{"id":2208,"date":"2023-12-20T14:49:41","date_gmt":"2023-12-20T17:49:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2208"},"modified":"2023-12-20T14:49:41","modified_gmt":"2023-12-20T17:49:41","slug":"close-fechado-infamiliar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/close-fechado-infamiliar\/","title":{"rendered":"CLOSE: Fechado (in)familiar"},"content":{"rendered":"<h6>Raquel Matias Correia Lima<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>Na famosa frase de Lacan (1962\/63) sobre o amor, \u201csomente o amor \u00e9 capaz de fazer o gozo condescender ao desejo\u201d (LACAN, p.197), podemos pensar em um poss\u00edvel negativo dela, no qual, quando falta amor, o gozo feroz \u00e9 capaz de devorar o desejo, inclusive de viver, e mesmo em idades muito tenras.<\/p>\n<p>No delicado e profundo filme Close &#8211; cujo t\u00edtulo nos remete ao imperativo \u201cfeche!\u201d, mas tamb\u00e9m a uma proximidade, uma familiaridade &#8211; vemos o jovem R\u00e9mi vivendo um amor com as mesmas caracter\u00edsticas do filme.<\/p>\n<p>Mas os descaminhos do desejo e do amor podem falar desses elementos pelos seus reversos: o gozo mortificante.<\/p>\n<p>O que podemos ler nessa hist\u00f3ria e o que ela pode nos contar acerca da cl\u00ednica atual com adolescentes?<\/p>\n<p>Pensar cl\u00ednica contempor\u00e2nea, implica em situarmo-nos na cl\u00ednica do gozo, a cl\u00ednica do Real, e n\u00e3o apenas, mas a cl\u00ednica da inexist\u00eancia do Outro, cuja perda de contornos desse gozo, bem como leis que interditam a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com seus objetos de gozo est\u00e1 fragmentada.<\/p>\n<p>Seria ent\u00e3o escutar uma cl\u00ednica sem sujeito, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 Outro?<\/p>\n<p>O que nos chega \u00e0 cl\u00ednica contempor\u00e2nea requer uma escuta sutil, que possa ver o mais al\u00e9m do \u00c9dipo, seus arranjos e desarranjos que carregam tanto saber quanto aquilo que aparentemente deu certo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada mais f\u00e1cil de pensar que n\u00e3o deu certo do que a passagem ao ato suicida. Ainda mais quando se trata do suic\u00eddio de um doce menino de 13 anos, cercado de amor, carinho, presen\u00e7a e amparo parentais. \u00c9 uma incompatibilidade cronol\u00f3gica e de paradigmas familiares tal que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para se pensar em morte. Mas, tamb\u00e9m na adolesc\u00eancia, h\u00e1 uma for\u00e7a para al\u00e9m do cronos e do paradigm\u00e1tico, que aponta para o l\u00f3gico, para a intensidade, e que isso sim, muito mais que o tempo, est\u00e1 ligado \u00e0 vida e \u00e0 morte. O qu\u00e3o intensa a palavra incidiu sobre um corpo? Isso \u00e9 perman\u00eancia, \u00e9 o que leva \u00e0 trilha da repeti\u00e7\u00e3o, \u00e9 onde nossa escuta deve farejar os vest\u00edgios da vida e da morte.<\/p>\n<p>R\u00e9mi, ap\u00f3s toda uma inf\u00e2ncia de intensa amizade e amor com L\u00e9o, se v\u00ea emboscado pelas trapa\u00e7as do adolescer, de ter que invariavelmente ter que a ver-se com sua sexualidade, com seu desejo, e, por vezes, com os (curtos)circuitos do amor.<\/p>\n<p>A intimidade proposta pelo t\u00edtulo Close nos convida a uma escuta pr\u00f3xima, mais ainda. De uma sutileza rara, bem como de uma beleza inacredit\u00e1vel diante de algo t\u00e3o assombroso quanto o decidir desistir de viver, quando se perde a nomea\u00e7\u00e3o de ser amado d\u2019Aquele ser fundamental. Uma perda que resulta em um abandono, desamparo e exclus\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>Quando os pais, a escola, os c\u00e9lebres Outros n\u00e3o t\u00eam mais a mesma consist\u00eancia que outrora se escutava na cl\u00ednica, as identifica\u00e7\u00f5es massivas com o objeto de amor se tornam mais evidentes, bem como suas rupturas tamb\u00e9m se expressam de forma mais devastadoras, como verdadeiros terremotos em corpos fr\u00e1geis com a incid\u00eancia do real sobre estes.