{"id":2218,"date":"2023-12-20T14:50:27","date_gmt":"2023-12-20T17:50:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2218"},"modified":"2023-12-20T14:50:27","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:27","slug":"toxicomania-sentimento-de-vida-e-a-lei-do-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/toxicomania-sentimento-de-vida-e-a-lei-do-coracao\/","title":{"rendered":"Toxicomania, sentimento de vida e a lei do cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6>Anderson Viana<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>O enfoque psicanal\u00edtico das rela\u00e7\u00f5es que o toxic\u00f4mano estabelece com a droga situa-se numa gama de problemas e impasses conceituais, no \u00e2mbito dos quais, o debate sobre sua delimita\u00e7\u00e3o como uma categoria cl\u00ednica dotada de uma especificidade pr\u00f3pria se destaca de maneira decisiva. E, a despeito das dificuldades de natureza conceitual, deve-se tomar a toxicomania como um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria da psican\u00e1lise que mais consegue se aproximar dos pr\u00f3prios limites tanto de seu saber quanto de sua pr\u00e1tica. (Santiago, 2001). Ao tratar do assunto, o autor constata que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c&#8230;nada do consumo abusivo de droga se compara ao que foi, para psican\u00e1lise, o sintoma conversivo, o pensamento obsessivo- compulsivo ou a ideia delirante persecut\u00f3ria, que permitiram a postula\u00e7\u00e3o de estruturas cl\u00ednicas freudianas cl\u00e1ssicas, a saber, respectivamente, a histeria, a neurose obsessiva e a paranoia\u201d (p. 9).<\/p><\/blockquote>\n<p>Certamente esta informa\u00e7\u00e3o da o tom e a magnitude das dificuldades encontradas pela c\u00ednica psicanal\u00edtica para o enfrentamento das toxicomanias. Sabe-se que tanto a histeria, quanto a neurose obsessiva, assim como as psicoses s\u00e3o concebidas pela rela\u00e7\u00e3o que o sujeito estabelece com o Outro. Santiago (2001) observa que a inscri\u00e7\u00e3o do Outro n\u00e3o segue \u00e0 risca a separa\u00e7\u00e3o estanque entre neurose e psicose, ou seja, entre o recalque e a foraclus\u00e3o, n\u00e3o sendo mais suficiente a presen\u00e7a do Nome-do-pai para dar conta do fen\u00f4meno da toxicomania. Nesta perspectiva, levanta-se como hip\u00f3tese que ainda que ele possa estar presente, seus efeitos n\u00e3o s\u00e3o necessariamente capazes de agir ou legislar a favor do sujeito. Nesta concep\u00e7\u00e3o, a droga aparece justamente como solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao propor a no\u00e7\u00e3o de <em>sentimento de vida<\/em>, Miller (2012) organiza-a a partir do que ele nomeou de tripla externalidade: social, corporal e subjetiva, observando que seus ind\u00edcios devem ser situados nos tr\u00eas registros: simb\u00f3lico, imagin\u00e1rio e real. Sob este prisma, a investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica sobre o sentimento de vida traz, para o centro da an\u00e1lise, a desordem na jun\u00e7\u00e3o mais intima expressa na maneira como o mundo \u00e9 experimentado pelo sujeito. Destaco, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 externalidade subjetiva, a identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o dialetiz\u00e1vel do sujeito ao objeto <em>a<\/em> como dejeto. Importa aqui identificar \u00edndices de um vazio n\u00e3o dialetiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em <em>Donc<\/em>, semin\u00e1rio que Miller (2011) se dedica \u00e0 l\u00f3gica da cura, ele identifica uma outra desordem, que pode eventualmente caracterizar uma posi\u00e7\u00e3o toxic\u00f4mana. Nele, Miller (2011) prop\u00f5e o que seria a estrutura geral do desconhecimento. De acordo com Miller (2011), crer-se n\u00e3o \u00e9 crer-se outro, mas sim crer-se em si mesmo. Como ele afirma, o desconhecimento \u00e9 um del\u00edrio onde h\u00e1 a foraclus\u00e3o do Outro, ou seja, se \u00e9 uma cren\u00e7a, consiste em crer em uma identidade de si que n\u00e3o passaria pelo Outro.