encontrar o desejo se passar pelo campo do Outro, j\u00e1 que: \u201cO que vem em supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual \u2013 que n\u00e3o existe \u2013 \u00e9 precisamente o amor.\u201d (LACAN, 1972-73\/1985, p.62), o mesmo amor que permite ao gozo, condescender ao desejo (LACAN 1962-63\/2005, p.197).<\/p>\n<p><strong>REREF\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>Holanda, C. B. Paratodos. Futuros amantes. 1993.<\/p>\n<p>Freud, S. (1930 [1929]) O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1960-1961). O Semin\u00e1rio, livro 8 &#8211; A transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1969-1970). O semin\u00e1rio &#8211; Livro 17 \u2013 O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1972-1973). O semin\u00e1rio &#8211; Livro 20 \u2013 Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1971-1972). O semin\u00e1rio &#8211; Livro 19 &#8211; Ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/p>\n<p>Lacan, J. (1974). &#8220;Televis\u00e3o&#8221;. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glauco de Carvalho Morais \u201cN\u00e3o se afobe, n\u00e3o Que nada \u00e9 pra j\u00e1 O amor n\u00e3o tem pressa Ele pode esperar em sil\u00eancio Num fundo de arm\u00e1rio Na posta-restante Mil\u00eanios, mil\u00eanios No ar&#8230;\u201d (CHICO BUARQUE, 1993) O axioma: &#8220;n\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual&#8221; (LACAN, 1973\/2003, p.454), parte da conjectura que a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e9 faltante,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2127","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-024","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2127"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2129,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2127\/revisions\/2129"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2127"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}