{"id":2220,"date":"2023-12-20T14:50:34","date_gmt":"2023-12-20T17:50:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2220"},"modified":"2023-12-20T14:50:34","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:34","slug":"medicalizacao-da-vida-e-do-sofrimento-humano-o-que-pode-a-psicanalise-frente-a-pilula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/medicalizacao-da-vida-e-do-sofrimento-humano-o-que-pode-a-psicanalise-frente-a-pilula\/","title":{"rendered":"Medicaliza\u00e7\u00e3o da vida e do sofrimento humano, o que pode a Psican\u00e1lise frente \u00e0 p\u00edlula?"},"content":{"rendered":"<h6>Josu\u00e9 Alves<br \/>\n<em>Aluno do curso de Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL &#8211; IPB)<\/em><\/h6>\n<p>A partir da minha pr\u00e1tica enquanto psic\u00f3logo, em uma institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, na condi\u00e7\u00e3o de Residente em Sa\u00fade da Fam\u00edlia e com um olhar orientado a partir da Psican\u00e1lise, observo o quanto os usu\u00e1rios adscritos nessa referida institui\u00e7\u00e3o, vem em processo de adoecimento ps\u00edquico. Esses chegam ao consult\u00f3rio, relatando uma s\u00e9rie de sintomas como fobias, medos, sentimento de ang\u00fastia, taquicardia, sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar e aperto no peito, e outros com o diagn\u00f3stico m\u00e9dico de <em>ansiedade generalizada<\/em>. Trata-se, de uma institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, qual perdura o discurso da ci\u00eancia, pautada na \u00e9tica do cuidado, da repara\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em alguns casos, referem agravamento dos sintomas ap\u00f3s per\u00edodo da pandemia que atravessamos recentemente, onde houve perdas, mortes e isolamento social. Ao relatarem tais sintomas, questionam imediatamente qual medica\u00e7\u00e3o devem fazer uso para al\u00edvio dos mesmos, ou ainda se podem continuar a fazer uso do psicof\u00e1rmaco receitado por m\u00e9dico cl\u00ednico. Volto-lhes a quest\u00e3o, e lhes digo que minha p\u00edlula s\u00e3o palavras e sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento que lhes ofere\u00e7o a escuta e, solicito que falem o que vier a cabe\u00e7a, ainda que pare\u00e7a absurdo; ali est\u00e1 autorizado a dizer, sendo resguardado o sigilo profissional. S\u00e3o relatos de ang\u00fastia, de crises existenciais, inseguran\u00e7as diante das fases da vida, que os mesmos atravessam; outros com relatos de sobrecarga, nos afazeres do dia a dia, no cuidado com a fam\u00edlia, e uma insist\u00eancia naquilo que se repete, e n\u00e3o cansa de se inscrever. A ang\u00fastia \u00e9 certa.<\/p>\n<p>Em Lacan, o sujeito se angustia quando a falta, falta; uma vez que essa d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o ao desejo. Para Lacan a ang\u00fastia \u00e9 o afeto que n\u00e3o engana, sendo que nessa, o sujeito est\u00e1 preso nas redes do objeto parcial, n\u00facleo organizador de sua fantasia, se sente animado por um desejo, ao qual a falta n\u00e3o parece sequer corresponder (Kaufmann, 1996). \u00c9 nessa n\u00e3o correspond\u00eancia entre desejo e falta que Lacan situar\u00e1 o \u201cponto de ang\u00fastia\u201d. Lacan (2005) toma a ang\u00fastia, como um sinal ante um perigo determinado: o encontro com o desejo do Outro.<\/p>\n<p>Segundo Besset (2002) a ang\u00fastia, fisgada pelo discurso m\u00e9dico, torna-se facilmente objeto de medica\u00e7\u00e3o. De outro lado, e bem distante de tal discurso, a psican\u00e1lise, ao inv\u00e9s de tentar extirpar a ang\u00fastia do sujeito, a acolhe, e busca desse um saber fazer com isso. A ang\u00fastia ent\u00e3o nada tem de patol\u00f3gico, apesar de trazer para o sujeito que a experimenta, um sofrimento que pode adquirir propor\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel. Portanto, \u00e9 do acolhimento de sua presen\u00e7a e n\u00e3o de sua cura, que se trata na psican\u00e1lise (Miller, 2001).