<\/p>\n<p>Miller (2011) afirma que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO problema do desconhecimento n\u00e3o \u00e9 tanto <em>Eu sou o outro<\/em>, mas diretamente a equa\u00e7\u00e3o <em>eu = eu<\/em>. Haveria que inventar aqui um verbo como <em>mismar-se<\/em>; essa equa\u00e7\u00e3o \u00e9 a do eu que <em>si misma<\/em>, que conotamos com o que convencionamos chamar de narcisismo. De um modo tal que o desconhecimento \u00e9 um del\u00edrio de identidade. Consiste em p\u00f4r o Outro fora de si. E como podemos chamar loucura de desconhecimento, encontramos aqui seu princ\u00edpio\u201d. (p. 115)<\/p><\/blockquote>\n<p>De acordo com Lacan (Miller, 2011), o ser deve ter uma abertura que est\u00e1 na fronteira, que \u00e9 limite em rela\u00e7\u00e3o ao mundo. Mas, na figura hegeliana da loucura, a lei do cora\u00e7\u00e3o tanto assegura uma identidade consigo mesmo, quando se op\u00f5e a uma ordem do mundo que ela denuncia como uma desordem. Miller (2011) exemplifica: uma desordem para conveni\u00eancia de suas exig\u00eancias, uma desordem de injusti\u00e7a, ou inclusive, num certo momento de seu desenvolvimento, uma desordem de individualidades competidoras. A lei do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o de Lacan, que denota uma insurg\u00eancia contra o mundo em nome dela.<\/p>\n<p>Miller (2011) citando Lacan, traz esta defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cali onde h\u00e1 ordem no mundo, onde seu ser atual se manifesta como qualquer coisa da realidade efetiva, o <em>eu<\/em> se desconhece e somente se reconhece no lugar da lei do cora\u00e7\u00e3o\u201d. (p.115)<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo Lacan (citado por Miller, 2011), a lei do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma imagem atual e invertida desta ordem do mundo. De acordo com o autor, Lacan chama de discord\u00e2ncia fundamental entre o <em>eu<\/em> e o <em>ser<\/em>. H\u00e1 um duplo desconhecimento: o <em>eu<\/em> desconhece a posi\u00e7\u00e3o verdadeira de seu <em>ser<\/em>, assim como reconhece este <em>ser<\/em> atual em sua imagem invertida. De outro modo, conclui o autor, a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica n\u00e3o se articula ao Nome-do-pai.<\/p>\n<p>O que efetivamente se l\u00ea em Hegel, de acordo com Miller (2011), \u00e9 que, em efeito, quando o <em>eu <\/em>se lan\u00e7a na a\u00e7\u00e3o, golpeia-se a si mesmo pela via do contra-golpe social. Como diz Lacan (Miller, 2011), \u00e9 dizer o que que lhe faz saber que perturba, e o que \u00e9 o percurso mesmo do mundo onde sua a\u00e7\u00e3o se desnaturaliza e se volta contra ele mesmo.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva sem sa\u00edda, bloqueada e n\u00e3o suscet\u00edvel de desenvolvimento dial\u00e9tico por n\u00e3o atrelar a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica com a fun\u00e7\u00e3o do Nome-do-pai. \u00c9 poss\u00edvel dizer dela, uma posi\u00e7\u00e3o toxic\u00f4mana? Esta sa\u00edda, como afirma Miller (2011), n\u00e3o pode ser obtida pelo <em>eu<\/em>, pois ele \u00e9 nosso autor que mais faz a media\u00e7\u00e3o contra ordem. Lembro de um aluno que no primeiro dia de aula, apresentou-se com seu primeiro nome e em seguida disse que era dependente qu\u00edmico em recupera\u00e7\u00e3o, para surpresa do restante da turma. S\u00f3 um sujeito que forclui o outro, no caso, a institui\u00e7\u00e3o onde se apresentava, pode ser tido como louco, afinal, usar uma doen\u00e7a como principal credencial ou significante mestre para se apresentar em uma sala de aula n\u00e3o \u00e9 o habitual ou o que se espera.<\/p>\n<p>Neste caso, ele vinha de muitos anos frequentando o NA e l\u00e1 este tipo de apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 o habitual. Aqui est\u00e1 exemplificada como age a estrutura geral do desconhecimento na posi\u00e7\u00e3o do sujeito frente a novos apelos do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Por fim, Miller (2012) tamb\u00e9m se refere a uma posi\u00e7\u00e3o depressiva em que o\u00a0\u00a0 sujeito supostamente se identifica com um objeto mau interno. Lacan evidenciava o extremo arca\u00edsmo da subjetiva\u00e7\u00e3o de um Kakon. Segundo Miller (2011), Lacan o evocava em <em>\u201cAcerca da causalidade ps\u00edquica\u201d<\/em> ao citar a an\u00e1lise psiqui\u00e1trica por Paul Guiraud, dos assassinatos imotivados em que esta aparente falta de motivo se revela definitivamente como o ataque efetuado pelo sujeito contra este outro que ele situa, na verdade, em seu pr\u00f3prio objeto mau interno.