{"id":2224,"date":"2023-12-20T14:50:50","date_gmt":"2023-12-20T17:50:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2224"},"modified":"2023-12-20T14:50:50","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:50","slug":"do-disturbio-ao-parasitismo-da-linguagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/do-disturbio-ao-parasitismo-da-linguagem\/","title":{"rendered":"Do dist\u00farbio ao parasitismo da linguagem"},"content":{"rendered":"<h6>Margaret Pires do Couto<br \/>\n<em>Aderente da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP.<br \/>\n<\/em><em>Participante dos N\u00facleos de Pesquisa em Psican\u00e1lise com<br \/>\nCrian\u00e7as Perer\u00ea\/MG e Carrossel\/BA<\/em><\/h6>\n<blockquote><p>La lengua, cualquiera sea, es una obscenidade.<br \/>\n(Lacan, Semin\u00e1rio 24, li\u00e7\u00e3o de 19 de abril de 1977)<\/p><\/blockquote>\n<p>Na cl\u00ednica recebemos cotidianamente crian\u00e7as com alguma perturba\u00e7\u00e3o na linguagem e na fala: atrasos, gagueiras, falas desconexas, ecolalias etc.\u00a0 A aus\u00eancia de linguagem ou dificuldade com a mesma abrange um vasto campo cl\u00ednico, sendo o autismo o mais evidente.<\/p>\n<p>Entretanto, o que todos esses quadros nos ensinam \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nada de natural na linguagem ou em falar e estabelecer com o Outro um di\u00e1logo. A linguagem \u00e9 o \u201chabitat\u201d do ser falante, por\u00e9m esse \u201chabitat\u201d \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, imagin\u00e1ria e real produto de diversos enla\u00e7amentos singulares. (Bayon, 2020, p.48)<\/p>\n<p>Em seu texto \u201cA linguagem como dist\u00farbio do real\u201d Miquel Bassols (2013), nos prop\u00f5e uma passagem dos \u201cdist\u00farbios de linguagem\u201d para se considerar a linguagem como um dist\u00farbio. Os dist\u00farbios de linguagem tiveram uma fun\u00e7\u00e3o de b\u00fassola na orienta\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica da psicose. Lacan distinguiu os fen\u00f4menos de c\u00f3digo dos fen\u00f4menos de mensagem e isolou o ponto comum entre eles como sendo a irrup\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a do significante no real.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, foi a experi\u00eancia de escrita de James Joyce que mostrou a Lacan que n\u00e3o existem dist\u00farbios de linguagem, mas que a pr\u00f3pria linguagem \u00e9 um dist\u00farbio e que com ela se pode fazer, no melhor dos casos, um sinthoma (Bassols, 2013). Revelou-se assim que a linguagem \u00e9 uma esp\u00e9cie de doen\u00e7a, um v\u00edrus que faz intrus\u00e3o no corpo.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as psic\u00f3ticas, bem como as autistas que se protegem do verbo, s\u00e3o as que nos permitem melhor apreender a linguagem como um dist\u00farbio, uma perturba\u00e7\u00e3o, um parasita. \u00c9 a linguagem que nos d\u00e1 acesso ao mais singular de cada falasser.<\/p>\n<p><strong>Falar: um acontecimento de corpo\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Laurent em seu livro \u201cA batalha do autismo\u201d (2014), busca elucidar as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade de emerg\u00eancia da fala. Para ele, falar n\u00e3o \u00e9 um ato cognitivo, mas uma extra\u00e7\u00e3o do real, um acontecimento de corpo. Falar \u00e9 extrair alguma coisa do corpo, \u00e9 consentir com uma primeira separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com Pascale Fari (2022) o encontro do corpo com a linguagem se d\u00e1 por meio de um traumatismo que deixa marcas, ou seja, nosso corpo sofreu as incid\u00eancias do encontro com a l\u00edngua que falou de n\u00f3s, com a l\u00edngua que nos falou. Esse encontro imemorial e m\u00edtico, constitui o traumatismo fundamental da subjetividade.