{"id":2212,"date":"2023-12-20T14:50:04","date_gmt":"2023-12-20T17:50:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2212"},"modified":"2023-12-20T14:50:04","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:04","slug":"o-sangue-como-vestigio-apagado-em-as-bodas-de-figaro-referencia-lacaniana-do-seminario-16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-sangue-como-vestigio-apagado-em-as-bodas-de-figaro-referencia-lacaniana-do-seminario-16\/","title":{"rendered":"O sangue como vest\u00edgio apagado em <em>As bodas de F\u00edgaro<\/em>: refer\u00eancia lacaniana do <em>Semin\u00e1rio 16<\/em>"},"content":{"rendered":"<h6>Rog\u00e9rio Paes Henriques<br \/>\n<em>Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p><strong>Refer\u00eancia lacaniana<\/strong><\/p>\n<p>O cap\u00edtulo \u201cSaber gozo\u201d de <em>O semin\u00e1rio, livro 16<\/em> (LACAN, 1968-1969\/2008) inicia-se com uma cr\u00edtica a certo \u201csujeito pulverizado\u201d pela vulgata anal\u00edtica, isto \u00e9, certa redu\u00e7\u00e3o do sujeito da psican\u00e1lise a sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica \u2013 redu\u00e7\u00e3o essa, de algum modo, promovida pelo primeiro ensino lacaniano. Para dar seu passo al\u00e9m, Lacan prop\u00f5e ent\u00e3o uma retomada da quest\u00e3o da estrutura do sujeito. Nesse sentido, para se definir o sujeito, parte-se efetivamente do significante: \u201cO significante \u00e9 aquilo que representa um sujeito para outro significante\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 300). Isso havia sido matematizado por Lacan de uma maneira muito simples: S<sub>1<\/sub> =&gt; S<sub>2<\/sub>; esse par de letras afetadas por uma ordem e por uma seta que os vincula em sua diferen\u00e7a advinda do sistema da linguagem (A). Todavia, tal sistema \u00e9 furado e Lacan designa \u201c<em>em-f\u00f4rma<\/em> de A ao objeto (<em>a<\/em>) que lhe introduz um furo\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 301). E prossegue: \u201cesse <em>a <\/em>[&#8230;] \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito [&#8230;] que no caso \u00e9 S<sub>1<\/sub>\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 302). H\u00e1 uma alteridade prim\u00e1ria do significante, que Lacan designa \u201cvest\u00edgio\u201d, expressa clinicamente no sujeito em an\u00e1lise por uma estranheza particular. \u201cO vest\u00edgio passa para o <em>em-f\u00f4rma<\/em> de A de acordo com as diversas maneiras pelas quais \u00e9 apagado. O sujeito s\u00e3o essas pr\u00f3prias maneiras pelas quais o vest\u00edgio como marca \u00e9 apagado\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 304). Lacan destaca <em>os quatro apag\u00f5es do sujeito<\/em> com refer\u00eancia aos objetos <em>a<\/em> (seio, excremento, olhar e voz) que t\u00eam seus vest\u00edgios apagados pelo sujeito. Sendo o sujeito aquele que substitui seu vest\u00edgio pela assinatura \u2013 cuja estrutura elementar seria uma cruz ou um X, isto \u00e9, uma marca prim\u00e1ria barrada\/apagada por outra \u2013, de modo que \u201co significante nasce dos vest\u00edgios apagados\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 305). Nesse momento do texto, Lacan faz sua famosa refer\u00eancia \u00e0 obra <em>As bodas de F\u00edgaro<\/em>, de Beaumarchais:<\/p>\n<p>Nesse ponto, n\u00f3s nos safamos da dificuldade. Os vest\u00edgios s\u00e3o aceitos pelos outros vest\u00edgios do mesmo modo que, no n\u00edvel da defini\u00e7\u00e3o do sujeito, um significante o representa para outro significante. Um <em>bo-borr\u00e3o <\/em>[<em>pat\u00ea<\/em>], como diz Brid\u2019oison nas <em>Bodas, n\u00e3o conta<\/em>*. \u00c9 por isso mesmo que a coisa lhe interessa tanto, porque, para ele, Brid\u2019oison, que leva a s\u00e9rio os vest\u00edgios, podia ser que isso contasse. Ele \u00e9 um n\u00e3o apressado [<em>pas h\u00e2t\u00e9<\/em>]\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 305).