{"id":2214,"date":"2023-12-20T14:50:14","date_gmt":"2023-12-20T17:50:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2214"},"modified":"2023-12-20T14:50:14","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:14","slug":"o-diabo-apaixonado-em-lacan-por-todos-os-lados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-diabo-apaixonado-em-lacan-por-todos-os-lados\/","title":{"rendered":"O diabo apaixonado, em Lacan por todos os lados"},"content":{"rendered":"<h6>Graziela Vasconcelos<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>Estamos no Semin\u00e1rio 16, <em>de um Outro ao outro<\/em>. O ano \u00e9 1968, quando Lacan nos apresenta, em sua terceira aula, <em>A topologia do Outro<\/em>.\u00a0 Essa hist\u00f3ria, no entanto, come\u00e7a anos antes. Mobilizado, desde antes de 1953, por seu interesse acerca da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, Lacan vai avan\u00e7ando em seu desenvolvimento te\u00f3rico e em 1958 vai propor a constru\u00e7\u00e3o do grafo do desejo. Esse grafo, voc\u00eas ver\u00e3o, \u00e9 fundamental para o que ser\u00e1 desenvolvido no Semin\u00e1rio 16. Ainda no ano de 1958, formula em seu texto, <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder<\/em>, que <em>o homem \u00e9 um animal presa da linguagem<\/em>. Mas \u00e9 em 1960, por ocasi\u00e3o de um convite a participar de um Congresso em Royaumont, sob o t\u00edtulo <em>A dial\u00e9tica<\/em>, que Lacan escreve o texto <em>Subvers\u00e3o do sujeito e a dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano<\/em>, o qual apresenta uma abordagem direta da concep\u00e7\u00e3o do sujeito e do desejo em sua articula\u00e7\u00e3o com o Outro. Apesar de aqui Lacan n\u00e3o mencionar explicitamente, ele se serve, para todo o desenvolvimento do texto, de uma obra de Jacques Cazotte, <em>O diabo apaixonado<\/em>, publicada em 1772. A men\u00e7\u00e3o a esta obra ele far\u00e1 apenas na aula 3 do Semin\u00e1rio 16, aula que agora vos foi apresentada. \u00c9 uma obra cujo eixo central da narrativa gira em torno de uma quest\u00e3o, e suas consequ\u00eancias, enunciada pela voz do pr\u00f3prio diabo, <em>Che vuoi?<\/em><\/p>\n<p>Agora \u00e9 preciso colocar em relevo o (x) do desejo materno, no entanto, para esse desenvolvimento, parto do seguinte ponto: do ponto em que Lacan prop\u00f5e, \u201cPartamos da concep\u00e7\u00e3o do Outro como lugar do significante\u201d. \u00c9 esse (x) do desejo do Outro, quer dizer, sua opacidade subjetiva, que constitui a subst\u00e2ncia do desejo e por meio do qual o desejo do homem ganha forma.<\/p>\n<blockquote><p>Eis por que a pergunta do Outro, que retorna para o sujeito do lugar de onde ele espera um or\u00e1culo, formulada como um \u201cChe vuoi? \u2013 que quer voc\u00ea?\u201d, \u00e9 a que melhor conduz ao caminho de seu pr\u00f3prio desejo \u2013 caso ele se proponha (&#8230;) a retom\u00e1-la, (&#8230;) no sentido de um \u201cQue quer ele de mim?\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa r\u00e1pida men\u00e7\u00e3o ao Outro em sua rela\u00e7\u00e3o com o desejo que funda o sujeito, o fiz apenas para poder chegar ao ponto no qual pretendo trabalhar, <em>O diabo apaixonado<\/em> como refer\u00eancia para <em>A topologia do Outro.