<\/p>\n<p>O \u201cextremo arca\u00edsmo\u201d significa que, mais al\u00e9m das identifica\u00e7\u00f5es com a imagem do outro, haveria uma rela\u00e7\u00e3o com o objeto mau &#8211; e no fundo, inimagin\u00e1vel. Segundo Miller (2011), esta indica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o modo como Lacan retoma Melaine Klein, fica em espera por muito tempo no seu ensino que s\u00f3 depois de grandes par\u00eantes, dar\u00e1 todo seu valor a este \u201cextremo arca\u00edsmos da subjetiva\u00e7\u00e3o de um Kakon\u201d, quando estabelece, como o n\u00edvel mais primordial da constitui\u00e7\u00e3o de um sujeito, sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto <em>a<\/em>. Esta express\u00e3o citada anteriormente anuncia o que em \u00faltima inst\u00e2ncia ser\u00e1 por certo o mais memor\u00e1vel pr\u00f3prio de Lacan a teoria anal\u00edtica, a saber, o objeto <em>a<\/em>. Assim, a equa\u00e7\u00e3o <em>eu = eu<\/em>, e suas implica\u00e7\u00f5es, assim como as consequ\u00eancias da subjetiva\u00e7\u00e3o de um Kakon podem ser \u00edndices, inicialmente, n\u00e3o ligados \u00e0 psicose ou neurose. Entretanto, certamente, \u00e0 toxicomania.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de \u00eaxtimo do objeto <em>a<\/em> \u00e9 que faz furo, \u00e9 o lugar do \u00edntimo, do mais \u201cinterno\u201d e \u00e9 neste lugar que habitam as desordens. O conceito de falta, correlato ao objeto <em>a<\/em>, traz consigo a ideia de que o sujeito n\u00e3o lida com um interno e um externo, mas com a castra\u00e7\u00e3o, o gozo, o falo e o Outro. A ang\u00fastia \u00e9 efeito da presen\u00e7a, do surgimento do objeto <em>a<\/em>, ali onde deveria faltar. Onde h\u00e1 ang\u00fastia, h\u00e1 falta da falta. O pr\u00f3prio processo de an\u00e1lise conduz de um suposto fora, um no outro, para um em mim, que depois tende a uma fus\u00e3o: n\u00e3o sou eu nem o outro, \u00e9 a falta, o real. (Mankoff, 2012)<\/p>\n<p>Se as externalidades est\u00e3o relacionadas ao objeto <em>a<\/em>, e mais especificamente a externalidade subjetiva relativa \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o ao objeto <em>a<\/em> como dejeto, isto tem implica\u00e7\u00f5es no modo de gozo do sujeito. A prolifera\u00e7\u00e3o de objetos \u00e9 uma marca de nossa \u00e9poca, o que nos permite afirmar que o objeto tem este car\u00e1ter de dejeto e uma fun\u00e7\u00e3o de gozo. Em 1975, no encerramento das Jornadas de Cart\u00e9is da Escola Freudiana, Lacan ir\u00e1 afirmar que a droga \u00e9 o \u00fanico objeto que permite romper o casamento com o pequeno pipi. De outro modo, \u00e0quele para quem sua subjetividade lhe \u00e9 externa e n\u00e3o \u00eaxtima. Ou ainda, como afirmou Eric Laurent em <em>\u201cTr\u00eas observa\u00e7\u00f5es sobre a toxicomania\u201d<\/em>, uma das consequ\u00eancias dessa ruptura entre Nome-do-pai e fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica \u00e9 a ruptura com o nome do pai por fora da psicose.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. (2011) El Sentimiento Delirante de la Vida. Buenos Aires: colecci\u00f3n Diva.<\/h6>\n<h6>LAURENT. E (2017) Tr\u00eas observa\u00e7\u00f5es sobre a toxicomania. Pharmakon digital, n.3.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.(2016).Encerramento das jornadas de cart\u00e9is da Escola Freudiana, Pharmakon Digital, n. 2.<\/h6>\n<h6>MANKOFF, S. (2016) Objetos fora do corpo. In: Corpo Falante. Sobre o inconsciente no s\u00e9c. XXI. Scilicet, EBP, Rio de Janeiro.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. (2011) Donc. La L\u00f3gica de la Cura. Buenos Aires. Editorial Paidos.<\/h6>\n<h6>MILLER , J-A (2012). Efeitos de Retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria. In: A Psicose Or- din\u00e1ria: a conven\u00e7\u00e3o de antinbes. Baristas, M. Do Carmo, Dias, S. Laia (orgs). Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A (2011) Perspectivas do semin\u00e1rio XXIII: entre desejo e gozo. Zahar Ed.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO,J. (2001)A Droga do Toxic\u00f3mano :uma parceria c\u00ednica na \u00e9poca da ci\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anderson Viana Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) O enfoque psicanal\u00edtico das rela\u00e7\u00f5es que o toxic\u00f4mano estabelece com a droga situa-se numa gama de problemas e impasses conceituais, no \u00e2mbito dos quais, o debate sobre sua delimita\u00e7\u00e3o como uma categoria cl\u00ednica dotada de uma especificidade pr\u00f3pria se destaca de maneira decisiva. E, a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2218","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2218"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2218\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2219,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2218\/revisions\/2219"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2218"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}