<\/p>\n<p>* Refer\u00eancia a Beaumarchais, <em>As bodas de F\u00edgaro<\/em>, Ato III, Cena XIV, na qual Brid\u2019oison [&#8230;] se refere ao borr\u00e3o de tinta que impede a distin\u00e7\u00e3o entre <em>e<\/em> e <em>ou<\/em> num documento apresentado ao tribunal<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia beaumarchaisiana<\/strong><\/p>\n<p><em>O dia louco ou As bodas de F\u00edgaro<\/em> (<em>La folle journ\u00e9e ou<\/em> <em>Le mariage de Figaro<\/em>), pe\u00e7a teatral escrita por Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, escrita em 1777-1778, cuja estreia s\u00f3 se daria em 1784 ap\u00f3s vencido o obst\u00e1culo da censura da \u00e9poca, \u201cre\u00fane [&#8230;] as ideias esclarecidas do Iluminismo, os sentimentos populares de profunda insatisfa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 fervem \u00e0s v\u00e9speras da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, e lhes d\u00e1 vida c\u00eanica. [&#8230;] \u2018Beaumarchais p\u00f4s os endere\u00e7os nas cartas que Voltaire, Montesquieu e Diderot haviam escrito\u2019\u201d (GUIMAR\u00c3ES, 1991, p. XI). Em uma s\u00f3 pe\u00e7a se apresenta, dentre outras, uma <em>com\u00e9dia de costumes<\/em>, que retrata as \u00faltimas d\u00e9cadas do Antigo Regime numa Espanha imagin\u00e1ria; uma <em>com\u00e9dia de intriga<\/em>, na qual situa\u00e7\u00f5es c\u00f4micas, disfarces e trocas de pessoas se sucedem em ritmo vertiginoso e envolvente; uma <em>com\u00e9dia romanesca<\/em>, onde a quest\u00e3o do amor transita n\u00e3o mais em torno da conquista do ser amado, mas sim contra o sequestro do ser amado pelo poder aristocr\u00e1tico. Uma das ideias essenciais dessa obra, novidade para aquela \u00e9poca e que ganhou maior nitidez est\u00e9tica com sua adapta\u00e7\u00e3o oper\u00edstica por Mozart, \u00e9 a de que <em>todos os seres humanos s\u00e3o iguais perante o amor<\/em> (<em>Ibid<\/em>., p. 12; grifo nosso). Eis a ideia revolucion\u00e1ria contida nesse texto teatral, tal como foi atualizada pela \u00f3pera.<\/p>\n<p>Cabe ressaltar que a refer\u00eancia feita por Lacan (1968-1969\/2008, p. 305) ao personagem Brid\u2019oison e ao borr\u00e3o de tinta que impede a distin\u00e7\u00e3o entre <em>et<\/em> \/ <em>ou<\/em> (<em>e<\/em> \/ <em>sem<\/em>) num contrato apresentado ao tribunal encontra-se no livro de Beaumarchais (1991;\u00a0 Ato III, Cena XV), mas n\u00e3o no libreto oper\u00edstico de Da Ponte (1991). Muito embora a passagem \u00e0 qual Lacan se refira culmine num dos trechos preferidos de Mozart: o reconhecimento de F\u00edgaro por seus pais biol\u00f3gicos, no sexteto do terceiro ato (GUIMAR\u00c3ES, 1991, p. XIV).<\/p>\n<p>Portanto, ser\u00e1 a obra citada de Beaumarchais \u2013 com recorte em seu terceiro ato \u2013 que nos servir\u00e1 de guia no presente coment\u00e1rio, j\u00e1 que a refer\u00eancia de Lacan se mostra mais escritural que propriamente musical. Recorreremos ainda a <em>O mercador de Veneza<\/em>, de Shakespeare (2011), com foco no quarto ato referente ao julgamento do contrato da libra de carne, haja vista que tal narrativa shakespeariana parece estar contida na de Beaumarchais, por interm\u00e9dio de uma estrutura <em>mise en abyme<\/em>.