{"id":2210,"date":"2023-12-20T14:49:47","date_gmt":"2023-12-20T17:49:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2210"},"modified":"2023-12-20T14:49:47","modified_gmt":"2023-12-20T17:49:47","slug":"como-uma-crianca-comeca-a-se-analisar-ressonancias-do-carrossel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/como-uma-crianca-comeca-a-se-analisar-ressonancias-do-carrossel\/","title":{"rendered":"Como uma crian\u00e7a come\u00e7a a se analisar? Resson\u00e2ncias do Carrossel."},"content":{"rendered":"<h6>Graziela Pires<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>Aposta, consentimento e enigma foram os significantes pin\u00e7ados que engendraram um ponto de partida para uma possibilidade de escrita ao pensar o que se articula em cima das quest\u00f5es sobre a entrevista preliminar com os pais, com a crian\u00e7a e os efeitos desse primeiro momento em sua entrada em an\u00e1lise. H\u00e1 alguns pontos chaves: a aposta no inconsciente (de Freud a Lacan), a import\u00e2ncia da chegada em analise a partir de um \u201cn\u00e3o saber\u201d, a encruzilhada do mal-entendido e a relev\u00e2ncia em se escutar os pais, para que algo dos sujeitos ali se apresente possibilitando que se descolem do Outro e as reverbera\u00e7\u00f5es do que, a partir disso, se apresenta.<\/p>\n<p><strong>O ponto de partida:<\/strong><\/p>\n<p>O desejo do analista \u00e9 sempre o de uma aposta no inconsciente. Numa orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, isso pode ser dito de outra forma: uma aposta no sintoma, desde que estejamos advertidos que, a aposta no sintoma, n\u00e3o \u00e9 sem o inconsciente. Aquilo que a crian\u00e7a manifesta como perturba\u00e7\u00e3o, tem uma dimens\u00e3o de sintoma que pode vir a ser constru\u00eddo em uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Isso nos debru\u00e7ou sobre o inconsciente desde Freud, centrado na dimens\u00e3o do recalcado, avan\u00e7ando at\u00e9 Lacan, quando se fala no sujeito do inconsciente como falasser, o que implica o corpo, o inconsciente pulsional e lal\u00edngua. O falasser n\u00e3o \u00e9 apenas um sujeito dividido que escapa ao significante. \u00c9 um sujeito que tem um corpo e que as manifesta\u00e7\u00f5es do corpo lhe escapam. H\u00e1 a\u00ed o enigma na rela\u00e7\u00e3o do sujeito, em como foi nomeado pelo significante do Outro e a interpreta\u00e7\u00e3o deste, pelo sujeito, na sua rela\u00e7\u00e3o com seu corpo, sem que tenha instrumento para decifrar, ficando a\u00ed marcado o mal-entendido de lal\u00edngua. O analista de crian\u00e7a, parte disso.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 voc\u00ea que bate \u00e0 minha porta \u00e0 espera de uma resposta sobre si mesmo a partir de nomes que j\u00e1 te deram?<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, se apresenta de forma franca, um tamponamento diante de um \u201cn\u00e3o saber\u201d. Os excessos do diagn\u00f3stico, uma gama de nomes que tendem a abra\u00e7ar tudo que trazem mal-estar para as crian\u00e7as como: o espectro autista, depress\u00e3o, TDAH. As crian\u00e7as j\u00e1 chegam rotuladas por esses nomes, sem que se possa interrogar o que lhes acontece, qual o seu sofrimento. \u00c9 fundamental, frente a essa exig\u00eancia de \u201cj\u00e1 ter que saber\u201d, se permitir escutar a crian\u00e7a para se orientar a partir do que ela diz, a partir de um \u201cn\u00e3o saber\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o primeiro consentimento que o analista convoca aos pais: se permitirem elaborar um saber que, ao escutar a crian\u00e7a, isso pode vir a orient\u00e1-los.<\/p>\n<p>A aposta no inconsciente \u00e9 uma aposta no que escapa ao saber, n\u00e3o pela impot\u00eancia, mas pelo fato de que n\u00e3o se pode saber antes de escutar o outro que fala, e que, fala tamb\u00e9m de um lugar onde est\u00e1 embara\u00e7ado com o que n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que leva Lacan a avan\u00e7ar nessa dimens\u00e3o do inconsciente para falar sobre o mal-entendido. Quest\u00e3o estrutural, que quer dizer que n\u00e3o se transmite, em uma comunica\u00e7\u00e3o absoluta, o que se pensa. No que se transmite, j\u00e1 h\u00e1 o que escapa de si mesmo na pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o, fazendo-nos observar como isso chega na crian\u00e7a e como tem efeitos nela. Na cl\u00ednica com crian\u00e7a \u00e9 onde melhor se pode verificar os efeitos, as resson\u00e2ncias do mal-entendido, do n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A linguagem que habita o sujeito e a partir da qual, ele trope\u00e7a quando fala, \u00e9 uma linguagem que se constitui como uma elabora\u00e7\u00e3o em cima do mal-entendido, sobre lal\u00edngua.