{"id":2216,"date":"2023-12-20T14:50:20","date_gmt":"2023-12-20T17:50:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2216"},"modified":"2023-12-20T14:50:20","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:20","slug":"o-trabalho-em-marx-um-estudo-sobre-o-objeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-trabalho-em-marx-um-estudo-sobre-o-objeto\/","title":{"rendered":"O trabalho em Marx: um estudo sobre o objeto"},"content":{"rendered":"<h6>Luiz Mena<br \/>\n<em>Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>O marxismo e a psican\u00e1lise s\u00e3o duas matrizes diferentes de pensamento que seguem paralelas, como diz Lacan no Semin\u00e1rio 16. Miller tamb\u00e9m estabelece uma rela\u00e7\u00e3o bastante pr\u00f3xima com o marxismo, e chega a dizer que \u201cn\u00e3o teve tempo de ser marxista porque j\u00e1 era lacaniano\u201d (p.15).<\/p>\n<p>O Semin\u00e1rio 16 \u00e9 uma forma de Lacan se aprofundar no estudo sobre o objeto a, de forma a conseguir entender a opera\u00e7\u00e3o de causa\u00e7\u00e3o do sujeito para al\u00e9m da cadeia significante, pois um significante s\u00f3 envia o sujeito a outro significante infinitamente. Por isso Lacan tenta entender a causa\u00e7\u00e3o do sujeito a partir de sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto a, e n\u00e3o mais determinada pelo Outro.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o pano de fundo do Semin\u00e1rio 16, no qual Lacan indica a leitura de Marx, se\u00e7\u00e3o III do livro primeiro do Capital, \u201cA produ\u00e7\u00e3o da mais valia absoluta\u201d, cap\u00edtulo V, referente ao trabalho e sua valoriza\u00e7\u00e3o. E o que diz Lacan? Que Marx aproxima a mais valia do riso do capitalista, \u201ca conjun\u00e7\u00e3o do riso com a fun\u00e7\u00e3o radicalmente eludida da mais valia\u201d, aproximando desse modo o que ele tinha trazido antes, da rela\u00e7\u00e3o do chiste com a estrutura. Ou seja, ele tenta aproximar duas dimens\u00f5es, \u201co real e o dizer\u201d (p.64).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu acho que ele manda ler Marx por 3 motivos. O primeiro trata do estatuto do objeto, o segundo tem a ver com o trabalho, e o terceiro com a responsabilidade. Me parece que Lacan se aproxima de Marx nos dois primeiros, e se afasta no terceiro ponto.<\/p>\n<p>Primeiro ponto:<\/p>\n<p>Lacan, \u00e0s voltas com o estatuto do seu objeto a, se interessa por Marx porque uma parte de sua reflex\u00e3o no Capital envolve um estudo sobre o objeto, no qual ele se coloca a seguinte pergunta: o que confere valor a um objeto?<\/p>\n<p>Marx tenta estabelecer o estatuto do objeto, que ele chama de \u201cmercadoria\u201d, atrav\u00e9s de 2 defini\u00e7\u00f5es: a mercadoria \u00e9 um objeto externo que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas de qualquer esp\u00e9cie; e a mercadoria \u00e9 um objeto que, em lugar de ser consumido por quem o produziu, \u00e9 destinado \u00e0 troca.<\/p>\n<p>Ou seja, segundo Marx um objeto pode ser avaliado em sua utilidade, ou <strong>valor de uso<\/strong> (por exemplo a \u00e1gua que mata a sede), ou o objeto pode ser avaliado como porta-valor, ou <strong>valor de troca<\/strong>, car\u00e1ter extr\u00ednseco dado ao objeto, valor subjetivo acoplado ao objeto. O valor de troca \u00e9 determinado pelas circunst\u00e2ncias sociais que determinam o valor do objeto, e s\u00f3 pode ser realizado por uma nega\u00e7\u00e3o imediata do seu valor de uso. Por exemplo, uma \u00e1gua vendida a 20 reais no aeroporto, a gente s\u00f3 consegue pagar quando \u201crecalca\u201d que \u00e9 s\u00f3 \u00e1gua, e pensa que faz parte de uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel de f\u00e9rias, por exemplo, e n\u00e3o \u00e1gua.