<\/p>\n<p>Viver algo que tem cores do gozo feminino, de um prazer imposs\u00edvel de apreender em palavras, irrepresent\u00e1vel, e que aparentemente est\u00e1 autorizado pelo la\u00e7o familiar, e subitamente ser convocado a falar desse gozo oce\u00e2nico diante de uma plateia voraz pelo aniquilamento da alteridade nos modos de gozo? E se o gozo feminino \u00e9 justamente isso que n\u00e3o cabe nem mesmo em palavras?<\/p>\n<p>Essa perda absoluta de refer\u00eancias, esse abandono massivo, quando a identifica\u00e7\u00e3o era o \u00fanico <em>ancoeur(a)d\u2019ouro,<\/em> promove autorrecrimina\u00e7\u00f5es que s\u00e3o deslocadas desse objeto amado para o eu, visto que havia uma identifica\u00e7\u00e3o do eu com o objeto abandonado. Desta forma, a sombra do objeto recai sobre o eu, assim a perda desse objeto resulta em efeito de perda de valor do pr\u00f3prio eu, que se recrimina, ent\u00e3o, como dejeto.<\/p>\n<p>O movimento s\u00e1dico, do eu contra si mesmo, se estabelece, pois n\u00e3o h\u00e1 a distin\u00e7\u00e3o do eu e do objeto, n\u00e3o h\u00e1 uma lei que estabele\u00e7a um corte entre o sujeito e o objeto de desejo.<\/p>\n<p>Por vezes, uma incapacidade de escutar as s\u00faplicas por parte daqueles que operam a lei, n\u00e3o por falta de amor, mas justamente porque o amor \u00e9 a \u00fanica lente utilizada para enxergar os la\u00e7os. E desta forma, as garras nefastas tanto da homofobia, quanto do supereu devastador, alcan\u00e7am exist\u00eancias ainda mais suscet\u00edveis a execu\u00e7\u00e3o da morte de si como \u00fanica sa\u00edda para o horror de ver-se absolutamente s\u00f3 e como dejeto.<\/p>\n<p>Talvez, tanto o filme Close quanto tamb\u00e9m a \u00e1ria O Rei Elfo de Schubert &#8211; onde um jovem avisa a seu pai que est\u00e1 amea\u00e7ado por algo que o pai n\u00e3o \u00e9 (mais) capaz de enxergar \u2013 em ambas obras podemos ser tocados pelo inexplic\u00e1vel de que, n\u00e3o por falta de amor ao filho, mas talvez pela capacidade de velar o pior que \u00e9 pr\u00f3pria do amor, justamente a\u00ed, o velamento dos perigos do real da vida t\u00e3o fr\u00e1gil, deixa o sujeito desamparado frente \u00e0 ferocidade do \u00f3dio do outro, abalando seu mais \u00edntimo sentido de existir, posto que se caiu na grande boca devoradora do \u00f3dio contra si mesmo, que \u00e9 o Rei Elfo implac\u00e1vel do suic\u00eddio.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (2005). Semin\u00e1rio: Livro 10: A Ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Zahar.<\/h6>\n<h6>Refer\u00eancias Audiovisuais<\/h6>\n<h6>DOHNT. L., TAJSSENS. A. Close. 2022. B\u00e9lgica e Fran\u00e7a. Dispon\u00edvel pela Plataforma MUBI.<\/h6>\n<h6>SCHUBERT. \u00c1ria: O Rei Elfo, interpretada por Jessye Norman, com legendas em portugu\u00eas. https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=uZ7dCCavl4A<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raquel Matias Correia Lima Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) Na famosa frase de Lacan (1962\/63) sobre o amor, \u201csomente o amor \u00e9 capaz de fazer o gozo condescender ao desejo\u201d (LACAN, p.197), podemos pensar em um poss\u00edvel negativo dela, no qual, quando falta amor, o gozo feroz \u00e9 capaz de devorar o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[42],"post_series":[],"class_list":["post-2208","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","tag-resenhas","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2208"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2209,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2208\/revisions\/2209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2208"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}