{"id":2130,"date":"2022-12-16T17:10:56","date_gmt":"2022-12-16T20:10:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2130"},"modified":"2022-12-16T17:10:56","modified_gmt":"2022-12-16T20:10:56","slug":"sera-sempre-a-mesma-cicatriz1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/12\/16\/sera-sempre-a-mesma-cicatriz1\/","title":{"rendered":"SER\u00c1 SEMPRE A MESMA CICATRIZ[1]"},"content":{"rendered":"<h6><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2131\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-004-Daniela-Lima-de-Almeida-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-004-Daniela-Lima-de-Almeida-300x300.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-004-Daniela-Lima-de-Almeida-150x150.png 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-004-Daniela-Lima-de-Almeida.png 476w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Daniela Lima de Almeida<br \/>\n<\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB). P\u00f3s-graduanda em Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL). Mestranda pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (PPGPSI-UFBA)<\/h6>\n<blockquote><p>Nunca mais<br \/>\nCaminhar\u00e1s nos caminhos naturais.<br \/>\nNunca mais te poder\u00e1s sentir<br \/>\nInvulner\u00e1vel, real e densa \u2013<br \/>\nPara sempre est\u00e1 perdido<br \/>\nO que mais do que tudo procuraste<br \/>\nA plenitude de cada presen\u00e7a.<br \/>\nE ser\u00e1 sempre o mesmo sonho, a mesma aus\u00eancia.<br \/>\n(Sophia de Mello Breyner Andresen, <em>Obra Po\u00e9tica<\/em>)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O gesto freudiano que inaugura a psican\u00e1lise introduz uma quest\u00e3o sobre a natureza ps\u00edquica das forma\u00e7\u00f5es on\u00edricas. Ao extrair o sonho do campo cient\u00edfico \u2013 que o considerava como um processo fisiol\u00f3gico \u2013 e do senso comum \u2013 que encontrava nos or\u00e1culos o seu sentido \u2013, Freud (1900\/2019) chama aten\u00e7\u00e3o para a cena inconsciente, que, com seu pr\u00f3prio modo de funcionamento, faz do sonho um guardi\u00e3o do sono e uma realiza\u00e7\u00e3o de desejo sexual infantil e recalcado. Um corte epistemol\u00f3gico com a neurologia \u00e9 fundado, do qual deriva uma perspectiva in\u00e9dita a respeito dos sonhos: a inclus\u00e3o do sonhador como int\u00e9rprete da pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o on\u00edrica, o que a retira de todo destino oracular ou da pura atividade cerebral.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo escolhido por Freud, <em>Die Traumdeutung<\/em>, <em>A interpreta\u00e7\u00e3o do sonho<\/em>, j\u00e1 nos introduz um equ\u00edvoco, marca da psican\u00e1lise at\u00e9 os dias de hoje: ao mesmo tempo em que remete a interpretar o sonho, nos diz tamb\u00e9m do sonho como int\u00e9rprete (ASSEF, 2020). Na forma\u00e7\u00e3o on\u00edrica, algo \u00e9 cifrado e decifrado, embora um ponto resista \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o: o umbigo do sonho, tal como Freud (1900\/2019) nomeia ao falar de \u201cum novelo de pensamentos on\u00edricos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desembara\u00e7ar, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o contribuiu muito para o conte\u00fado do sonho. Esse, ent\u00e3o, \u00e9 o \u2018umbigo\u2019 do sonho, o ponto em que ele assenta no desconhecido\u201d (p. 530). Uma quest\u00e3o j\u00e1 se delineia, portanto: al\u00e9m do umbigo do sonho apontar para algo que n\u00e3o passa pela decifra\u00e7\u00e3o, podemos dizer que testemunha tamb\u00e9m um limite no processo de cifra\u00e7\u00e3o do inconsciente int\u00e9rprete?<\/p>\n<p>Esse emaranhado de pensamentos on\u00edricos que Freud (1900\/2019) localiza como o umbigo do sonho est\u00e1 intimamente articulado ao desejo: \u201co desejo do sonho surge ent\u00e3o de um ponto mais denso desse tecido, como o cogumelo de seu mic\u00e9lio\u201d (p. 530-1). Assim, a elabora\u00e7\u00e3o freudiana j\u00e1 indica que h\u00e1 um ponto em que o desejo escapa \u00e0 representa\u00e7\u00e3o. O que resta, ent\u00e3o, \u00e9 um movimento de busca, um impulso ps\u00edquico que impele o sujeito a retornar \u00e0 primeira viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Neste percurso, embora algo seja realizado, h\u00e1 tamb\u00e9m a repercuss\u00e3o de uma falta, uma vez que \u00e9 imposs\u00edvel atingir novamente esta primeira experi\u00eancia. Para Freud (1900\/2019), \u201cnada al\u00e9m de um desejo pode impelir nosso aparelho ps\u00edquico a trabalhar\u201d (p. 568).