<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 um imperativo social contempor\u00e2neo acerca do dever de ser feliz. Buscando tamponar a falta, estrutural e constitucional, do sujeito. Logo, h\u00e1 uma defesa diante da ang\u00fastia humana ao buscar tampon\u00e1-la, seja com o uso de medicamentos, seja com o surgimento de novos sintomas atuais, como a compuls\u00e3o por compras, compuls\u00e3o alimentar, entre outros. Para Freud (1976), n\u00e3o h\u00e1 somente o imperativo de felicidade ditada pelo programa do prazer, mas tamb\u00e9m o encontro com o destino da puls\u00e3o de morte que se exprime pelo \u201ddesperd\u00edcio de grandes quantidades de energia que poderiam ser empregadas para melhorar o destino humano\u201d. (p. 23)<\/p>\n<p>Nesse imperativo de felicidade, como traz Gon\u00e7alves (2008) \u201cter de ser feliz e n\u00e3o poder ser triste, s\u00e3o dois lados do mesmo imperativo\u201d. Diz a autora:<\/p>\n<blockquote><p>Ao lado desse, o vazio intr\u00ednseco ao ser feliz com que este vazio que para muitos \u00e9 insuport\u00e1vel, fosse preenchido tanto com a religi\u00e3o, quanto com o consumo ou com a droga. A ind\u00fastria farmac\u00eautica entra para \u201csanar\u201d isso, com um papel na chamada \u201cmedicaliza\u00e7\u00e3o do sofrimento\u201d humano contribuindo para essa recusa ao afeto da tristeza, que faz parte da subjetividade. \u00c9 uma forma de mascarar os sintomas e preservar o sujeito de se haver com eles (GON\u00c7ALVES, 2008, p. 66).<\/p><\/blockquote>\n<p>Desse modo, quanto mais se adere a tal discurso, o qual promete a imediata elimina\u00e7\u00e3o do mal-estar humano como se fosse essa a dire\u00e7\u00e3o da cura, mais h\u00e1 um distanciamento daquilo que move o sujeito em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. \u00c9 sabido que o sujeito sabe mais de si do que a p\u00edlula. Contudo, ao medicalizar o sofrimento, o que ocorre \u00e9 uma n\u00e3o responsabiliza\u00e7\u00e3o por aquilo que lhes atravessa. A responsabilidade logo lhe \u00e9 subtra\u00edda, n\u00e3o h\u00e1 uma implica\u00e7\u00e3o subjetiva em sua queixa, em sua dor de existir.<\/p>\n<p>O psicof\u00e1rmaco seria ent\u00e3o uma resposta r\u00e1pida e curta ao sujeito, diante da sua ang\u00fastia e mal-estar, inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Seria outro modo de dizer que, nos moldes contempor\u00e2neos n\u00e3o teria espa\u00e7o para a tristeza e para o mal-estar. \u00c9 preciso antes extirp\u00e1-lo, afast\u00e1-lo; uma vez que ainda h\u00e1 resqu\u00edcios do biopoder, da ordem m\u00e9dica. Contudo, h\u00e1 algo que trope\u00e7a no discurso da ci\u00eancia. Aquele que consome \u00e9 consumido, tornando-se tamb\u00e9m objeto de consumo. E o que se v\u00ea, s\u00e3o sujeitos cada vez mais deprimidos, angustiados, e consumidores de psicof\u00e1rmacos, n\u00e3o sabendo o que fazer com aquilo que lhes \u00e9 de mais singular.<\/p>\n<p>A Psican\u00e1lise fundamenta-se no uso da palavra. N\u00e3o se trata, portanto, de uma cr\u00edtica ao uso dessa classe de medicamentos, mas sim do seu mau uso. Sendo que nesse, h\u00e1 o apagamento do sujeito e suas quest\u00f5es, mortificando-o. Com isso, no discurso m\u00e9dico, ao sujeito n\u00e3o lhe \u00e9 dada a voz, sendo que nesse h\u00e1 um saber que lhe antecede, com respostas pr\u00e9-fabricadas a quest\u00f5es subjetivas, que est\u00e3o para al\u00e9m da ordem m\u00e9dica. A Psican\u00e1lise por sua vez, vai \u00e0 outra dire\u00e7\u00e3o. Essa vem dar voz ao sujeito para ent\u00e3o, encontrar novos caminhos de vida.<\/p>\n<p>Para Freud, h\u00e1 um modo de gozo particular a cada sujeito e isso lhe \u00e9 \u00fanico. Portanto, quando se abre a escuta encontra-se a possibilidade de criar novos caminhos. Se por um lado, a medicina prop\u00f5e a igualdade entre a verdade e o saber, ignorando o sujeito e suas quest\u00f5es subjetivas; por outro, a Psican\u00e1lise privilegia o sujeito e seu sofrimento, fazendo-o falar sobre o que lhes faz sofrer; n\u00e3o pretendendo com isso a felicidade, nem tampouco a adequa\u00e7\u00e3o as estruturas sociais, mas antes, encontrar algo de singular em seu modo de gozo. Para Gon\u00e7alves, et al. (2008, p. 65) \u201cn\u00e3o cabe \u00e0 psican\u00e1lise se submeter \u00e0 ditadura da felicidade\u201d.