{"id":2139,"date":"2022-12-16T17:15:20","date_gmt":"2022-12-16T20:15:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2139"},"modified":"2022-12-16T17:15:20","modified_gmt":"2022-12-16T20:15:20","slug":"e-se-nao-tivesse-o-amor-e-se-nao-tivesse-o-agalma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/12\/16\/e-se-nao-tivesse-o-amor-e-se-nao-tivesse-o-agalma\/","title":{"rendered":"E se n\u00e3o tivesse o amor&#8230; e se n\u00e3o tivesse o (a)galma"},"content":{"rendered":"<h6><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2140\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-001-Graziela-Vasconcelos-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-001-Graziela-Vasconcelos-300x300.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-001-Graziela-Vasconcelos.png 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-001-Graziela-Vasconcelos-150x150.png 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/002-001-Graziela-Vasconcelos-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Graziela Vasconcelos<br \/>\n<\/strong>Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/h6>\n<p>\u00c9 de tra\u00e7os, peda\u00e7os e fragmentos que se faz poss\u00edvel esse pequeno texto. Que algo arrebata e em raz\u00e3o de haver uma falta, se pode operar os efeitos de um <em>agalma<\/em>.\u00a0 \u00a0Objeto (<em>a)galma<\/em>, ele, que apesar de dizer de uma falta, nunca falta, n\u00e3o neste lugar, onde, \u00e0 primeira vista, o amor se instaura.<\/p>\n<p>Sobre isso, sobre esses objetos <em>agalmata<\/em>, quem t\u00e3o precisamente nos fala, em seu enc\u00f4mio \u00e0 S\u00f3crates, \u00e9 Alcib\u00edades. Em O Banquete, de Plat\u00e3o (2021), Alcib\u00edades descreve, e de maneira topol\u00f3gica, algo do ser de S\u00f3crates que \u00e9 a raz\u00e3o mesma de seu arrebatamento. Ao tomar o sileno como imagem com a qual ir\u00e1 comparar S\u00f3crates, Alcib\u00edades coloca em jogo um dentro e um fora. Uma preciosa indica\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica. Ele n\u00e3o despreza, tampouco nega o fora representado pela apar\u00eancia de S\u00f3crates, mas \u00e9 no dentro, no interior, que Alcib\u00edades nos faz ver que est\u00e1 a verdadeira preciosidade, o objeto que arrebata.<\/p>\n<p>\u201cIgnoro se algu\u00e9m [&#8230;] viu as estatuetas no seu interior&#8230;, mas eu as vi um dia, e as achei t\u00e3o divinas e \u00e1ureas, t\u00e3o perfeitamente belas e admir\u00e1veis que simplesmente vi-me na situa\u00e7\u00e3o de fazer como ele me instru\u00eda\u201d (p.84). Arrebatado pelo que, ao contemplar S\u00f3crates pela primeira vez, Alcib\u00edades descortina, ele condensa, nesse trecho, os surpreendentes efeitos dos <em>agalmata<\/em>. Sobre o que, aqui, est\u00e1 em quest\u00e3o, Barthes tem algo a nos dizer e Lacan, precisamente, tem algo a nos fazer ver.<\/p>\n<p>Lacan (1960\/1961), coloca em relevo, dentre outros, um valios\u00edssimo aspecto do <em>agalma<\/em>, esse que vai mais al\u00e9m de um objeto ornamental com a fun\u00e7\u00e3o de enfeitar e se apresenta como uma joia, um objeto precioso, o que se destaca \u00e9 seu poder subversivo. Aquele que porta os <em>agalmata<\/em> \u00e9 aquele que comanda, que ordena e a quem aquele que \u00e9 arrebatado torna-se submisso. Isso por si s\u00f3 j\u00e1 nos permite ver toda uma formula\u00e7\u00e3o lacaniana em torno da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, da submiss\u00e3o ao Outro e de um objeto que \u00e9 em verdade parcial. Lacan mesmo destaca e aproxima o aspecto m\u00e1gico do <em>agalma<\/em> \u00e0 magia da quest\u00e3o essencial que coloca o sujeito, <em>Che voui?<\/em><\/p>\n<p>Em Fragmentos de um discurso amoroso, Barthes (2018) nos apresenta a ideia do mito moderno de um rapto amoroso, uma constru\u00e7\u00e3o que parece dialogar com Lacan em sua ideia de poder subversivo do <em>agalma<\/em>, ele vai nos dizer: \u201co arrebatador n\u00e3o quer nada, n\u00e3o faz nada; ele fica im\u00f3vel (como uma imagem), e \u00e9 o objeto arrebatado que \u00e9 o verdadeiro sujeito do rapto, o objeto da captura se torna sujeito do amor\u201d (p.45), sujeito precisamente por sua posi\u00e7\u00e3o de assujeitado \u00e0 ordem daquele que porta o <em>agalma<\/em>. Barthes nos diz ainda que o amor \u00e0 primeira vista \u00e9 uma hipnose e que o que fascina \u00e9 uma imagem, como vemos bem narrar Alcib\u00edades ao dizer de seu encontro com o que h\u00e1 no interior de S\u00f3crates.