<\/p>\n<p>Ou seja, encontramos em Marx uma tentativa de diferencia\u00e7\u00e3o dos registros: ele parte de um objeto real com suas propriedades intr\u00ednsecas (pois ele \u00e9 materialista), mas esse objeto real ganha uma forma (ou um valor) diferente a partir da inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que se soma a ele, assumindo um valor de troca at\u00e9 que o objeto real fica recalcado. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o uso que determina o valor do objeto, mas a capacidade de ser trocado.<\/p>\n<p>Diz Marx que para compararmos objetos diferentes em termos de valor, devemos recalcar a utilidade ou a finalidade desses objetos, para chegarmos a uma medida comum que permita a compara\u00e7\u00e3o. Diz ele ent\u00e3o que a quantidade de tempo gasto para produzir os objetos seria a unidade comum que permitiria a coloca\u00e7\u00e3o de valor. Ent\u00e3o, o valor de um objeto \u00e9 determinado por esses 3 fatores: o valor de uso, o valor de troca, e a quantidade de trabalho necess\u00e1rio para a sua produ\u00e7\u00e3o. Ao final do processo, a troca do tempo por dinheiro acaba escondendo a utilidade do objeto, o tempo necess\u00e1rio \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o, e a diferen\u00e7a qualitativa entre os trabalhadores.<\/p>\n<p>O dinheiro em si mereceria uma reflex\u00e3o mais aprofundada, na medida em que o dinheiro \u00e9 um objeto que vem no lugar de todos os objetos, o que significa que ele tem uma propriedade l\u00f3gica singular: ele ao mesmo tempo significa \u201ca realiza\u00e7\u00e3o de qualquer desejo\u201d, e significa tamb\u00e9m \u201ca realiza\u00e7\u00e3o de nenhum desejo\u201d, na medida em que estar na posse do dinheiro significa n\u00e3o estar na posse do objeto. Ou seja, o dinheiro carrega essa contradi\u00e7\u00e3o: implica de um lado uma realiza\u00e7\u00e3o do gozo, e de outro uma ren\u00fancia ao gozo. Essa ren\u00fancia ao gozo ser\u00e1 fundamental para a elabora\u00e7\u00e3o do conceito lacaniano do mais-de-gozar.<\/p>\n<p>Segundo ponto:<\/p>\n<p>Diz Marx que o trabalho \u00e9 um processo no qual o homem se apropria dos recursos da natureza para modific\u00e1-los e imprimir a eles uma forma \u00fatil. Ele considera o trabalho como uma atividade exclusivamente humana, dizendo que a abelha constr\u00f3i sua colmeia com excel\u00eancia, mas o que distingue seu trabalho com o homem \u00e9 que este figura em sua mente a constru\u00e7\u00e3o, antes de transform\u00e1-la em realidade, em uma subordina\u00e7\u00e3o de sua for\u00e7a de vontade ao projeto mental.<\/p>\n<p>Assim, o que diferencia o trabalho humano do trabalho da abelha \u00e9 que o trabalho da abelha \u00e9 instintivo e inconsciente, sua for\u00e7a de trabalho n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o de um projeto mental e n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia de sua vontade, mas de seu instinto; o trabalho da abelha \u00e9 repetitivo, ele visa sua adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais, enquanto o humano tem a capacidade de fazer um trabalho criativo, que modifica a natureza ao mesmo tempo em que se modifica; o trabalho da abelha se utiliza sempre dos mesmos meios dispon\u00edveis na natureza, enquanto o homem desenvolve produtos que servem de ferramentas para desenvolver outros produtos mais complexos, transformando a explora\u00e7\u00e3o simples da mat\u00e9ria-prima em processos mais elaborados, o que define o homem como \u201ca tool making animal\u201d, um animal que constr\u00f3i ferramentas, como explica Marx.