{"id":2142,"date":"2022-12-16T17:16:38","date_gmt":"2022-12-16T20:16:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2142"},"modified":"2022-12-16T17:16:38","modified_gmt":"2022-12-16T20:16:38","slug":"os-algoritmos-e-a-clinica-orientada-pelo-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2022\/12\/16\/os-algoritmos-e-a-clinica-orientada-pelo-real\/","title":{"rendered":"Os algoritmos e a cl\u00ednica orientada pelo real"},"content":{"rendered":"<h6><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-2143\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/001-002-Rog\u00e9rio-Barros-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/001-002-Rog\u00e9rio-Barros-300x300.png 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/001-002-Rog\u00e9rio-Barros-150x150.png 150w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/001-002-Rog\u00e9rio-Barros.png 476w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>Rog\u00e9rio de Andrade Barros<br \/>\n<\/strong>Membro da EBP\/AMP, Diretor do IPB, Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana<\/h6>\n<p>Os avan\u00e7os tecnocient\u00edficos nos levam a considerar como o discurso do mestre atual, ao digitalizar a vida em formas de intera\u00e7\u00f5es em rede, administra o insond\u00e1vel do humano atrav\u00e9s da l\u00f3gica algor\u00edtmica. Nessa perspectiva, a previsibilidade e indu\u00e7\u00e3o comportamental passam a dar o tom de uma \u00e9poca, em que a causa real encontra-se reduzida ao gerenciamento da Intelig\u00eancia Artificial que, atrav\u00e9s da codifica\u00e7\u00e3o, pretende captar o desejo humano.<\/p>\n<p>Sadin (2017) aponta que no s\u00e9culo XX, a f\u00edsica qu\u00e2ntica, a relatividade einsteiniana e a psican\u00e1lise freudiana desconstru\u00edram a pregn\u00e2ncia do antropocentrismo, produzindo um descentramento do homem moderno do seu eixo da consci\u00eancia e controle. Esses golpes epist\u00eamicos produzem uma rachadura no narcisismo da humanidade, dando lugar, no novo s\u00e9culo, a sistemas robotizados que consumam definitivamente as transforma\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo precedente.<\/p>\n<p>O presente trabalho objetiva abordar a l\u00f3gica algor\u00edtmica e a psican\u00e1lise a partir da cl\u00ednica orientada ao real. Distinta da aposta da predi\u00e7\u00e3o comportamental, que levaria a apreens\u00e3o da verdade inequ\u00edvoca do sujeito, a cl\u00ednica, ao orientar-se ao real, interp\u00f5e uma opacidade cuja l\u00f3gica significante n\u00e3o alcan\u00e7a, restando um tro\u00e7o insond\u00e1vel.<\/p>\n<p>A descoberta freudiana das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente e sua l\u00f3gica representativa levou a pr\u00e1tica anal\u00edtica ao estatuto do desvelamento do sentido oculto do desejo, manifesta\u00e7\u00e3o sempre deformada pelo recalcamento. Lacan (1964\/1979), em sua releitura de Freud, prop\u00f5e que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, obedecendo as leis da sintaxe. A cadeia significante demonstra a arbitrariedade do significado, a\u00ed onde os significantes, que nada querem dizer, por meio do encadeamento, anunciam um sentido.<\/p>\n<p>Miller (1978) sustenta a ideia de que as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente se apresentam como signos a decifrar, sendo toda metapsicologia freudiana lida por Lacan atrav\u00e9s da l\u00f3gica do significante. A sua teoria dos discursos pretende, pela via do matema, indicar o modo pelo qual a sequ\u00eancia infinita de significantes se articula a uma causalidade real, sob o qual toda a aparelhagem simb\u00f3lica n\u00e3o faz mais que gravitar ao redor de um furo.<\/p>\n<p>Miller (1978) acrescenta que n\u00e3o h\u00e1 matema do real. Assim, aquilo que anima a l\u00f3gica discursiva, fazendo passagem de um discurso a outro, \u00e9 a entrada no amor, como nos ensina Lacan (1972-73\/1985) em seu semin\u00e1rio <em>Mais, ainda&#8230;<\/em>: uma inscri\u00e7\u00e3o que traz a ilus\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe possa surgir como uma miragem.\u00a0 Ao considerar esse pressuposto, o liame social se d\u00e1 sob a via de uma trama ilus\u00f3ria, j\u00e1 que aquilo que se l\u00ea n\u00e3o corresponde ao real, mas a uma aproxima\u00e7\u00e3o, um litoral, uma marca da qual se pode supor a sua exist\u00eancia. Trata-se da letra, cuja inst\u00e2ncia \u00e9 indecifr\u00e1vel, fazendo a passagem de um simb\u00f3lico delirante e interpretativo a um novo simb\u00f3lico, esvaziado, cujos significantes n\u00e3o dizem nada, mas veiculam gozo.<\/p>\n<p>Na era da tecnoci\u00eancia impulsionada pelo mercado, Soria (2020) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0prop\u00f5e que a l\u00f3gica algor\u00edtmica torna exponencial a ideia de que o real possa ser matemizado, sem restos, absolutamente incorporado a rede codificada. Se o sujeito da psican\u00e1lise \u00e9 aquele dividido em uma escans\u00e3o entre gozo e significante, sendo propriamente o que a ci\u00eancia foraclui, resta-nos a quest\u00e3o de que Outro se trata no novo mundo das verdades ditadas pelo novo Deus, o <em>Big Data<\/em>.