{"id":2226,"date":"2023-12-20T14:50:56","date_gmt":"2023-12-20T17:50:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2226"},"modified":"2023-12-20T14:50:56","modified_gmt":"2023-12-20T17:50:56","slug":"o-corpo-em-psicanalise-a-luz-da-nocao-de-acontecimento-de-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-corpo-em-psicanalise-a-luz-da-nocao-de-acontecimento-de-corpo\/","title":{"rendered":"O corpo em psican\u00e1lise, \u00e0 luz da no\u00e7\u00e3o de acontecimento de corpo"},"content":{"rendered":"<h6>Fernanda Vasconcelos<br \/>\n<em>Aluna do curso de Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL &#8211; IPB)<\/em><\/h6>\n<p>Se a an\u00e1lise opera com a palavra, quais as rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre palavra e corpo? E de que se trata a dimens\u00e3o da palavra enganchada no corpo? Aos que atravessam uma an\u00e1lise, \u00e9 poss\u00edvel se darem conta dos efeitos desse engendramento. N\u00e3o raro as pessoas saem das sess\u00f5es emocionadas, comovidas, com mal-estares, enfim, perturbadas em algum modo no corpo, o que aponta que o tratamento opera n\u00e3o apenas a n\u00edvel do sentido, do que \u00e9 falado, mas tamb\u00e9m a n\u00edvel de gozo e corpo. Em rela\u00e7\u00e3o ao gozo, a an\u00e1lise pode ser lida como uma experi\u00eancia de corpo (SALMAN, 2013). Para Miller (2020), a conex\u00e3o do sujeito com o corpo imp\u00f5e sua presen\u00e7a na an\u00e1lise, na medida em que o este \u00e9 lugar de gozo. E de que, ent\u00e3o, para a psican\u00e1lise, \u00e9 feito um corpo?<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 23, Lacan (1975-1976) afirma que o homem tem um corpo: \u201cDizer <em>seu<\/em> j\u00e1 \u00e9 dizer que ele o possui, como se fosse, naturalmente, um m\u00f3vel. Isso nada tem a ver com qualquer coisa que permita definir estritamente o sujeito.\u201d (p. 150) Ou seja, n\u00e3o se \u00e9 o corpo. De acordo com Salman (2013), a express\u00e3o ter um corpo remete a uma rela\u00e7\u00e3o de certo alheamento com este, um sentimento de estranheza que se tem do corpo pr\u00f3prio. Na perspectiva de ter um corpo, trata-se do <em>falasser<\/em>, da <em>falta-a-ser<\/em>, uma vez que ao ser falta, justamente, o ser (MILLER, 2016).<\/p>\n<p>O corpo \u00e9 algo que nunca se identifica completamente com o ego (DESSAL, 2013). Em seus prim\u00f3rdios \u00e9 pura subst\u00e2ncia gozante, \u00e9 um corpo que goza de si mesmo, aquilo que Freud chamava de autoerotismo. Miller (2016) aponta que gozar de si mesmo \u00e9 o estatuto de todo corpo vivo e que o que distingue o corpo do <em>falasser<\/em> \u00e9 que esse gozo sofre a incid\u00eancia da fala. No encontro do corpo com o significante, este \u00faltimo, que faz vibrar o corpo atrav\u00e9s de sua sonoridade e n\u00e3o do seu significado, deixa de ser significante e passa a existir como gozo, o gozo Um. Trata-se de duas materialidades que se encontram: a materialidade sonora do significante, sem sentido, e a materialidade do corpo biol\u00f3gico. Desse encontro se faz o corpo humano. Para Horne (2022): \u201cNesse acontecimento de corpo, inaugural, o corpo biol\u00f3gico vivo torna-se vida humana.\u201d (p. 37)<\/p>\n<p>Outro conceito em uso na psican\u00e1lise se ressalta, o de acontecimento de corpo. De acordo com Salman (2013), a defini\u00e7\u00e3o conceitual do termo acontecimento se trata de um fato que sucede em um dado momento. O acontecimento sempre se caracteriza por uma ruptura ou transi\u00e7\u00e3o no curso dos eventos e por seu car\u00e1ter ef\u00eamero, ainda que tenha repercuss\u00f5es no futuro. \u00c9 algo atrav\u00e9s do qual pode-se demarcar um antes e um depois e tem um car\u00e1ter pouco comum, excepcional. No acontecimento de corpo, se trata sempre de acontecimentos discursivos que deixam rastros no corpo, que o perturbam e produzem nele sintoma.