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a cr\u00edtica de Marx? Marx diz que a natureza do trabalho humano se modifica no capitalismo, e torna-se parecido ao trabalho da abelha. Para entendermos melhor isso, vou trazer como exemplo a manufatura de sapatos, e a mudan\u00e7a ocorrida com sua industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sapateiro antigamente era um artes\u00e3o com m\u00faltiplas habilidades: ele tinha que aprender a tratar o couro, a cortar o couro, a tingir o couro, a costurar o couro, a colar o couro, em um aprendizado progressivo. Com a revolu\u00e7\u00e3o industrial, a produ\u00e7\u00e3o de sapatos se modificou atrav\u00e9s da fragmenta\u00e7\u00e3o dos processos necess\u00e1rios para se produzir um sapato. Desse modo, em vez de contratar um sapateiro, o dono da f\u00e1brica fragmenta a produ\u00e7\u00e3o em uma s\u00e9rie de pequenos trabalhos: em uma bancada s\u00f3 se corta o couro, em outra s\u00f3 tinge o couro, em outra s\u00f3 costura o couro, e assim por diante, at\u00e9 que os trabalhadores da bancada final s\u00f3 fazem colocar os sapatos na caixa. Desse modo, o que o capitalista faz \u00e9 dissociar o conhecimento necess\u00e1rio para fazer sapatos dos trabalhadores que fazem sapatos, pois assim ele pode empregar um trabalhador simples em vez de um trabalhador especializado. Nesse processo, o sapateiro deixa de existir, e em seu lugar surge o \u201coper\u00e1rio da f\u00e1brica de sapatos\u201d que, ironicamente, n\u00e3o sabe fazer sapatos. Ou seja, o capitalismo provoca uma dissocia\u00e7\u00e3o entre o saber e o fazer.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise de Marx permite a Lacan dizer, finalmente, que \u201co prolet\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 simplesmente explorado, ele \u00e9 aquele que foi despojado de sua fun\u00e7\u00e3o de saber.\u201d (p. 140).<\/p>\n<p>3) Terceiro ponto:<\/p>\n<p>Concluindo, Marx denuncia com a mais valia que h\u00e1 uma perda no humano, e localiza essa perda no processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, no qual haveria uma perda do trabalhador para o patr\u00e3o, um Outro que se aproveita dessa perda atrav\u00e9s da mais valia. Para Marx algu\u00e9m tem menos porque o Outro, o patr\u00e3o, o senhor, o capitalista, goza do peda\u00e7o subtra\u00eddo do trabalhador.<\/p>\n<p>O que Lacan mostra \u00e9 que h\u00e1 sim uma perda de gozo no humano, mas que n\u00e3o haveria um Outro mau que goza do sujeito, o \u201cao menos um\u201d que goza onde ningu\u00e9m mais pode gozar. Para Lacan (1968-69), a posi\u00e7\u00e3o do sujeito \u201c(\u2026) n\u00e3o decorre apenas de uma opress\u00e3o social, porque todo sujeito est\u00e1 implicado no saber que domina sua posi\u00e7\u00e3o.\u201d (p.52). Por isso Lacan n\u00e3o \u00e9 marxista!<\/p>\n<p>O que mostra Lacan \u00e9 que o mais de gozar \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o de ren\u00fancia ao gozo:<\/p>\n<blockquote><p>Assim como o trabalho n\u00e3o era novo na produ\u00e7\u00e3o da mercadoria, <strong>a <\/strong>ren\u00fancia ao gozo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nova. O que h\u00e1 de novo \u00e9 existir um discurso que articula essa ren\u00fancia, e que faz evidenciar nela o que chamarei de fun\u00e7\u00e3o do mais de gozar. \u00c9 essa a ess\u00eancia do discurso anal\u00edtico. (p. 17).<\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>ARANHA, M.L.A. Filosofando: introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia. S\u00e3o Paulo: Moderna, 1986.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1968-69). O Semin\u00e1rio, livro 16: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970). O Semin\u00e1rio, livro 17: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Um in\u00edcio na vida: de Sartre a Lacan. Rio de Janeiro: Subversos, 2009.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Mena Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) O marxismo e a psican\u00e1lise s\u00e3o duas matrizes diferentes de pensamento que seguem paralelas, como diz Lacan no Semin\u00e1rio 16. 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