{"id":2228,"date":"2023-12-20T14:51:02","date_gmt":"2023-12-20T17:51:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2228"},"modified":"2023-12-20T14:51:02","modified_gmt":"2023-12-20T17:51:02","slug":"o-desejo-ainda-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-desejo-ainda-hoje\/","title":{"rendered":"O desejo, ainda hoje?"},"content":{"rendered":"<h6>Glauco de Carvalho Morais<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>A sociedade contempor\u00e2nea, colapsada pelo imperativo categ\u00f3rico Goza!, reflexo do decl\u00ednio de norte f\u00e1lico que regula o curso do desejo, compreende o homem hipermoderno como desbussolado, regido pela satisfa\u00e7\u00e3o pulsional aos objetos de consumo que, em busca de um gozo cada vez mais autoer\u00f3tico e indiferente aos pr\u00f3prios objetos, marca a evanesc\u00eancia do desejo e suas impossibilidades de dar corpo a ele.<\/p>\n<p>O axioma: \u201cn\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (LACAN, 1972-73\/2003, p.23), parte da conjectura que a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e9 faltante, que a incompletude \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o estrutural. Antecedendo esse axioma e seguindo para uma articula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel perante essa condi\u00e7\u00e3o do sujeito, Lacan estabeleceu quatro discursos &#8211; modaliz\u00e1veis em suas disposi\u00e7\u00f5es &#8211; que organizariam as rela\u00e7\u00f5es entre sujeito, Outro, saber e objeto. O princ\u00edpio de todo discurso ou la\u00e7o social \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o do campo do sujeito com o campo do Outro, no qual se faz presente a falta, a incompletude e consequentemente o desejo.<\/p>\n<p>O desejo, que na perspectiva lacaniana do primeiro ensino est\u00e1 relacionado \u00e0 falta, nasce da fenda que se abre entre o prazer que se busca e o que se encontra. Diferentemente da necessidade que encontra satisfa\u00e7\u00e3o no objeto concreto e da demanda que se articula em palavras al\u00e9m do objeto, o desejo \u00e9 irredut\u00edvel \u00e0 demanda, ele n\u00e3o se articula em palavras. O desejo \u00e9 uma co-extens\u00e3o da falta, s\u00f3 se deseja porque n\u00e3o se tem\u2026<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 17 \u2013 O avesso da psican\u00e1lise, Lacan (1969-70\/1992) menciona uma \u201cmuta\u00e7\u00e3o capital [&#8230;] que confere ao Discurso do Mestre seu estilo capitalista\u201d. Uma subvers\u00e3o no matema entre o significante e o sujeito, ser\u00e1 suficiente para constituir o que ele denominar\u00e1, em Televis\u00e3o (LACAN, 1974\/2003, p.48) Discurso do Capitalista \u2013 nesse discurso, o sujeito n\u00e3o se dirige a um Outro &#8211; como nos demais &#8211; mas ao objeto. Nessa nova forma de la\u00e7o, a rela\u00e7\u00e3o com o objeto \u00e9 privilegiada e promissora, pois extinguiria o mal-estar e faria existir a hipot\u00e9tica completude &#8211; a rela\u00e7\u00e3o sexual. No matema observamos que os objetos mais-de gozar <em>(a)<\/em> v\u00eam no lugar da produ\u00e7\u00e3o e, com um fr\u00e1gil anteparo da l\u00f3gica significante (S1 -&gt; S2), deixa o sujeito \u00e0 merc\u00ea dos objetos ($ &lt;- a). Isso indica que todo discurso que \u00e9 conectado no capitalismo, deixa de lado as coisas da falta, do amor.<\/p>\n<p>O gozo \u00e9 do corpo pr\u00f3prio, o desejo \u00e9 do sujeito &#8211; efeito da articula\u00e7\u00e3o significante resultante da submiss\u00e3o \u00e0 linguagem e s\u00f3 pode aparecer metonimicamente, visto que n\u00e3o tem objeto pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O n\u00e3o consentimento \u00e0 falta-a-ser, a busca constante pela completude &#8211; que \u00e9 sempre hipot\u00e9tica &#8211; for\u00e7a o <em>Parl\u00eatre<\/em> a um dever que consiste em obedecer \u00e0 exig\u00eancia superegoica: \u201cGoza!\u201d, comum no contempor\u00e2neo &#8211; reflexo dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e cient\u00edficos &#8211; que possibilita o consumo desenfreado e pode ser lido como um empuxo ao gozo &#8211; com ou sem o Outro.<\/p>\n<p>Se por um lado, com a a\u00e7\u00e3o da linguagem sobre o corpo, da entrada no campo do Outro, perde-se o acesso direto ao gozo, responder ao imperativo categ\u00f3rico: Goza!, de forma incessante e desenfreada \u00e9 uma das tentativas de acesso a esse estado prim\u00e1rio e inacess\u00edvel; por outro lado, ser falante exige o desejo para constituir-se, consentir \u00e0 falta-a-ser&#8230;<\/p>\n<p>Como o paradoxo na hist\u00f3ria de Lewis Carroll (1865\/1998), quando Alice perguntou ao Gato de Cheshire se ele poderia dizer qual caminho ela deveria tomar; frente a falta de clareza de Alice para onde gostaria de ir, o gato disse: \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o sabe para onde ir, qualquer caminho serve!\u201d. Ao que modulamos como exemplo \u00e9 a implica\u00e7\u00e3o numa dial\u00e9tica, onde: ou dever\u00e1 adentrar a l\u00f3gica da injun\u00e7\u00e3o supereg\u00f3ica, ou a l\u00f3gica do desejo; nesta \u00faltima, quando h\u00e1 resson\u00e2ncias do dito sob transfer\u00eancia, instaura-se a\u00ed um poss\u00edvel corte que pode produzir uma nova dire\u00e7\u00e3o a partir dos caminhos do desejo aut\u00eantico, singular.<\/p>\n<p>As tentativas do sujeito contempor\u00e2neo em estreitar seus la\u00e7os com o objeto, retirando da cena o Outro s\u00e3o in\u00fameras, mas o gozo sem o Outro \u00e9 devastador e mort\u00edfero, h\u00e1 que se ter desejo, isto \u00e9, o furo &#8211; cavado pelo desejo do analista.<\/p>\n<p>Enquanto localizado no corpo, o gozo s\u00f3 poder\u00e1 encontrar o desejo se passar pelo campo do Outro, j\u00e1 que: \u201cO que vem em supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 precisamente o amor,\u201d (LACAN, 1972-73\/2003, p.62) o amor de transfer\u00eancia, o mesmo amor que permite ao gozo, condescender ao desejo (LACAN, 1962-63\/2005, p.197).<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>CARROLL, L. (1865). Alice no pa\u00eds das maravilhas. Porto Alegre: L&amp;PM, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-1963). O Semin\u00e1rio, livro 10 \u2013 A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970).\u00a0O semin\u00e1rio &#8211; Livro 17 \u2013 O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973).\u00a0O semin\u00e1rio &#8211; Livro 20 \u2013 Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1974). \u201cTelevis\u00e3o\u201d. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glauco de Carvalho Morais Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) A sociedade contempor\u00e2nea, colapsada pelo imperativo categ\u00f3rico Goza!, reflexo do decl\u00ednio de norte f\u00e1lico que regula o curso do desejo, compreende o homem hipermoderno como desbussolado, regido pela satisfa\u00e7\u00e3o pulsional aos objetos de consumo que, em busca de um gozo cada vez mais&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2228","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2228"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2228\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2229,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2228\/revisions\/2229"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2228"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}