<\/p>\n<p><strong>O julgamento de F\u00edgaro<\/strong><\/p>\n<p>O Conde Almaviva, fidalgo espanhol, revogou o \u201cdireito de pernada\u201d (direito do senhor feudal passar a primeira noite de n\u00fapcias com suas s\u00faditas) no per\u00edmetro de suas terras, portanto, para possuir sexualmente a jovem camareira de sua esposa, Suzanne, que se encontra prometida ao encarregado do castelo, F\u00edgaro, ele necessita sabotar o casamento deles. Ap\u00f3s tentar afastar F\u00edgaro da Espanha promovendo-o a diplomata em Londres e de pensar em estimular a rejei\u00e7\u00e3o de F\u00edgaro por Ant\u00f4nio, tio-tutor de Suzanne, o Conde d\u00e1 enfim sua \u00faltima cartada inventando um jeito de fazer com que F\u00edgaro se veja obrigado a se casar com a velha solteirona Marceline, governanta em sua propriedade, deixando Suzanne liberta e ao sabor dos seus caprichos.<\/p>\n<p>O juiz conselheiro Brid\u2019oison chega ao condado para conduzir uma audi\u00eancia p\u00fablica que possui como partes integrantes na contenda do processo Marceline e F\u00edgaro. Marceline faz obje\u00e7\u00e3o ao casamento de F\u00edgaro com Suzanne em prol de seu pr\u00f3prio direito contratual de se casar com ele:<\/p>\n<p>Eu abaixo-assinado declaro ter recebido da senhorita etc. Marceline de Verte-Allure, no castelo de \u00c1guas-Frescas, a soma de duas mil piastras em pilhas amarradas, soma que lhe devolverei a seu pedido, neste castelo; e que me casarei com ela como forma de reconhecimento etc. Assinado F\u00edgaro, apenas (BEAUMARCHAIS, 1991, p. 168).<\/p>\n<p>Questionado se tinha alguma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura do documento, F\u00edgaro assim se expressa: \u201cClaro! Senhores, houve mal\u00edcia, erro ou distra\u00e7\u00e3o na maneira como o documento foi lido; porque n\u00e3o est\u00e1 escrito <em>soma que eu lhe devolverei E QUE me casarei com ela<\/em>; mas <em>soma que eu lhe devolverei SEM QUE me casarei com ela<\/em>; coisa muito diferente\u201d. A contenda se estabelece entre o defensor de Marceline, Bartholo, que reivindica estar grafado E, enquanto F\u00edgaro reivindica ler-se SEM. O escriv\u00e3o, Double-Main, pega o documento e n\u00e3o consegue se decidir entre E e EM, afirmando que \u201cA palavra est\u00e1 t\u00e3o mal escrita, meio borrada&#8230; Est\u00e1 empastelado\u201d. Bartholo segue afirmando que \u201c\u00e9 a conjun\u00e7\u00e3o copulativa E que liga os membros correlatos da frase\u201d. J\u00e1 F\u00edgaro sustentando que \u201c\u00e9 a preposi\u00e7\u00e3o SEM, de sentido excludente, separando os ditos membros\u201d. Eis que Bartholo tenta um golpe de mestre, admitindo que talvez n\u00e3o se trate de E, como ele pr\u00f3prio vinha alegando, tampouco de SEM, como alegava a outra parte, mas sim EM: \u201c<em>soma que eu lhe devolverei a seu pedido, neste castelo, EM QUE me casarei com ela<\/em>\u201d, ou seja, \u201cneste castelo ONDE me casarei com ela\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 169).<\/p>\n<p>Por fim, o Conde, com base no <em>in dubio pro reo<\/em>, define que Marceline s\u00f3 pode requerer o casamento na aus\u00eancia do reembolso, segundo as leis espanholas, por\u00e9m condena o pobret\u00e3o F\u00edgaro a pagar-lhe a quantia devida no mesmo dia \u2013 sentenciando-o no fundo a se casar com ela. Ante a compulsoriedade em cumprir tal senten\u00e7a, F\u00edgaro alega ser um fidalgo roubado por ciganos quando era beb\u00ea, e portanto sem a autoriza\u00e7\u00e3o de seus nobres pais \u2013 a quem ele procura h\u00e1 quinze anos \u2013, n\u00e3o poderia haver casamento algum. Como prova de sua nobreza, ele faz alus\u00e3o a uma tatuagem em seu bra\u00e7o direito, marca corporal a partir da qual Marceline o reconhece como seu filho desparecido, Emanuel, cujo pai \u00e9 Bartholo (<em>Ibid<\/em>., p. 171-172). F\u00edgaro \u00e9, por fim, salvo pelo gongo por conta do direito natural ligado \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o do incesto.