{"id":2222,"date":"2023-12-20T14:50:40","date_gmt":"2023-12-20T17:50:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2222"},"modified":"2023-12-20T14:50:40","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:40","slug":"urgencia-subjetiva-que-tempo-e-esse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/urgencia-subjetiva-que-tempo-e-esse\/","title":{"rendered":"Urg\u00eancia subjetiva: que tempo \u00e9 esse?"},"content":{"rendered":"<h6>Rafael Chaves de Barros<br \/>\n<em>Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<blockquote><p><em>Na enchente de 22, a maior de todas as enchentes do Pantanal, o canoeiro Apuleio vagou tr\u00eas dias e tr\u00eas noites por cima das \u00e1guas, sem comer sem dormir \u2014 e teve um del\u00edrio fr\u00e1sico. A est\u00f3rea aconteceu que um dia, remexendo pap\u00e9is na Biblioteca do Centro de criadores da Nhecol\u00e2ndia, em Corumb\u00e1, dei com um pequeno caderno de Armaz\u00e9m, onde se anotavam compras fiadas de arroz feij\u00e3o fumo etc. Nas \u00faltimas folhas do caderno achei frases soltas, cerca de 200. Levei o manuscrito para casa. Lendo as frases com vagar imaginei que o desolo, a fraqueza e o medo talvez tenham provocado, no canoeiro, uma ruptura com a normalidade. Passei anos penteando e desarrumando as frases. Desarrumei o melhor que pude. O resultado ficou esse (os versos dessa parte do livro). Desconfio que, nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa.<br \/>\n<\/em>(Manoel de Barros, 2004, p. 19, <em>Livro das ignor\u00e3\u00e7as)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Seguindo os prumos freudianos de que a poesia e a literatura, muitas vezes, se antecipam \u00e0 psican\u00e1lise; a partir desse pequeno pre\u00e2mbulo que introduz a segunda parte do <em>\u201cLivro das Ignor\u00e3\u00e7as\u201d<\/em>, de Manoel de Barros, podemos percorrer a hist\u00f3ria do personagem Apuleio que, \u00e0 deriva, se encontra numa situa\u00e7\u00e3o em que a repercuss\u00e3o no corpo, se traduz em ang\u00fastia. Frente ao Real imposs\u00edvel de ser simbolizado, o personagem rompe com o campo simb\u00f3lico e se desencontra.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse tom de perplexidade que muitos chegam \u00e0 <em>Rede de Psican\u00e1lise Apllicada-RPA<\/em><em>\u00b9<\/em>, e desembarcam num estado de urg\u00eancia. Esse estado caracterizado \u00e9: \u201ccomo \u00e0quele que aparece como uma quebra na linha do tempo, tira o sujeito de suas rotinas e o obriga a desenvolver uma nova rela\u00e7\u00e3o com a realidade\u201d (SELDES, 2019, p. 20, <em>tradu\u00e7\u00e3o nossa<\/em>). Um acontecimento que lan\u00e7a o sujeito na dire\u00e7\u00e3o do encontro traum\u00e1tico com o Real, impossibilitando-o de dar alguma significa\u00e7\u00e3o para aquilo que lhe atravessa, uma vez que suas refer\u00eancias simb\u00f3licas-imaginarias n\u00e3o lhes s\u00e3o suficientes.<\/p>\n<p>Dessa maneira, para cada urg\u00eancia, reivindica-se uma certa dignidade. Como nos aponta Seldes (2008), nosso objetivo de interesse n\u00e3o se encerra na compreens\u00e3o fenom\u00eanica da urg\u00eancia, mas, sim, de que modo a passagem de uma urg\u00eancia se translada para uma urg\u00eancia subjetiva. Enquanto tal, n\u00e3o se produz sem uma oferta de escuta do analista; permitindo que o que n\u00e3o passa pela palavra, possa ser elaborado de alguma maneira.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o passa pela palavra, tem valor antecipado de ato. Logo, na experi\u00eancia da urg\u00eancia, o sujeito pode se atualizar de diferentes maneiras, como: se ver petrificado, paralisado, congelado no tempo, ou at\u00e9 mesmo na imin\u00eancia de uma passagem ao ato. Sem borda, o sujeito se apressa em querer se desvencilhar de seu mal-estar, buscando uma sa\u00edda pautado pela l\u00f3gica da a\u00e7\u00e3o, sem ao menos, levar em considera\u00e7\u00e3o o devido tempo de compreens\u00e3o. Portanto, o tempo de compreender, aqui, \u00e9 elidido; pois o sujeito se precipita em raz\u00e3o de estar acuado, imbu\u00eddo noutra rela\u00e7\u00e3o com o tempo.<\/p>\n<p>Nessa linha reflexiva, Lacan (1945\/ 1998), em seu texto <em>O Tempo L\u00f3gico e a Asser\u00e7\u00e3o de Certeza Antecipada<\/em>, assinala uma importante engenharia que fundamenta o modo como o sujeito se insere na linha do tempo, cujo seu alicerce \u00e9 guiado por um tempo l\u00f3gico, e n\u00e3o cronol\u00f3gico. Mas a t\u00edtulo de ilustra\u00e7\u00e3o, apresenta esse tempo atrav\u00e9s de uma escans\u00e3o temporal, onde: a primeira, consiste no instante de ver- definido como \u00e0quele instante que se fulgura algo; o tempo de compreender- onde a elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 levada em considera\u00e7\u00e3o; e o momento de concluir- quando se conclui algo a partir de uma certeza antecipada.