<\/p>\n<p>Para Miller (2020) os acontecimentos de corpo possuem sentido de gozo, enquanto as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente possuem sentido de desejo. Aponta-se aqui para a distin\u00e7\u00e3o entre linguagem e lal\u00edngua, destacando-se a import\u00e2ncia do percurso de uma an\u00e1lise se haver com o n\u00edvel de lal\u00edngua e com os afetos singulares que produzem no corpo. Lal\u00edngua serve para muitas coisas diferentes que a comunica\u00e7\u00e3o, tem um uso que n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o da rela\u00e7\u00e3o com o Outro, opera produzindo afetos que constituem acontecimentos pr\u00f3prios do corpo de cada um. Nessa dire\u00e7\u00e3o, o gozo \u00e9 fundamentalmente Uno (SALMAN, 2013).<\/p>\n<p>Alvarez (2022) refere que, para que haja S1, o um entre outros, ele deve ser extra\u00eddo de lal\u00edngua. A partir do enxame de S1 de lal\u00edngua, um deles se destaca e localiza uma diferen\u00e7a nesta multiplicidade de uns. \u00c9 um certo Um distinto que se extrai dessa multiplicidade. Esse Um se escreve enquanto letra, algo da conting\u00eancia que vem escrever no corpo uma letra. Se lal\u00edngua \u00e9 a entrada do gozo no corpo, de maneira deslocalizada, a letra, por sua vez, implica uma localiza\u00e7\u00e3o desse gozo atrav\u00e9s do sintoma. O sintoma, para Lacan (1975) \u00e9 um evento corporal. Essa \u00e9 a dimens\u00e3o do sintoma enquanto uma escrita de gozo. Um S1 se recorta do enxame, se escrevendo como sintoma, como aquele destinado a se repetir.<\/p>\n<p>O gozo em quest\u00e3o no sintoma \u00e9 produzido pelo significante. \u00c9 a presen\u00e7a desse gozo no sintoma que atesta que houve um acontecimento (MILLER, 2016). Assim, o Um do acontecimento de corpo, desse momento inaugural do encontro entre o corpo e o significante, adquire a fun\u00e7\u00e3o de letra, que \u00e9 um modo de gozo, na medida em que se repete. A letra \u00e9 um tratamento do gozo de lal\u00edngua. Lal\u00edngua \u00e9 o in\u00edcio do gozo, enquanto letra \u00e9 a sua marca, o recorte de um modo singular de gozo (ALVAREZ, 2022).<\/p>\n<p>O trauma \u00e9 o elemento contingente que marca o corpo, que escreve no corpo a letra de gozo e que fura o real, ao mesmo tempo. O acontecimento que se produz nesse traumatismo (<em>troumatisme<\/em>) \u00e9 a inscri\u00e7\u00e3o da letra e de sua borda. Lacan (1971) diz, em <em>Lituraterra<\/em>, que a letra desenha a borda no furo do saber. Tal inscri\u00e7\u00e3o instaura a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o do sintoma, que carrega consigo o gozo deste acontecimento de corpo. A inscri\u00e7\u00e3o da letra, a marca que se repete, \u00e9 um acontecimento de corpo. Esse corpo \u00e9 feito de peda\u00e7os de real, produzidos pelo acontecimento de corpo, que \u00e9 a raiz do imagin\u00e1rio. Na medida em que ainda n\u00e3o se produziu a entrada na linguagem, o corpo \u00e9 puro efeito do acontecimento, sem a unifica\u00e7\u00e3o do est\u00e1dio do espelho (ALVAREZ, 2022).<\/p>\n<p>Em uma neurose, os Uns que marcam o corpo de forma contingente ficam escritos como letras de modo inelimin\u00e1vel. Eles s\u00e3o a base sobre a qual se constr\u00f3i a rela\u00e7\u00e3o com a linguagem, o corpo e o gozo de um sujeito. A fantasia tamb\u00e9m se d\u00e1 sobre essa constru\u00e7\u00e3o, sendo um recobrimento desses S1. O percurso de uma an\u00e1lise segue o caminho da cadeia significante, para a constru\u00e7\u00e3o da fantasia, sua travessia, e, depois, para localizar as letras que determinaram a repeti\u00e7\u00e3o dos Uns do sujeito. Alvarez (2022) afirma: \u201cO caminho de uma an\u00e1lise deve desarticular a rela\u00e7\u00e3o entre S1-S2, interrompendo a repeti\u00e7\u00e3o, para poder isolar o Um sozinho, como o modo de gozo invariante que est\u00e1 presente na itera\u00e7\u00e3o do <em>sinthoma<\/em>.