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia shakespeareana<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0O julgamento de Ant\u00f4nio<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f4nio, mercador de Veneza, empresta seu cr\u00e9dito ao amigo Bass\u00e2nio, um cavalheiro pobre, que pretende desposar P\u00f3rcia, uma dama nobre de Belmonte com quem j\u00e1 flertou numa troca de olhares. Para tanto, Ant\u00f4nio contrai uma d\u00edvida junto ao judeu Shylock, seu arqui-inimigo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, que lhe exige como garantia do empr\u00e9stimo (de tr\u00eas mil ducados durante tr\u00eas meses) o empenho de seu corpo:<\/p>\n<p>Eu a mostrarei,<\/p>\n<p>Se for comigo ao not\u00e1rio e l\u00e1 selar<\/p>\n<p>Um compromisso simples que dir\u00e1<\/p>\n<p>(Por brincadeira) que se n\u00e3o pagar<\/p>\n<p>Em certo dia e local a soma ou as somas<\/p>\n<p>Mencionadas na nota, a multa imposta<\/p>\n<p>Fica arbitrada numa libra justa<\/p>\n<p>De sua carne alva, a ser cortada<\/p>\n<p>E tirada da parte de seu corpo<\/p>\n<p>Que na hora da escolha me aprouver.<\/p>\n<p>(SHAKESPEARE, 2011, p. 32)<\/p>\n<p>Tendo a custosa<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> fuga da filha de Shylock, Jessica, com seu amante Lorenzo, acirrado o \u00e2nimo do judeu no sentido da cobran\u00e7a contratual da d\u00edvida de Ant\u00f4nio como forma de compensa\u00e7\u00e3o de seu preju\u00edzo, eis que o rico mercador de Veneza, por mau agouro, v\u00ea naufragar todas as suas cargas valiosas caindo em profunda ru\u00edna financeira; e, mesmo assim, seu credor requer vigorosamente o cumprimento literal das regras contratuais: \u201cse ele n\u00e3o pagar eu lhe arranco o cora\u00e7\u00e3o, pois sem ele em Veneza eu poderei fazer os neg\u00f3cios que quiser\u201d (SHAKESPEARE, 2011, p. 68). E, mais adiante, afirma: \u201cQuero a multa; n\u00e3o h\u00e1 como neg\u00e1-la \/ Antes do acordo me chamava c\u00e3o&#8230;\/ Pois se sou seu c\u00e3o, cuidado com os meus dentes.\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 80). Ant\u00f4nio livrara muitos devedores da pena de Shylock, motivo suficiente para o desejo de vingan\u00e7a deste para com aquele. Por sua vez, Ant\u00f4nio encontra-se totalmente entregue, \u00e0 merc\u00ea do judeu, afirmando que suas perdas foram t\u00e3o duras \u201cQue amanh\u00e3 mal terei a minha libra \/ De carne para dar ao meu credor\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 81).<\/p>\n<p>A Cena I do Ato IV se passa inteira num tribunal veneziano. Nele, o Duque julgar\u00e1 a pertin\u00eancia do contrato ante um suplicante judeu intransigente, tomado pelo \u00f3dio a Ant\u00f4nio em insistente recusa a perdo\u00e1-lo, que quer a multa indicada no documento (sua libra de carne) a qualquer custo: \u201cPor que prefiro a carne a receber \/ Tr\u00eas mil ducados \u2013 Isso eu n\u00e3o respondo! \/ Digamos que \u00e9 capricho \u2013 serve assim?