<\/em> Em determinado ponto do desenvolvimento dessa aula, Lacan ir\u00e1 interrogar a fun\u00e7\u00e3o do A (Outro) e sinaliza que o faz a partir da forma como introduziu o anzol, que foi desenhando no alto do grafo simplificado o ponto de interroga\u00e7\u00e3o e continua: \u201cChamei-o, fazendo refer\u00eancia \u00e0 <em>O diabo apaixonado<\/em>, de Cazotte, de <em>Che vuoi? \u2013 Que quer ele? Que quer o Outro? \u00c9 o que me pergunto<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Introduzo ent\u00e3o, a refer\u00eancia que venho apresentar:<\/p>\n<p>Alvare, capit\u00e3o da guarda real de N\u00e1poles e personagem principal de <em>O diabo apaixonado<\/em>, ap\u00f3s presenciar uma conversa sobre a Cabala, deseja ardentemente um saber \u201csobrenatural\u201d e, em nome disso, evoca, chamando por 3 vezes, aquele que parece ser quem carrega as respostas, <em>o tesouro dos significantes<\/em>, <em>Belzebu<\/em>, o portador de um saber sobre o desejo. Em resposta a esse chamado, o diabo lhe aparece sob a hedionda forma fantasm\u00e1tica de cabe\u00e7a de camelo e, com uma voz t\u00e3o horrenda quanto sua apar\u00eancia, pronuncia: <em>Che vuoi? <\/em>Alvare se apercebe do terr\u00edvel estado em que se encontra frente ao que faz ressoar a pergunta que lhe \u00e9 endere\u00e7ada, \u201cSenti necessidade de apelar para todas as minhas for\u00e7as; um suor frio ia esmorec\u00ea-las: fiz um enorme esfor\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>A \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d ocorre e Alvare se torna senhor, enquanto o diabo, seu escravo.\u00a0 N\u00e3o resisti a apontar aqui um tra\u00e7o de O diabo encontrado no semin\u00e1rio 17, quando Lacan diz que a revolu\u00e7\u00e3o, o discurso do mestre a realiza por meio do giro que se completa.\u00a0 Com essas posi\u00e7\u00f5es assumidas, um novo, talvez sutil, mas certamente estrutural, movimento se d\u00e1. Ante a impossibilidade de se haver com o \u201chorror\u201d do desejo enigm\u00e1tico desse Outro, Alvare repreende seu escravo por se lhe apresentar sob aquela forma medonha, exigindo uma apar\u00eancia mais conveniente e um tom submisso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o fundamental acontece, a partir da pergunta que se segue: \u201cMestre \u2013 pergunta o fantasma \u2013 sob qual forma devo apresentar-me para vos ser agrad\u00e1vel?\u201d ou, dito de outra forma, <em>que Fantasia <\/em><em>\u00e9<\/em> <em>preciso construir para velar o horror d<\/em><em>o objeto a?<\/em> \u00c9 ent\u00e3o que de algo extra\u00eddo de um corpo, uma cabe\u00e7a de um camelo, passa-se a forma de uma cachorrinha, depois a de um pajem e por fim, a algo mais agrad\u00e1vel, algo mais parecido consigo mesmo, um ser humano, nesse caso, uma linda mulher, uma linda, fant\u00e1stica, idealizada mulher. Vejamos de outro modo: h\u00e1 aqui uma ren\u00fancia ao gozo sob o efeito do discurso e o que surge como fun\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais-de-gozar. E \u00e9 aqui que come\u00e7a a peleja do sujeito barrado na rela\u00e7\u00e3o com o Outro em sua vertente da demanda.<\/p>\n<p>O diabo, sob todas as formas assumidas busca servir a Alvare e satisfazer as suas necessidades, para isso bastando apenas pensar ou enunciar uma frase que, de alguma forma, permita entrever algo de sua necessidade. Tudo lhe era dado. Mas eis que da necessidade se passa \u00e0 demanda. A cachorrinha l\u00ea seus pensamentos, executa todas as ordens de Alvare, lhe faz refer\u00eancias e espera dele algo que lhe confirme a satisfa\u00e7\u00e3o de seu mestre. A confirma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1. \u00c9 ent\u00e3o que Alvare atribui \u00e0 cachorrinha o nome Biondetta e lhe d\u00e1 uma ordem, nesse momento o animal se transforma em um pajem, em um traje de libr\u00e9. Este \u00e9 Biondetto que se desdobra para garantir a Alvare e aos seus amigos o mais perfeito jantar e quando Alvare solicita que lhe traga Fiorentina com sua harpa, o pajem se transforma na referida dama, ela toca, canta e encanta a todos os homens presentes. Voltando \u00e0 sua forma, o pajem, depois de servi ao seu amo, pede apenas um espa\u00e7o ao lado dele, que lhe nega e tenta dele livrar-se. O pajem ent\u00e3o se lhe revela o sexo, \u00e9 uma mulher, diante desse ser, feminino, Alvare consente que ele possa ficar no quarto, mas sob a condi\u00e7\u00e3o de dele n\u00e3o se aproximar e para isso garantir, amea\u00e7a <em>a<\/em> pajem com o mesmo que horror que dera origem a tudo: \u201cProcure acomodar-se de modo que eu n\u00e3o a veja nem a ou\u00e7a; \u00e0 m\u00ednima palavra a ao m\u00ednimo movimento que me causem inquieta\u00e7\u00e3o, engrossarei a minha voz para lhe perguntar <em>Che vuoi?