\u201d (p. 36).<\/p>\n<p>Segundo Dessal (2013), a psican\u00e1lise n\u00e3o prop\u00f5e que o sujeito encontre uma plena harmonia com seu corpo, pois considera que essa ideia de unidade \u00e9 uma fantasia que ignora a incompatibilidade do sujeito consigo mesmo, a divis\u00e3o incur\u00e1vel causada pelo trauma da linguagem. Os significantes primordiais que aparecem desde o in\u00edcio da an\u00e1lise v\u00e3o apontando para a repeti\u00e7\u00e3o em que esse sujeito se localiza. O sujeito busca uma an\u00e1lise, pois sofre de coisas que lhe foram ditas, sofre das palavras do Outro. Os encontros originais com as palavras escrevem marcas no corpo e instalam um modo de gozar que o deixam enganchado em uma repeti\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise permite isolar esses encontros iniciais que fazem escritura, os S1s a partir dos quais a neurose se ordena e torna leg\u00edvel o programa de gozo. Ainda que n\u00e3o pare\u00e7a haver muitas chances em sair desse programa de gozo, mas h\u00e1 como amarrar os termos de outra forma, uma nova amarra\u00e7\u00e3o que escreva outro modo de viver (SALMAN, 2013).<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica do Um a transfer\u00eancia \u00e9 ao real e se abre quando o analista, no in\u00edcio da an\u00e1lise, se deixa atrair por um ponto de real, uma raiz de gozo que se inscreve como <em>sinthoma<\/em> no exato momento do acontecimento de corpo (HORNE, 2022). O psicanalista est\u00e1 envolto pelas criaturas da fala, diz Miller (2016), logo, n\u00e3o pode se eximir de experimentar a vertigem do ser. As produ\u00e7\u00f5es discursivas giram em torno do que o sujeito diz ser, enquanto que o analista deve mirar em outro lugar, justo onde o sujeito n\u00e3o \u00e9. Ler o sintoma \u00e9 priv\u00e1-lo de sentido, \u00e9 n\u00e3o se ater \u00e0s significa\u00e7\u00f5es do discurso.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>ALVAREZ, P. Tr\u00eas vers\u00f5es do Um e acontecimento de corpo. <em>Revista Curinga 53\/54<\/em>, Belo Horizonte: EBP-MG, p. 30-39, 2022.<\/h6>\n<h6>DESSAL, G. Nas psicoses os \u00f3rg\u00e3os falam sozinhos. <em>Agente revista de psican\u00e1lise<\/em>, n 15, Salvador: EBP-BA, 2013.<\/h6>\n<h6>HORNE, B. O Mist\u00e9rio. In: <em>O Campo Uniano<\/em>, 1ed., Goi\u00e2nia: Editora Ares, 2022.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971) Lituraterre. In: <em>Outros Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975) Joyce, o sintoma. In: <em>Outros Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975\/1976) O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. Ler um sintoma.\u00a0<em>Lacan XXI &#8211; Revista FAPOL online<\/em>, n. 1, 2016.<\/h6>\n<h6>SALMAN, S. O corpo na experi\u00eancia da an\u00e1lise. <em>Agente revista de psican\u00e1lise<\/em>, n 15, Salvador: EBP-BA, 2013.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda Vasconcelos Aluna do curso de Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL &#8211; IPB) Se a an\u00e1lise opera com a palavra, quais as rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre palavra e corpo? E de que se trata a dimens\u00e3o da palavra enganchada no corpo? 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