<\/p>\n<p><em>Agalma<\/em>, um objeto que n\u00e3o se pode precisar e que se apresenta enquanto um tra\u00e7o, um peda\u00e7o, que carrega escondido mais do que se pensar ser e cuja fun\u00e7\u00e3o, Lacan vai chamar de objeto parcial. No Banquete, Plat\u00e3o nos apresenta de forma t\u00e3o lindamente clara o que Lacan nos explica: que n\u00e3o se trata de equival\u00eancia, de tomar todo o outro por objeto do desejo, sen\u00e3o de que esse objeto encarna algo, alguma coisa que o distingue dos demais e que o faz ser ent\u00e3o aquele do enlace amoroso, n\u00e3o por sua totalidade, mas por esse ponto visado pelo desejo como tal. O objeto localizado em S\u00f3crates \u00e9, na verdade, pertencente \u00e0 Alceb\u00edades. Miller (2020) nos diz desse objeto enquanto aquilo que cai quando <em>a coisa<\/em> \u00e9 absorvida no Outro, \u201co objeto <em>a<\/em> est\u00e1 contido no Outro\u201d (pag. 67). Ele nos diz ainda que o objeto<em> a<\/em> o sujeito o tem, mas n\u00e3o \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o e nem sua propriedade, por isso o tem e n\u00e3o o tem e que esse paradoxo carrega a defini\u00e7\u00e3o do amor em Lacan, <em>dar o que n\u00e3o se tem<\/em>.<\/p>\n<p>Por haver <em>agalma<\/em>, o que faz Alcib\u00edades em seu enc\u00f4mio \u00e9 lan\u00e7ar um apelo, uma demanda de amor \u00e0 S\u00f3crates, uma demanda que produz desejo. Ao final do seu elogio \u00e0 S\u00f3crates este \u201cinterpreta\u201d: \u201cjulgas que deves manter-me a te amar com exclusividade e Agaton como objeto exclusivo de seu amor\u201d (p.93). Ou seja, se oferece como amado (<em>\u00e9r\u00f4m\u00e9nos<\/em>), demanda de S\u00f3crates o seu amor, seu <em>agalma<\/em>, para assim se dirigir enquanto amante (erastes) \u00e0 Agaton. Sobre as coisas do amor, S\u00f3crates sabe e \u00e9 porque ele sabe que n\u00e3o ama. Afinal, \u00e9 o n\u00e3o-saber que produz as condi\u00e7\u00f5es para o amor. S\u00f3crates sabe que n\u00e3o h\u00e1 nada nele que justifique ser digno de ser amado ou desejado por Alceb\u00edades. Se S\u00f3crates n\u00e3o se coloca no lugar de <em>\u00e9r\u00f4m\u00e9nos<\/em>, n\u00e3o se pode produzir a\u00ed a met\u00e1fora do amor, h\u00e1, portanto, uma impossibilidade de surgir um <em>\u00e9rast\u00e8s<\/em> (amante) ali onde estava o <em>\u00e9r\u00f4m\u00e9nos<\/em>.<\/p>\n<p>O que se observa \u00e9 que o <em>agalma<\/em> mant\u00e9m, ao mesmo tempo, certa proximidade e dist\u00e2ncia do sujeito desejante. Uma proximidade mais da ordem do Imagin\u00e1rio do sujeito, naquilo que o objeto traz de aprisionante, de arrebatador e uma dist\u00e2ncia que aponta para algo imposs\u00edvel de simbolizar, o Real. O <em>agalma<\/em> permite ent\u00e3o uma aproxima\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 distante por ser inapreens\u00edvel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n<h6>Barthes, R. <em>Fragmentos de um discurso amoroso<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp, 2018.<\/h6>\n<h6>Eur\u00edpedes. H\u00e9cuba. Madrid: Editorial Gredos,1999.<\/h6>\n<h6>Lacan. J. (1959). O Semin\u00e1rio, livro 7: <em>a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>Lacan. J. (1960). O Semin\u00e1rio, livro 8: <em>a transfer\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>Miller, J. A. <em>Extimidad.<\/em> Buenos Aires: Editora Paid\u00f3s, 2020.<\/h6>\n<h6>Plat\u00e3o. <em>O Banquete<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Edipro, 2012.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graziela Vasconcelos Associada do Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia \u00c9 de tra\u00e7os, peda\u00e7os e fragmentos que se faz poss\u00edvel esse pequeno texto. 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