{"id":2230,"date":"2023-12-20T14:51:07","date_gmt":"2023-12-20T17:51:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2230"},"modified":"2023-12-20T14:51:07","modified_gmt":"2023-12-20T17:51:07","slug":"o-que-faz-o-analista-com-o-amor-que-en-laca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-que-faz-o-analista-com-o-amor-que-en-laca\/","title":{"rendered":"O que faz o analista com o amor que en-la\u00e7a?"},"content":{"rendered":"<h6>Maya Rodrigues<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>No texto \u201c<em>A Dire\u00e7\u00e3o do Tratamento e os Princ\u00edpios do seu Poder\u201d <\/em>(Lacan, 1954)<em>, <\/em>Lacan critica os p\u00f3s-freudianos sobre a exig\u00eancia do analisante identificar-se ao analista no final da an\u00e1lise. Esta posi\u00e7\u00e3o a meu ver convoca os analistas \u00e0 pol\u00edtica do falta-a-ser.\u00a0 \u00c9 sabido que \u201c<em>no princ\u00edpio era o amor, isto \u00e9, no come\u00e7o da experi\u00eancia anal\u00edtica foi o amor\u201d <\/em>(Lacan,1960\/61, p.12) e que o analista exerce um fasc\u00ednio sobre o analisante. Para a psican\u00e1lise, esse encontro \u00e9 movido pela transfer\u00eancia na qual ocorre uma \u201ceconomia no processo anal\u00edtico, h\u00e1 um capital que gira: o analisante paga sua cota com seu falar livremente e o analista paga a sua cota com sua pessoa e com seu dizer, na medida em que interpreta\u201d. Entretanto, essa cr\u00edtica de Lacan abre a seguinte quest\u00e3o: qual o lugar das identifica\u00e7\u00f5es neste cen\u00e1rio ps\u00edquico amoroso onde o analista \u00e9 colocado como o amado?<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es trazidas a an\u00e1lise pelo analisante, Freud, em suas primeiras inser\u00e7\u00f5es ao tema, relaciona-as aos mecanismos da afetividade. No primeiro momento da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, a identifica\u00e7\u00e3o ocorria a partir da incorpora\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os de outros numa din\u00e2mica afetiva e com o avan\u00e7o de suas pesquisas novos elementos surgiram. Em \u201c<em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu<\/em>\u201d(FREUD, 1920\/1923), aparecem conceituadas tr\u00eas formas de identifica\u00e7\u00e3o: a pr\u00e9-ed\u00edpica com incorpora\u00e7\u00e3o do objeto, denominada canibal ou fase oral; a identifica\u00e7\u00e3o ao sintoma da pessoa amada que tem como exemplo a tosse de Dora (aqui Lacan rearticula esse modo como primordial na no\u00e7\u00e3o de tra\u00e7o un\u00e1rio); identifica\u00e7\u00e3o ao ideal do eu ao colocar-se no lugar do Outro, produzindo identifica\u00e7\u00f5es coletivas, tais quais ocorre no cerne da religi\u00e3o, pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Ao retomar essas tr\u00eas vertentes, bem como o conceito freudiano de <em>Einziger Zug, <\/em>Lacan afirma que os significantes s\u00e3o acolhidos a partir de uma identifica\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria com o <em>tra\u00e7o un\u00e1rio<\/em>. O tra\u00e7o un\u00e1rio \u00e9 pensado como sendo a forma mais rudimentar do significante, o suporte do significante, o tra\u00e7o onde firma a identidade do significante consigo mesmo. Como dito pelo pr\u00f3prio Lacan,<\/p>\n<blockquote><p><em>(&#8230;) tra\u00e7o un\u00e1rio \u00e9 o que lhes digo, a saber, a diferen\u00e7a, \u00e9 a diferen\u00e7a n\u00e3o somente que suporta, mas que pressup\u00f5e a subsist\u00eancia ao lado dele, de 1+1+1&#8230; (um, mais um, e ainda um) o mais marcando ali apenas para marcar a subsist\u00eancia radical da diferen\u00e7a<\/em>. (LACAN, 2003, p. 176)<\/p><\/blockquote>\n<p>O tra\u00e7o un\u00e1rio, portanto, \u00e9 o que permite a forma\u00e7\u00e3o da cadeia significante a partir da diferen\u00e7a, \u00e9 um elemento estruturante.