<\/em>\u201d, aqui estaria a quest\u00e3o \u201cQue quer ele de mim?\u201d. Nessa forma, Biondetta, a mulher se derrama aos p\u00e9s de Alvare, clama por viver ao seu lado, tenta por muitas vias que ele a tome como sua e entregue a ela todo seu ser e exist\u00eancia, mas ele se esquiva, afasta-se desse lugar. \u00c9 quando, ao ver Biondetta v\u00edtima de um ataque comandado por uma outra mulher com que Alvare se relacionava, \u00e0 beira da morte, ele ent\u00e3o, frente a esse ser que tudo por ele sacrificou, entrega-se totalmente: \u201cSe me fores devolvida, serei teu; reconhecerei tuas bondades; coroarei tuas virtudes e tua paci\u00eancia; ligo-me por la\u00e7os indissol\u00faveis e farei meu dever o tornar-te feliz pelo sacrif\u00edcio cego de meus sentimentos e vontades.\u201d<\/p>\n<p>Biondetta sobrevive e Alvare a toma como sua e se entrega sem medidas a ela. Biondetta revela ao seu amado que ela \u00e9 um ser fant\u00e1stico, uma s\u00edlfide que se tornou mulher para poder unir-se a ele. Um m\u00eas de do\u00e7uras e segue-se ent\u00e3o um tormento eterno. Biondetta quer casar-se, quer fidelidade plena, juras de amor eterno, entrega absoluta, ela exige que ele declare que ser\u00e1 dela e que essa posi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 imut\u00e1vel. \u201cOh! Biondetta! Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea meu cora\u00e7\u00e3o! Se visse pararia de estra\u00e7alh\u00e1-lo!\u201d. Para casar-se Alvare se v\u00ea, por quest\u00e3o de respeito, obrigado a pedir o consentimento de sua m\u00e3e e nessa jornada de retorno ao lugar de onde o sujeito adv\u00e9m, sofre com os horrores imputados por Biondetta que tenta faz\u00ea-lo desistir de colocar entre eles sua m\u00e3e. Alvare continua, apesar de tudo, completamente tomado pelo enlace amoroso, vendo apenas a mulher que Biondetta representa. \u00c9 quando, ao dizer: minha cara Biondetta, tu me bastas, ela responde rapidamente, \u201cBiondetta n\u00e3o deve te bastar, [&#8230;] \u00e9 preciso que saiba quem eu sou&#8230; Eu sou o diabo&#8230; ao que acrescenta: \u201cdize, enfim, se conseguires, com a mesma ternura que sinto por ti: Meu caro Belzebu, eu te adoro&#8230;\u201d. Estar\u00edamos aqui em um final de an\u00e1lise? Sem o recurso da fantasia, com Um gozo desvelado, o sujeito \u00e9 convocado a saber fazer com seu gozo, a amar e identificar-se ao seu sinthoma e poder enunciar, <em>sou como gozo<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>CAZOTTE, J. <em>O diabo apaixonado<\/em>. Rio de Janeiro. Jos\u00e9 Olympio, 2013.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro. Ed. Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio livro 16, <em>de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro. Ed. Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 17, <em>o avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graziela Vasconcelos Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) Estamos no Semin\u00e1rio 16, de um Outro ao outro. O ano \u00e9 1968, quando Lacan nos apresenta, em sua terceira aula, A topologia do Outro.\u00a0 Essa hist\u00f3ria, no entanto, come\u00e7a anos antes. 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