\u00a0 Esses efeitos no corpo representam as fixa\u00e7\u00f5es de gozo, peda\u00e7os de real que escapam \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante e \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. O encontro com o Outro da linguagem produz um trauma no corpo e a cada vez que falamos atualizamos esse traumatismo. Trata-se assim, dos efeitos de lal\u00edngua no corpo. Lal\u00edngua encarna esse n\u00facleo imposs\u00edvel de compartilhar que constitui nosso ponto de inser\u00e7\u00e3o e de exclus\u00e3o com respeito \u00e0 comunidade humana. \u00c9 com a lal\u00edngua e contra ela, ou seja, na tentativa dela se separar que nos inscrevemos no mundo. Ela \u00e9, desse modo, nosso transtorno maior da linguagem.<\/p>\n<p>Falar \u00e9, portanto, tentar acomodar um espa\u00e7o para seu dizer na reitera\u00e7\u00e3o sem fim dessas marcas produzidas pela l\u00edngua. Nesse sentido, cada tomada de palavra \u00e9 um acontecimento de corpo que revela nossa rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com a l\u00edngua, como nos alojamos e quais artif\u00edcios utilizamos para nela habitarmos. Falar envolve o corpo e os afetos. Ao tomar a palavra o falasser indica como foi afetado por ela, o que o animou, o que o perturbou etc.<\/p>\n<p>Nesse sentido, para o sujeito autista toda fala \u00e9 capaz de provocar terror. Para ele, o significante tem um impacto sem media\u00e7\u00e3o sobre seu corpo, seu efeito \u00e9 uma repercuss\u00e3o maci\u00e7a e imediata. As mensagens espont\u00e2neas que o sujeito autista pode pronunciar de forma abrupta, de maneira repetitiva em um contexto de grande ang\u00fastia, s\u00e3o emiss\u00f5es do corpo, peda\u00e7os de gozo, uma esp\u00e9cie de automutila\u00e7\u00e3o. \u201cO sujeito \u00e0s emite como se estivesse perdendo um peda\u00e7o de si mesmo, suas fezes, um jato de saliva, um berro, sangue\u201d (Laurent, 2014, p. 107).<\/p>\n<p><strong>O parasitismo da linguagem<\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do sujeito autista ou psic\u00f3tico, todo ser falante est\u00e1 afetado pelo car\u00e1ter parasita de lal\u00edngua e padece a desordem que ela introduz.<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o parasit\u00e1ria da linguagem torna-se evidente em diferentes fen\u00f4menos cl\u00ednicos. Na neurose encontramos, por exemplo, as rumina\u00e7\u00f5es obsessivas, as lembran\u00e7as intrusivas e recorrentes que invadem o paciente, ideias fixas, involunt\u00e1rias dif\u00edceis de serem interrompidas e que parecem ter vida pr\u00f3pria. O sujeito psic\u00f3tico, por sua vez, nos ensina com o fen\u00f4meno do automatismo mental, que todos somos v\u00edtimas da linguagem, ou seja, habitados por ela.<\/p>\n<p>Desse modo, o que o ensino de Lacan veio mais tarde demonstrar \u00e9 que o neur\u00f3tico, tanto quanto o psic\u00f3tico, \u00e9 habitado pela linguagem, \u00e9 falado pelo Outro. Trata-se de uma l\u00edngua primeira, peda\u00e7o de l\u00edngua fora de sentido que permanece como parasita no corpo, fazendo marca (Miller, 1996). <em>Isso fala, <\/em>acentuando o <em>automaton<\/em> da linguagem, que opera por si mesma, impondo-se ao ser falante.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 24, li\u00e7\u00e3o de 08 de mar\u00e7o de 1977, Lacan relata uma passagem com seu neto que ajuda a esclarecer isso.<\/p>\n<blockquote><p>Eu tenho um neto que se chama Luc, cujos pais est\u00e3o aqui. Ele disse umas coisas completamente convenientes \u2013 disse que enfim, as palavras que ele n\u00e3o compreendia, sendo crian\u00e7a, ele se esfor\u00e7ava para diz\u00ea-las e ele deduziu que foi isso que lhe fez inchar a cabe\u00e7a. (&#8230;) Desta maneira que ele definiu t\u00e3o o inconsciente, pois \u00e9 disso que se trata, a saber que as palavras lhe entram na cabe\u00e7a. Ele evidentemente est\u00e1 equivocado ao deduzir que ao mesmo tempo \u00e9 por isso que tem uma grande cabe\u00e7a, o que em suma \u00e9 uma teoria n\u00e3o muito inteligente, por\u00e9m pertinente, no sentido que est\u00e1 motivada. H\u00e1 algo que lhe d\u00e1 o sentimento de que falar \u00e9 parasit\u00e1rio (LACAN, 1977 p. 32).