{"id":2234,"date":"2023-12-20T14:51:25","date_gmt":"2023-12-20T17:51:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2234"},"modified":"2023-12-20T14:51:25","modified_gmt":"2023-12-20T17:51:25","slug":"o-desejo-do-analista-na-contemporaneidade-e-a-efervescencia-do-discurso-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-desejo-do-analista-na-contemporaneidade-e-a-efervescencia-do-discurso-da-ciencia\/","title":{"rendered":"O desejo do analista na contemporaneidade e a efervesc\u00eancia do discurso da ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h6>Camila Abreu Costa<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<br \/>\n<\/em><em>Parte da Nova Pol\u00edtica de Juventude da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP)<\/em><\/h6>\n<p>Pensando a contemporaneidade e o discurso da ci\u00eancia: como o desejo do analista e a causa anal\u00edtica podem manter-se vivas? Em os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise, Lacan nos diz que \u201c\u00e9 o desejo do analista que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, opera na psican\u00e1lise\u201d (LACAN, 1964\/2008). O analista opera a partir da l\u00f3gica do bem-dizer e n\u00e3o do bem-estar. Segundo Miller (2015), a opera\u00e7\u00e3o do analista segue a l\u00f3gica de uma opera\u00e7\u00e3o-redu\u00e7\u00e3o, oposta \u00e0 amplifica\u00e7\u00e3o do significante. Isso pode nos levar a pensar que, diferente da ci\u00eancia, a psican\u00e1lise n\u00e3o segue uma via de eliminar o sintoma. Lacan, <em>no semin\u00e1rio XXIII <\/em>define o sintoma como fun\u00e7\u00e3o de letra, um signo isolado da cadeia significante, uma cifra de gozo (LACAN, 1975-76\/2007),<\/p>\n<p>Em <em>ci\u00eancia e a verdade, <\/em>Lacan nos convoca a pensar que o psicanalista se situa em sua pr\u00e1xis e que o sujeito sobre quem operamos s\u00f3 pode ser o sujeito da ci\u00eancia, ou seja, a psican\u00e1lise lida com sujeitos que est\u00e3o na efervesc\u00eancia do discurso da ci\u00eancia e que recebem os efeitos deste discurso (LACAN, 1965\/1998)<em>.<\/em><\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 que, enquanto a ci\u00eancia se aprofunda em um ideal de sujeito, a psican\u00e1lise se encarrega em direcionar seu olhar aos efeitos ps\u00edquicos desta opera\u00e7\u00e3o. Dito de outro modo, o que interessa \u00e0 psican\u00e1lise \u00e9 o que resta do foraclu\u00eddo, justamente o que \u00e9 deixado de lado pela ci\u00eancia. A quest\u00e3o da ci\u00eancia \u00e9 que a verdade n\u00e3o \u00e9 causa, n\u00e3o quer saber da causa. Diante da ci\u00eancia e toda sua proposta de veracidade, a psican\u00e1lise est\u00e1 atenta ao modo como cada \u201cum\u201d, em sua singularidade, toma esta verdade e a utiliza em sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Pensando por esta via, \u201cn\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia do real\u201d, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 uma veracidade absoluta. A psican\u00e1lise considera a forma\u00e7\u00e3o inconsciente do \u201cum\u201d, que passa por uma inven\u00e7\u00e3o, uma fic\u00e7\u00e3o. O pensamento cientificista ou uma epistemologia que conceba o real como algo evidente e empiricamente observado, apreendido e que se concerne pela via do saber sabido, n\u00e3o diz da psican\u00e1lise (BASSOLS, 2015)<\/p>\n<p>Lacan, salienta que o lugar da psican\u00e1lise na medicina \u00e9 atualmente marginal, extraterritorial e que a pr\u00e1tica da medicina \u00e9 acompanhada de doutrinas cient\u00edficas consideradas como uma aquisi\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e acentua que \u00e9 de extrema relev\u00e2ncia certas aquisi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que mant\u00eam um organismo vivo, diante seus avan\u00e7os. Por outro lado, o desejo da medicina e da psican\u00e1lise s\u00e3o diferentes (LACAN,1966\/2001).