<\/p>\n<p>Desse modo, o que pode o analista, frente a medicaliza\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia e do sofrimento? Ou ainda, o que pode a Psican\u00e1lise frente \u00e0 p\u00edlula? A an\u00e1lise \u00e9 em si uma experi\u00eancia de significa\u00e7\u00e3o, um modo de operar sobre os significantes, que marcaram a vida do sujeito. Dito de outro modo, um ressignificar de hist\u00f3rias. A Psican\u00e1lise, diferentemente da medicina que deseja extirpar o sintoma do sujeito, busca desse, um saber fazer com isso, ao implic\u00e1-lo naquilo que lhe ocorre e no seu modo de gozo. \u00c9 encontrar outra dire\u00e7\u00e3o, mais criativa para sua exist\u00eancia. Para Vieira (2008):<\/p>\n<blockquote><p>O psicanalista pode propor algum caminho alternativo? Sim. O psicanalista o busca no mundo de coisas que gravitam em torno de n\u00f3s, mas que, por n\u00e3o se encaixarem, ficam ali, praticamente invis\u00edveis, na condi\u00e7\u00e3o de figurantes, de nosso cinema pessoal. Quando na cena principal, \u00e9 preciso lidar com o Outro da angustia, pode ser \u00fatil, convocar todos para que cada um conte sua historia. A an\u00e1lise ao inv\u00e9s de buscar livrar o sujeito do sintoma, vai lhe dar m lugar, faze-lo falar. Ao Outro da angustia diz-se algo como: \u201cCom voc\u00ea, posso aprender sobre mim\u201d (VIEIRA, 2008. p. 37).<\/p><\/blockquote>\n<p>O convite do analista ao sujeito para contar sua hist\u00f3ria pessoal, \u00e9 um recontar caminhos, percursos, trilhas. \u00c9 um ir e vir, \u00e9 um refazer-se diante daquilo que lhe causa horror. \u00c9 encontrar algo de singular diante do caos que lhe atravessa. A ang\u00fastia funciona ent\u00e3o como uma b\u00fassola orientadora ao desejo. Dando ao sujeito a possibilidade de um outro espa\u00e7o, um novo lugar, uma nova posi\u00e7\u00e3o mais digna aquele que se atreve a fazer a travessia. Fico com as palavras de Rubem Alves quando diz \u201costra feliz n\u00e3o faz p\u00e9rola\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/h6>\n<h6>BESSET, V.L. Ang\u00fastia. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2002.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1976, 24 vols.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, vol. XX. Rio de Janeiro: Imago, 2006.<\/h6>\n<h6>FUENTES, M. J.; VERAS, M. (Orgs). Felicidade e Sintoma: Ensaios para uma psican\u00e1lise do s\u00e9culo XXI. Rio de Janeiro: EBP; Salvador, Editora Corrupio, 2008.<\/h6>\n<h6>GON\u00c7ALVES, N; HARARI, A; SANTIAGO, J. \u201cA Felicidade na cultura\u201d, em Felicidade e Sintoma: Ensaios para uma psican\u00e1lise do s\u00e9culo XXI. FUENTES, M. J. VERAS, M. (Orgs.). Rio de Janeiro, pp. 57-69.: EBP; Salvador, Editora Corrupio, 2008.<\/h6>\n<h6>KAUFMANN, P. Dicion\u00e1rio Enciclop\u00e9dico de Psican\u00e1lise: O legado de Freud e Lacan. (trad.) Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio. Livro X: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. Um real para a psican\u00e1lise. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Rio de Janeiro, n 32 p 15-8, dezembro, 2001.<\/h6>\n<h6>NUNES, Gresiela. Um percurso de nomes, objetos, ang\u00fastia e satisfa\u00e7\u00e3o. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie. Ano 3. N\u00famero 8. julho 2012.<\/h6>\n<h6>VIEIRA, Marcus Andr\u00e9. Restos: Uma introdu\u00e7\u00e3o lacaniana ao objeto da psican\u00e1lise. Ed. Contra Capa, Rio de Janeiro, 2008.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Josu\u00e9 Alves Aluno do curso de Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL &#8211; IPB) A partir da minha pr\u00e1tica enquanto psic\u00f3logo, em uma institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, na condi\u00e7\u00e3o de Residente em Sa\u00fade da Fam\u00edlia e com um olhar orientado a partir da Psican\u00e1lise, observo o quanto os usu\u00e1rios adscritos nessa referida institui\u00e7\u00e3o, vem em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2220"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2221,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2220\/revisions\/2221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2220"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}