<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Ao analisar as epifanias na obra de James Joyce, Lacan afirma que elas apresentam a estrutura de um fen\u00f4meno elementar, o fen\u00f4meno da palavra imposta. E nos diz:<\/p>\n<blockquote><p>Como \u00e9 que todos n\u00f3s n\u00e3o sentimos que as palavras das quais dependemos s\u00e3o, de algum modo impostas? \u00c9 justamente por isso que o que chamamos de doente vai algumas vezes mais longe do que o que designamos como um homem saud\u00e1vel. A quest\u00e3o \u00e9 antes saber por que um homem dito normal n\u00e3o percebe que a fala \u00e9 um parasita, que\u00a0a fala \u00e9 uma excresc\u00eancia, que a fala \u00e9 a forma de c\u00e2ncer pela qual o ser humano \u00e9 afligido. Como pode haver quem chegue inclusive a senti-lo? \u00c9 certo que Joyce nos d\u00e1 uma pequena suspeita disso \u201c (LACAN, 1975-1976\/2007, p.92).<\/p><\/blockquote>\n<p>A linguagem, o equ\u00edvoco significante, introduz o mal-entendido e se torna desse modo um entrave \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Trata-se de um dist\u00farbio incur\u00e1vel para o ser falante.<\/p>\n<p>Desse modo, o que Lacan demostrou \u00e9 que se trata de algo comum ao falasser: \u201ctodo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9 delirante\u201d, ou seja, diante dessa dimens\u00e3o real da linguagem todos precisam produzir algum tipo de defesa.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>BASSOLS, Miquel. A linguagem como dist\u00farbio do real. In: Almanaque on line n. 13, 2013. Dispon\u00edvel em\u00a0: https:\/\/www.institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-linguagem-como-disturbio-do-real<\/h6>\n<h6>BAYON, Patricio \u00c1lvarez. El autismo, entre lalengua y la letra. Olivos: Grama Ediciones, 2020.<\/h6>\n<h6>FARI, Pascale. Conferencia Internacional: Hablar es un trastorno del lenguaje. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qz4jD-2ONDw\u00a0 25 de out. de 2022<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. [1975-1976] O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. [1976-1977] O semin\u00e1rio, livro 24:\u00a0 Lo no sabido que sabe de la una-equivocaci\u00f3n se ampara en la morra. (In\u00e9dito)<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9ric. A batalha do autismo. Da cl\u00ednica \u00e0 pol\u00edtica. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Cl\u00ednica Ir\u00f4nica. In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.<\/h6>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Tradu\u00e7\u00e3o livre do autor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margaret Pires do Couto Aderente da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP. Participante dos N\u00facleos de Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as Perer\u00ea\/MG e Carrossel\/BA La lengua, cualquiera sea, es una obscenidade. (Lacan, Semin\u00e1rio 24, li\u00e7\u00e3o de 19 de abril de 1977) Na cl\u00ednica recebemos cotidianamente crian\u00e7as com alguma perturba\u00e7\u00e3o na linguagem e na fala: atrasos, gagueiras,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2224","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2224","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2224"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2224\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2251,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2224\/revisions\/2251"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2224"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2224"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2224"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2224"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}