\u201d (SHAKESPEARE, 2011, p. 90). Eis ent\u00e3o que P\u00f3rcia, a jovem piv\u00f4 da d\u00edvida contra\u00edda por Ant\u00f4nio em favor de seu pretendente, se disfar\u00e7a fazendo-se passar por um s\u00e1bio advogado de Roma, de nome Baltazar. \u00c9 a partir dessa mascarada, como \u201cjovem doutor romano\u201d, que sua interpela\u00e7\u00e3o mudar\u00e1 os rumos do julgamento. Tendo confirmado n\u00e3o haver alternativa jur\u00eddica sen\u00e3o a da cobran\u00e7a da multa pelo judeu, P\u00f3rcia introduz alguns por\u00e9ns \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a da extra\u00e7\u00e3o da libra de carne de Ant\u00f4nio, que a rigor inviabilizam sua pr\u00f3pria execu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>A multa n\u00e3o lhe d\u00e1 direito a sangue;<\/p>\n<p>\u201cUma libra de carne\u201d \u00e9 a express\u00e3o:<\/p>\n<p>Cobre a multa, arrebanhe a sua carne,<\/p>\n<p>Mas se, ao cortar, pingar uma s\u00f3 gota<\/p>\n<p>Desse sangue crist\u00e3o, seu patrim\u00f4nio<\/p>\n<p>Pelas leis de Veneza \u00e9 confiscado,<\/p>\n<p>Revertendo ao Estado.<\/p>\n[&#8230;]\n<p>Prepare-se, portanto, para cortar;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o derrame sangue; e corte apenas<\/p>\n<p>Uma libra de carne, pois se cortar<\/p>\n<p>Ou mais ou menos que uma libra justa \u2013<\/p>\n<p>Nem que seja para alterar o peso<\/p>\n<p>Pela m\u00ednima parte de um vig\u00e9simo<\/p>\n<p>De um quase nada \u2013 se a balan\u00e7a mexe<\/p>\n<p>O espa\u00e7o de um s\u00f3 fio de cabelo \u2013<\/p>\n<p>O senhor perde a vida e as propriedades.<\/p>\n<p>(SHAKESPEARE, 2011, p. 100-101)<\/p>\n<p>O sangue de Ant\u00f4nio n\u00e3o pode sair de seu habitat natural, isto \u00e9, de dentro de seus vasos sangu\u00edneos. Ante tal impasse, Shylock declina da aplica\u00e7\u00e3o da multa, \u00fanico modo de obter justi\u00e7a dada a preclus\u00e3o do reembolso. Por ter tramado contra a vida de um cidad\u00e3o veneziano, Shylock teve ainda seus bens confiscados e destinados a Ant\u00f4nio e ao Estado. O Duque por piedade crist\u00e3 perdoa seu confisco pelo Estado, convertido em multa, conferindo-lhe assim condi\u00e7\u00f5es financeiras para seguir com sua vida, desde que Shylock se tornasse crist\u00e3o e destinasse seus bens restantes como heran\u00e7a \u00e0 sua filha Jessica \u2013 e seu companheiro Lorenzo.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>O elemento que une ambas as obras comentadas \u00e9 o <em>sangue<\/em>, seja a \u201cvoz do sangue\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> que livra F\u00edgaro da obrigatoriedade de se casar com sua m\u00e3e biol\u00f3gica, seja o sangue como marca de um \u201colhar un\u00edvoco\u201d, em sua \u201cfun\u00e7\u00e3o como que \u00fanica, do 1\u201d (LACAN, 1968-1969\/2008, p. 308), cujo campo de visibilidade lhe estava interdito, que livra Ant\u00f4nio da extra\u00e7\u00e3o da libra de carne em seu peito. Seria o <em>sangue<\/em> portanto \u201co vest\u00edgio [que] se basta por si s\u00f3\u201d (<em>Ibid<\/em>., p. 303), pertencente ao que Lacan designaria como <em>em-f\u00f4rma<\/em> de A? Ao menos, parece ter sido o sangue como objeto voz que emergiu literariamente em <em>As bodas de F\u00edgaro<\/em> livrando o personagem principal da mortifica\u00e7\u00e3o do Outro, e lhe resgatando uma dimens\u00e3o da vida como pulsa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>BEAUMARCHAIS, Pierre-Augustin. C. La folle journ\u00e9e ou Le mariage de Figaro. In: <em>As bodas de F\u00edgaro &#8211; Mozart, Da Ponte, Beaumarchais: o libreto e a pe\u00e7a<\/em>. Trad. Ant\u00f4nio Monteiro Guimar\u00e3es e Sergio Flaksman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.