<\/p>\n<p>A ep\u00edgrafe deste trabalho d\u00e1 um tom ao aproximar o sonho de uma aus\u00eancia. Para efeitos deste escrito, podemos modalizar a aus\u00eancia para uma falta ou para um tra\u00e7o que engendra um contorno de um vazio. O poema de Sophia de Mello come\u00e7a por anunciar a impossibilidade de trilhar caminhos naturais. Neste verso, ela nos antecipa, pois do que se trata a entrada do sujeito na linguagem, sen\u00e3o de uma inaugura\u00e7\u00e3o de uma divis\u00e3o subjetiva, via para o desejo? Eis em Lacan (1954-1955\/1985), com Freud, uma po\u00e9tica da divis\u00e3o, esbo\u00e7ada a partir da elabora\u00e7\u00e3o on\u00edrica: \u201c[&#8230;] eu, o criador, n\u00e3o sou o criador. O criador \u00e9 algu\u00e9m maior do que eu. \u00c9 o meu inconsciente, \u00e9 esta fala que fala em mim, para al\u00e9m de mim\u201d (p. 217).<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio 2<\/em>, Lacan (1954-1955\/1985) retoma a quest\u00e3o do desejo e utiliza o significante <em>rasgado<\/em> para qualific\u00e1-lo: \u201co desejo tem um car\u00e1ter radicalmente rasgado\u201d (p. 211). Salta aos olhos que uma deriva\u00e7\u00e3o deste significante aparece conectado \u00e0 ang\u00fastia, ao instante em que, no sonho, o imagin\u00e1rio se decomp\u00f5e e em que emerge o real em sua face impenetr\u00e1vel, distante das palavras, sem media\u00e7\u00e3o, em que \u201co sujeito se depara com a experi\u00eancia de seu <em>rasgamento<\/em>, de seu isolamento com rela\u00e7\u00e3o ao mundo\u201d (LACAN, 1954-1955\/1985, p. 212).<\/p>\n<p>Entre a ang\u00fastia e o desejo, um rasgo. Mas entre um rasgo e outro, de que se trata? Fenda, rachadura, hi\u00e2ncia. De todo modo, cicatriz do inconsciente, como mais tarde Lacan (1964\/2008) elaborara no <em>Semin\u00e1rio 11<\/em>. Se desse rasgo n\u00e3o se cura, que essa cicatriz-umbigo possa repercutir, no sonho, no lapso, no ato falho, no chiste ou no sintoma, no que agita o corpo e o vivifica. Do poema que prenuncia que \u201cser\u00e1 sempre o mesmo sonho, a mesma aus\u00eancia\u201d, essa cicatriz como marca \u00e9 decantada, \u00e9 ela que se encontra como ponto invari\u00e1vel, para al\u00e9m das representa\u00e7\u00f5es que deslizam. Entre a aus\u00eancia e a falta, entre o rasgo da ang\u00fastia e do desejo, uma quest\u00e3o de tom.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>Assef, J. <strong>O sonho e sua interpreta\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o do tratamento hoje<\/strong>. XII Congresso Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, 2020. &lt; <a href=\"https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/papers_001-pt.pdf\">https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/papers_001-pt.pdf<\/a> &gt;. Recuperado em: 06 jun. 2022.<\/h6>\n<h6>Freud, S. A Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). <strong>Obras Completas<\/strong>, v. 4, S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2019 (PDF).<\/h6>\n<h6>Laan, J. <strong>O semin\u00e1rio, livro 2: <\/strong>o eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise (1954-1955). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. <strong>O semin\u00e1rio, livro 11:<\/strong> Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise (1964). 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto constru\u00eddo para o TPOL, em junho de 2022.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Lima de Almeida Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB). P\u00f3s-graduanda em Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL). Mestranda pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (PPGPSI-UFBA) Nunca mais Caminhar\u00e1s nos caminhos naturais. 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