\u00a0 Os significantes s\u00e3o acolhidos no vazio do tra\u00e7o un\u00e1rio, no vazio da diferen\u00e7a radical, e atuam de forma sincr\u00f4nica e simult\u00e2nea na elabora\u00e7\u00e3o daquilo que se desvela numa cadeia significante. A partir dessas interlocu\u00e7\u00f5es, trata-se de interrogar qual a rela\u00e7\u00e3o do tra\u00e7o un\u00e1rio com aquilo que faz la\u00e7o entre um analista e um analisante?<\/p>\n<p>O que faz la\u00e7o, desde sua descoberta por Freud, \u00e9 a transfer\u00eancia. O sujeito em an\u00e1lise chega \u00e0 \u201ccena amorosa\u201d com seu Eu, lugar de identifica\u00e7\u00f5es, com suas fantasias, repeti\u00e7\u00f5es, fixa\u00e7\u00f5es libidinais, resist\u00eancias, demandas de amor, todos tecidos com a mesma subst\u00e2ncia: a transfer\u00eancia. Do lado do analista, por outro lado, espera-se uma oferta de escuta com seu falta-a-ser, lugar de castra\u00e7\u00e3o, o que requer estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas para exercer com neutralidade o manejo da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Desde o primeiro caso cl\u00ednico Anna O., o amor sempre esteve presente na psican\u00e1lise. Atendida inicialmente pelo m\u00e9dico Joseph Breuer foi encaminhada a Freud, em vista da impossibilidade daquele m\u00e9dico suportar o tratamento em raz\u00e3o do amor a ele \u201cendere\u00e7ado\u201d.\u00a0 Assustado abandona o caso, despertando em Freud o interesse pelo tema, o que faz descobrir adiante em sua cl\u00ednica, o amor transferencial. N\u00e3o sem raz\u00e3o, Freud escreve um texto intitulado \u201cRecomenda\u00e7\u00f5es ao m\u00e9dico que exercem a psican\u00e1lise\u201d(FREUD,1912).<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia atravessa aquilo que nos sustenta enquanto analistas, enquanto lugar de permanente forma\u00e7\u00e3o: o la\u00e7o social. Nos textos \u201cA din\u00e2mica da transfer\u00eancia\u201d (FREUD,1912) e \u201cRecordar, repetir e elaborar\u201d (FREUD, 1914) a transfer\u00eancia \u00e9 estabelecida com a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o e com a resist\u00eancia, duas faces da mesma moeda. Para Freud, transfer\u00eancias s\u00e3o reedi\u00e7\u00f5es, reprodu\u00e7\u00f5es de afetos e experi\u00eancias infantis, vivenciadas com pessoas significativas da vida do sujeito, deslocadas para a pessoa do analista.<\/p>\n<p>Ao colocar uma lupa, observa-se nas entrelinhas enganadoras do discurso do analisante <em>Um<\/em> tra\u00e7o que se repete ao longo da sua hist\u00f3ria que o faz queixar-se. Portanto, ao procurar um analista credita a ele um saber sobre seu sofrimento que o atormenta, entretanto, \u00e9 pela via do inconsciente que a transfer\u00eancia ocorre, a partir desse tra\u00e7o. Ou seja, na an\u00e1lise o analista porta um significante que se identifica ao Outro do passado do sujeito. Encontra-se a\u00ed coagulado o que o sujeito espera do Outro a quem se dirige, evidenciando as marcas do significante mestre, enredado na cadeia dos significantes. \u00c9 neste devir que o analista atua, interpreta, interv\u00e9m, com sua pessoa, com seu quinh\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan (1954), entretanto, adverte que a sua atua\u00e7\u00e3o limita-se \u00e0 subjetividade do sujeito em an\u00e1lise e que embora o analista e analisante participem da transfer\u00eancia, n\u00e3o ocupam o mesmo lugar no processo, ao contr\u00e1rio. O analista deve ocupar o lugar de objeto <em>a<\/em>, causa de desejo. E no final de uma an\u00e1lise, diferente da proposta dos p\u00f3s-freudianos, o analisante h\u00e1 que identificar-se com seu <em>ser<\/em>, em suas idiossincrasias e esquisitices, e que a an\u00e1lise produz menos gozo, mais vida e capacidade de criar!