<\/h6>\n<h6>DA PONTE, Lorenzo. Le nozze de Figaro. In: <em>As bodas de F\u00edgaro &#8211; Mozart, Da Ponte, Beaumarchais: o libreto e a pe\u00e7a<\/em>. Trad. Sergio Flaksman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.<\/h6>\n<h6>GUIMAR\u00c3ES, Ant\u00f4nio M. Introdu\u00e7\u00e3o. In: <em>As bodas de F\u00edgaro &#8211; Mozart, Da Ponte, Beaumarchais: o libreto e a pe\u00e7a<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. Saber gozo In: <em>O semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro (1968-1969)<\/em>. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>SHAKESPEARE, William. <em>O mercador de Veneza<\/em>. Trad. Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u00a0H\u00e1 uma incorre\u00e7\u00e3o na nota da tradu\u00e7\u00e3o brasileira: trata-se da Cena XV. H\u00e1 ainda um lapso do pr\u00f3prio Lacan, pois, quando comparado ao texto original de Beaumarchais, n\u00e3o \u00e9 o juiz conselheiro Brid\u2019oison que constata uma palavra borrada no documento, mas sim seu escriv\u00e3o Double-Main. Lacan acaba por atribuir ao chefe judici\u00e1rio uma a\u00e7\u00e3o clara de seu subordinado; ali\u00e1s, a figura de Brid\u2019oison \u00e9 mais derris\u00f3ria que a de Double-Main nessa obra.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> \u00a0\u201cSHYLOCK (\u00c0 parte): &#8230;Eu o odeio porque \u00e9 crist\u00e3o, \/ E ainda mais porque, ing\u00eanuo e tolo \/ Empresta ouro gr\u00e1tis, rebaixando \/ Os juros cobrados em Veneza \/ Se consigo apanh\u00e1-lo num aperto \/ Mato a fome de queixas muito antigas. \/ Por odiar minha na\u00e7\u00e3o sagrada \/ Nos locais onde v\u00e3o os mercadores \/ Agride a mim, meus lucros e poupan\u00e7as \/ A que chama de juros ou de usura \/ Maldita seja a minha pr\u00f3pria tribo \/ Se eu o perdoo\u201d (SHAKESPEARE, 2011, p. 28). Ou seja, enquanto Ant\u00f4nio \u00e9 o paladino da moral crist\u00e3, Shylock encarna a figura demon\u00edaca do agiota.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Tal custo equivaleu mais ou menos ao montante que Shylock emprestou a Ant\u00f4nio.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> \u00a0\u201cMARCELINE (<em>exaltada<\/em>): N\u00e3o, o meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava enganado quando se sentia atra\u00eddo por ele. S\u00f3 errava o motivo: quem falava era a <em>voz do sangue<\/em>\u201d (BEAUMARCHAIS, 1991, p. 174; grifo nosso).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio Paes Henriques Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) Refer\u00eancia lacaniana O cap\u00edtulo \u201cSaber gozo\u201d de O semin\u00e1rio, livro 16 (LACAN, 1968-1969\/2008) inicia-se com uma cr\u00edtica a certo \u201csujeito pulverizado\u201d pela vulgata anal\u00edtica, isto \u00e9, certa redu\u00e7\u00e3o do sujeito da psican\u00e1lise a sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica \u2013 redu\u00e7\u00e3o essa, de algum modo, promovida pelo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[44],"post_series":[],"class_list":["post-2212","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","tag-disciplina-do-comentario","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2212"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2212\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2249,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2212\/revisions\/2249"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2212"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}