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o,\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0sob a forma de dados, que d\u00e1 corpo e subst\u00e2ncia ao <em>Big Data<\/em>, apresenta alguma similaridade com o lugar do c\u00f3digo, ao qual Lacan nomeou como Outro, tesouro dos significantes (FAJNWAKS, 2022). Trata-se do lugar do endere\u00e7amento, onde as quest\u00f5es podem encontrar, no c\u00f3digo, um trilhamento, um percurso significante. <em>Data<\/em> e significantes encontram, aqui, equival\u00eancia. Entretanto, o Outro da tecnologia se apresenta como um Outro da s\u00edntese, hospedando os significados do sujeito de forma inequ\u00edvoca, j\u00e1 que significante e significado se encontram soldados. Como efeito dessa l\u00f3gica, h\u00e1 tamb\u00e9m uma indivizibilidade do sujeito. A cifragem sem equ\u00edvoco \u00e9, ent\u00e3o, uma cifragem sem resto, construindo uma tradu\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica dos significantes em dados que se significam a si mesmo. O empreendimento da ci\u00eancia contempor\u00e2nea pode ser entendido como uma tentativa d\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 o simb\u00f3lico recobrir o real, fazendo a rela\u00e7\u00e3o sexual se escrever, absorvido atrav\u00e9s dos dados digitais.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 apontava Lacan (1971\/2009), a ci\u00eancia n\u00e3o passa de um semblante articulado que o real vem furar. Real que, como aponta Miller (2012), \u00e9 sem lei e apresenta-se hoje em certa desordem. N\u00e3o mais equiparado a natureza, o del\u00edrio da ci\u00eancia contempor\u00e2nea pretende apartar o gozo, tornando o corpo sem subst\u00e2ncia (BARROS, 2020). A estrat\u00e9gia algor\u00edtmica, assim, corresponde a nova roupagem deste af\u00e3.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica orientada pelo real, ao considerar os efeitos da presen\u00e7a do analista e a inconsist\u00eancia do Outro, em contraposi\u00e7\u00e3o a aboli\u00e7\u00e3o do acaso proposta pelo projeto civilizat\u00f3rio da humanidade aumentada, constitui uma contraposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao achatamento do real sob os c\u00f3digos massivos. Ao considerar o insond\u00e1vel da transfer\u00eancia e a equivocidade do significante, reconduz o tratamento a causa real e tra\u00e7a um percurso que mira a identifica\u00e7\u00e3o ao modo de gozo, como um acontecimento de corpo fora de sentido. Sob essa prerrogativa, o ser falante sobreviver\u00e1 a digitaliza\u00e7\u00e3o do mundo se soubermos nos orientar pelo real. A poesia e as inven\u00e7\u00f5es seguem sendo apostas que o dispositivo, j\u00e1 proposto por\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Freud, permite transmitir. O passe, como aposta, torna-se o nosso algoritmo, n\u00e3o sem considerar o imposs\u00edvel posto em jogo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BARROS, R. A. O del\u00edrio da tecnoci\u00eancia: um corpo sem subst\u00e2ncia. In: <strong>Lapsus &#8211; Publica\u00e7\u00e3o dos Associados do IPB<\/strong>, v. 1, p. 26-28, 2020.<\/h6>\n<h6>FAJNWAKS, F. N\u00e3o haver\u00e1 algoritmo para digitalizar o psicanalista. In: <strong>Derivas Anal\u00edticas<\/strong>, julho 2022, n. atual. Dispon\u00edvel em: <a href=\"about:blank\">http:\/\/www.revistaderivasanal\u00edticas.com.br\/.index.php\/algoritmopsicanalista<\/a>. Acesso em 2 out 2022.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964). <strong>O Semina\u0301rio, livro 11<\/strong>: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971). <strong>O Semin\u00e1rio, livro 18<\/strong>: de um discurso que n\u00e3o seja do semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73). <strong>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6>MILLER\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 , J-. A. Algorithmes de la psychanalyse. In: <strong>Ornicar?<\/strong>, n. 16, p. 15-24, 1978.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. O real no se\u0301culo XXI. In: <strong>Opc\u0327a\u0303o Lacaniana<\/strong>, n. 63, jun., p. 11-20, 2012.<\/h6>\n<h6>SADIN, E. <strong>La humanidad aumentada<\/strong>. Caja Negra:\u00a0 Buenos Aires, 2017.<\/h6>\n<h6>SORIA, N. L\u2019ame-\u00e0-tiers y lo vivo del cuerpo en la sesi\u00f3n anal\u00edtica. In: <strong>Letras Lacanianas<\/strong>: Revista de Psicoan\u00e1lisis de la comunidad de Madrid \u2013 ELP, n. 20, p. 8-14, 2020.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio de Andrade Barros Membro da EBP\/AMP, Diretor do IPB, Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana Os avan\u00e7os tecnocient\u00edficos nos levam a considerar como o discurso do mestre atual, ao digitalizar a vida em formas de intera\u00e7\u00f5es em rede, administra o insond\u00e1vel do humano atrav\u00e9s da l\u00f3gica algor\u00edtmica. 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