<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o ao analista, portanto, n\u00e3o \u00e9 o referencial que se utiliza para falar do fim de an\u00e1lise. A interven\u00e7\u00e3o do analista visa a diferen\u00e7a absoluta enquanto singularidade do significante em cada sujeito. Lacan ao escrever em 1954 \u201c<em>A Dire\u00e7\u00e3o do Tratamento e os Princ\u00edpios do seu Poder<\/em> \u201c, deixa luz para os que andam na escurid\u00e3o e suas recomenda\u00e7\u00f5es, a meu ver, permanecem vigentes. Uma delas, \u00e9 que o analista n\u00e3o deve colocar-se como oferenda para o analisante e que seus sentimentos s\u00f3 t\u00eam um lugar nesse jogo: o de morto.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre o amor transferencial (Novas Recomenda\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise III) 1915\/1914. In.: __. O caso Shcreber, artigos sobre a t\u00e9cnica e outros trabalhos (1911-1913). RJ. Imago, 1996, p. 177-188. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol.12.<\/h6>\n<h6>__________. Recordar, repetir e elaborar. (Novas Recomenda\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise III) 1915\/1914. In.: __. O caso Shcreber, artigos sobre a t\u00e9cnica e outros trabalhos (1911-1913). RJ. Imago, 1996, p. 163-171. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol.12.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cDire\u00e7\u00e3o do Tratamento e os Princ\u00edpios de seu Poder\u201d. In Escritos. Ed Jorge Zahar, 1998, Rio de Janeiro, pg. 591-649<\/h6>\n<h6>_________ Primeiras Interven\u00e7\u00f5es sobre a quest\u00e3o das resist\u00eancias. In.: O Semin\u00e1rio 1: Os escritos t\u00e9cnicos de Freud. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, Zahar, RJ, 2009, pg. 15-30.<\/h6>\n<h6>_________ Semin\u00e1rio livro 9 &#8211; A identifica\u00e7\u00e3o. Jorge Zahar, 1961\/1962. Rio de Janeiro.<\/h6>\n<h6>\u00a0 APARICIO, S. Sob transfer\u00eancia, la\u00e7o e discurso anal\u00edtico.<em>\u00a0<\/em><em>Stylus (Rio J.)<\/em>\u00a0[online]. 2015, n.31, pp. 19-28. ISSN 1676-157X.<\/h6>\n<h6>ESTARMINO, A. Sobre identidade e identifica\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise: um estudo a partir do Semin\u00e1rio IX de Jacques Lacan. Revista do Departamento de Filosofia da Universidade Federal e da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos, Curitiba, vol.13, n\u00ba 3, p. 231-249, dezembro de 2016.<\/h6>\n<h6>FONTE, M.L.A. Amor, transfer\u00eancia e desejo. Trabalho apresentado na II Jornada Freud- lacaniana. Recife, 1997, publicado nos Anais da II Jornada Freud-Lacaniana. Recife, 1998.<\/h6>\n<h6>SALLES, A.C.T. Amor de transfer\u00eancia: o que resta no final da an\u00e1lise? Reverso. Belo Horizonte, ano 41, n\u00ba 77, p. 31-38, jun.2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maya Rodrigues Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) No texto \u201cA Dire\u00e7\u00e3o do Tratamento e os Princ\u00edpios do seu Poder\u201d (Lacan, 1954), Lacan critica os p\u00f3s-freudianos sobre a exig\u00eancia do analisante identificar-se ao analista no final da an\u00e1lise. 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