<\/p>\n<p>Ainda neste texto, Lacan aponta que \u00e9 na medida em que o inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem, que o equ\u00edvoco pode aparecer na vida do ser falante. Logo, o discurso da psican\u00e1lise n\u00e3o consegue e nem tem a inten\u00e7\u00e3o de operar e produzir efeitos pragm\u00e1ticos e experimentais.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, continuo me questionando: Como o desejo do analista pode operar na contemporaneidade sem desconsiderar a ci\u00eancia?<\/p>\n<p>Lembrei-me de uma not\u00edcia recente; a da Nath\u00e1lia Pasternak, uma cientista que retrata a psican\u00e1lise demarcando o crit\u00e9rio, de que, por ser uma pseudoci\u00eancia, n\u00e3o deve ser considerada como um m\u00e9todo v\u00e1lido (GEROLIMICH, 2023). Este foi um <em>\u201cboom\u201d<\/em> em que muitos analistas, talvez oportunamente movidos pelo desejo da causa anal\u00edtica, ousaram arriscar suas vozes. De certo, a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 absoluta, j\u00e1 que precisamos considerar a transfer\u00eancia e o inconsciente e, consequentemente, n\u00e3o podemos ignorar seus efeitos. Trata-se, como diz Miller, de acreditar no inconsciente (MILLER, 2008-09\/2011).<\/p>\n<p>Cito Lacan na li\u00e7\u00e3o 3 de maio de 1961:<\/p>\n<blockquote><p>Certamente, n\u00e3o \u00e9 adequado contentarmo-nos em pensar que o analista, por sua experi\u00eancia e sua ci\u00eancia, seja o equivalente moderno, o representante, autorizado pela for\u00e7a de uma pesquisa, de uma doutrina e de uma comunidade, daquilo a que se poderia chamar o direito da natureza (LACAN, 1960-61\/2010, p.329).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda interrogando o desejo do analista e o discurso da ci\u00eancia, talvez o desejo do analista possa contemplar v\u00e1rios \u00e2mbitos. Isso quer dizer que manter viva a causa anal\u00edtica, tamb\u00e9m \u00e9 do nosso desejo. N\u00e3o se trata de uma disputa, mas de um di\u00e1logo poss\u00edvel entre discursos diferentes. Esta \u00e9 minha aposta.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>BASSOLS M i PUIG. N\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia do real. In___<em>A psican\u00e1lise, a ci\u00eancia, o real<\/em>. p.9-18. Rio de Janeiro: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, 2015.<\/h6>\n<h6>GEROLIMICH, I. Que bobagem (e desservi\u00e7o) \u00e9 atacar a psican\u00e1lise. Publicado em: https:\/\/www.cartacapital.com.br\/opiniao\/que-bobagem-e-desservico-e-atacar-a-psicanalise\/. Acesso em: 20 de setembro de 2023.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0Semin\u00e1rio livro 8: <em>A transfer\u00eancia<\/em>\u00a0(1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>\u00a0(1964), p.33. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. A ci\u00eancia e a verdade (1965). In___<em>Escritos<\/em>, p.869-892. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966). O lugar da psican\u00e1lise na medicina.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, 32:8-14. 2001.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976)\u00a0<em>Le s\u00e9minaire livre XXIII: le sinthome<\/em>\u00a0Paris: \u00c9ditions du Seuil, 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. (2008-2009) Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Entre desejo e gozo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editorial, 2011<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Abreu Costa Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) Parte da Nova Pol\u00edtica de Juventude da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) Pensando a contemporaneidade e o discurso da ci\u00eancia: como o desejo do analista e a causa anal\u00edtica podem manter-se vivas? 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