<\/p>\n<p>Nesse ponto, \u00e9 importante estarmos advertidos da import\u00e2ncia de separar os pais do Outro. Ao escutar os pais, isso implica em localiz\u00e1-los como sujeitos a partir de suas divis\u00f5es, suas dificuldades, seus imposs\u00edveis na vida e com a crian\u00e7a. \u00c9 o que permite que o Outro possa aparecer, n\u00e3o como uma totalidade, mas como barrado ao mesmo tempo que, os pais possam assumir que eles t\u00eam uma posi\u00e7\u00e3o de Outro para crian\u00e7a, na medida em que \u00e9 suposto neles um saber. Aparecerem como sujeitos, permite que a quest\u00e3o que o sintoma coloca atinja um outro lugar que n\u00e3o o fracasso deles.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias possibilidades de entrada em an\u00e1lise, visto que h\u00e1 v\u00e1rios momentos em que a crian\u00e7a se confronta com o enigma do pr\u00f3prio sintoma e com o seu sofrimento. Ao consentir com o processo, a crian\u00e7a pode se beneficiar, se autorizando ao trabalho que ali pode ser feito possibilitando a passagem da crian\u00e7a de objeto a sujeito.<\/p>\n<p>O Carrossel nesse primeiro momento em que se perguntou sobre a entrada em an\u00e1lise com crian\u00e7as, nos convocou \u00e0 cl\u00ednica em suas dificuldades, sempre atuais frente \u00e0 demanda dos pais, da escola, e expectativa de respostas prontas que partem de r\u00f3tulos e geralmente aparecem em cima de um imperativo: Resolva!<\/p>\n<p>A analista, com seu estilo, desenha, a partir da orienta\u00e7\u00e3o do ultim\u00edssimo Lacan, um percurso onde possibilita aparecer a inconsist\u00eancia do Outro, os furos do significante e a possibilidade de uma inven\u00e7\u00e3o que cada um pode fazer, no caso a caso da cl\u00ednica.<\/p>\n<p><strong>Nota da autora:<\/strong> Como o texto foi baseado em resson\u00e2ncias de um encontro da atividade do \u201cCarrossel\u201d, n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancias no corpo do texto. Entretanto, as leituras realizadas e que contribu\u00edram para meu escrito estar\u00e3o expostas abaixo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/h6>\n<h6>R\u00caGO BARROS, M.R.C.\u00a0\u201cA Resist\u00eancia na psican\u00e1lise com crian\u00e7as\u201d, in Revista do CEPPAC, n\u00ba 3, Fort-Da.\u00a0Rio de Janeiro, 1995.<\/h6>\n<h6>R\u00caGO BARROS, M.R.C.\u00a0\u201cO sintoma da crian\u00e7a: uma quest\u00e3o para a fam\u00edlia conjugal\u201d, in Revista do CEPPAC, n\u00ba 4\/5, Fort-Da.\u00a0Rio de Janeiro, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN J. \u201cEu sou aquilo que Eu \u00e9\u201d, in Semin\u00e1rio Livro 16: De um Outro ao outro (1968-69). 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LAURENT \u00c9. \u201cDesangustiar?\u201d, in A Sociedade do Sintoma. A psican\u00e1lise, hoje. 3\u00aa reimpress\u00e3o. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007.<\/h6>\n<h6>LAURENT \u00c9. \u201cA an\u00e1lise de crian\u00e7as e a paix\u00e3o familiar\u201d, in Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2011.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graziela Pires Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) Aposta, consentimento e enigma foram os significantes pin\u00e7ados que engendraram um ponto de partida para uma possibilidade de escrita ao pensar o que se articula em cima das quest\u00f5es sobre a entrevista preliminar com os pais, com a crian\u00e7a e os efeitos desse primeiro momento&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[43],"post_series":[],"class_list":["post-2210","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","tag-ressonancias","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2210","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2210"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2210\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2211,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2210\/revisions\/2211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2210"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}