<\/p>\n<p>Entretanto, na urg\u00eancia, no que tange a perspectiva l\u00f3gica, o instante de ver parece dragar o momento de compreender, a ponto de se fundir com o momento de concluir. Ou seja, a experi\u00eancia temporal da urg\u00eancia \u00e9 permeada por um curto-circuito; tirando de cena o tempo de compreender; tempo esse, necess\u00e1rio para que se deduza algo a partir da cadeia significante que ali opera, onde o sujeito emerge entre um significante e outro, apontando para o desejo, a fim de que se d\u00ea um contorno poss\u00edvel para algo que n\u00e3o se sabe.<\/p>\n<p>Contudo, na urg\u00eancia, esse tempo n\u00e3o comparece; impossibilitando, assim, o advento do sujeito. Em vista disso, podemos pensar uma outra vertente da urg\u00eancia, ou, um outro lado para qual a dobradi\u00e7a aponta: denotada enquanto urg\u00eancia de um dizer; dimens\u00e3o na qual n\u00e3o podemos perder de vista.<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, o manejo do tempo l\u00f3gico se apresenta como um importante operador cl\u00ednico na cl\u00ednica das urg\u00eancias, tencionando introduzir uma pausa na pressa em que o sujeito se encontra absorvido, fusionado no curto-circuito entre o instante de ver e momento de concluir, e na imin\u00eancia de se antecipar a um ato. Vale ressaltar, que essa antecipa\u00e7\u00e3o, ou melhor, pressa em concluir, se difere da pressa em concluir da asser\u00e7\u00e3o da certeza antecipada; pois a pressa na urg\u00eancia n\u00e3o comporta um contorno significante a partir de um intervalo.<\/p>\n<p>Portanto, a riqueza de se pensar o tempo l\u00f3gico, na condi\u00e7\u00e3o de operador cl\u00ednico, pode auxiliar a abertura para uma outra temporalidade. E, para que o tempo de compreender opere, o analista precisa se predispor atrav\u00e9s da sua escuta, a colocar-se na posi\u00e7\u00e3o de destinat\u00e1rio das palavras que o sujeito lhe endere\u00e7a, de modo que a associa\u00e7\u00e3o livre seja posta em jogo, equacionando um contorno poss\u00edvel a algo que se rompeu na cadeia significante em raz\u00e3o de uma urg\u00eancia; podendo, ent\u00e3o, de alguma maneira, ser representado. Mas, isso leva tempo, singular de cada sujeito, cuja sua incid\u00eancia o poeta, no pequeno texto acima j\u00e1 antevia: \u201cpode passar anos penteando e desarrumando as frases\u201d (BARROS, 2004, p. 19). Contudo, independente do tempo que isso leve, esperamos que o sujeito restabele\u00e7a o la\u00e7o com a palavra a partir de sua capacidade inventiva; assim como o desfecho do personagem Apuleio que se revela, somente, num tempo posterior (ou, \u201cs\u00f3 depois\u201d): \u201cDesconfio que, nesse caderno, o canoeiro voou fora da asa\u201d (BARROS, 2004, p. 19).<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>BARROS, Manoel de. <strong>O livro das ignor\u00e3\u00e7as<\/strong>. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2004. 95 p.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. O tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o da certeza antecipada. Interven\u00e7\u00e3o sobre a transfer\u00eancia.\u00a0<em>In<\/em>: LACAN, Jacques.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>: tradu\u00e7\u00e3o Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 197 &#8211; 214.<\/h6>\n<h6>SELDES, Ricardo. O Campo Freudiano e a urg\u00eancia subjetiva: uma proposta de trabalho. In: VIEIRA, Marcus Andr\u00e9 (Ed.). Urg\u00eancia sem emerg\u00eancia?. Rio de Janeiro: Subversos, 2008. p.100-108.<\/h6>\n<h6>SELDES, Ricardo Daniel.\u00a0<strong>La urgencia dicha<\/strong>. 1\u00b0 ed. ed. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, 2019. 130 p.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Chaves de Barros Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) Na enchente de 22, a maior de todas as enchentes do Pantanal, o canoeiro Apuleio vagou tr\u00eas dias e tr\u00eas noites por cima das \u00e1guas, sem comer sem dormir \u2014 e teve um del\u00edrio fr\u00e1sico. A est\u00f3rea aconteceu que um dia, remexendo pap\u00e9is&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2222","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2222"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2222\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2223,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2222\/revisions\/2223"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2222"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}