{"id":2236,"date":"2023-12-20T14:51:32","date_gmt":"2023-12-20T17:51:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2236"},"modified":"2023-12-20T14:51:32","modified_gmt":"2023-12-20T17:51:32","slug":"maternidades-trabalho-materno-e-a-importancia-do-desejo-nao-anonimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/maternidades-trabalho-materno-e-a-importancia-do-desejo-nao-anonimo\/","title":{"rendered":"Maternidades, trabalho materno e a import\u00e2ncia do desejo n\u00e3o an\u00f4nimo"},"content":{"rendered":"<h6>Karynna M. Barros da N\u00f3brega<br \/>\n<em>Membro da Se\u00e7\u00e3o Nordeste EBP\/AMP.<br \/>\nProfessora adjunta do curso de psicologia da<br \/>\nUniversidade Federal de Campina Grande &#8211; UFCG<\/em><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cO papel da m\u00e3e \u00e9 o desejo da m\u00e3e. \u00c9 capital. O desejo da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 algo que se possa suportar assim, que lhes seja indiferente. Correria sempre estragos. Um grande crocodilo cuja boca voc\u00eas est\u00e3o \u2013 a m\u00e3e \u00e9 isso. N\u00e3o se sabe o que lhe pode dar na telha, de estalo fechar a sua bocarra. O desejo da m\u00e3e \u00e9 isso.\u201d (LACAN, 1992, p\u00e1g. 105)<\/p><\/blockquote>\n<p>Conforme Barros (2018), houve algumas mudan\u00e7as na sociedade p\u00f3s patriarcal, em rela\u00e7\u00e3o a maternidade: primeiramente as mulheres passaram a ter a liberdade de poder escolher ser ou n\u00e3o m\u00e3e, o que antes era, em certa medida, um destino for\u00e7oso destinado as mulheres. Al\u00e9m dessa liberdade de escolha houve a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, a comercializa\u00e7\u00e3o e uso dos m\u00e9todos conceptivos. Isso permitiu uma dissocia\u00e7\u00e3o entre o ato sexual da reprodu\u00e7\u00e3o. Assim, foi poss\u00edvel a mulher gozar do ato sexual, sem necessariamente engravidar ou visar ter um filho, legitimando o direito e o desejo da mulher gozar do pr\u00f3prio corpo, sem ser m\u00e3e.<\/p>\n<p>A modernidade tem promovido algumas mudan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o a maternidade.\u00a0\u00a0 O avan\u00e7o tecnol\u00f3gico permitiu que algumas fam\u00edlias que desejavam ter filhos, e n\u00e3o tinha em virtude de algum impedimento biol\u00f3gico, que esse sonho fosse poss\u00edvel, seja por meio da reprodu\u00e7\u00e3o assistida ou por meio do processo de ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Calligaris (2019) a cultura ocidental foi constru\u00edda em torno do \u00f3dio endere\u00e7ado as mulheres, ou melhor ao feminino, que remete ao mal, ao demon\u00edaco e aquilo que n\u00e3o se pode controlar, especificamente o sexo, o desejo sexual feminino. Se por um lado h\u00e1 um \u00f3dio endere\u00e7ado a mulher, por outro, paradoxalmente h\u00e1 um culto \u00e0 maternidade, imaginariamente concebida como algo sagrado, a m\u00e3e enquanto aquela que n\u00e3o apresenta desejo sexual e remete a pureza.<\/p>\n<p>Barros (2018) nos ensina que a maternidade \u00e9 um trabalho inegoci\u00e1vel, e singular. Cada m\u00e3e inventa, n\u00e3o sem o Outro, a pr\u00f3pria maternidade dentro do seu poss\u00edvel, em virtude das experi\u00eancias vivenciadas, das experi\u00eancias de corpo e de discurso que nos comp\u00f5e. Com isso, a psican\u00e1lise nos ensina que n\u00e3o h\u00e1 um saber pronto e inato sobre a maternidade, nenhuma mulher est\u00e1 preparada para esse acontecimento. O significante maternidade marca a vida das mulheres, seja as que escolhem ou n\u00e3o serem m\u00e3es.<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia 33 Freud menciona que a maternidade \u00e9 um dos destinos da sexualidade feminina, lendo Freud com Lacan aprendemos que esse destino da sexualidade feminina \u00e9 um modo de gozo f\u00e1lico, j\u00e1 que est\u00e1 orientado pelo falo. Ou seja, a maternidade \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o da sexua\u00e7\u00e3o do lado do ter, encarnando o Outro da demanda.<\/p>\n<p>Com Lacan, aprendemos que somos feitos e efeito do encontro e desencontro com a l\u00edngua do Outro. Entre a m\u00e3e e um filho haver\u00e1 desencontros e o filho \u00e9 um acontecimento, algo que \u00e9 recebido, remete ao objeto<em> a<\/em>. Podendo ser um objeto causa de desejo ou objeto dejeto, quando remete a um estranhamento. Toda mulher ao parir, pari o desconhecido, assim a maternidade convoca a mulher ao trabalho de dar um valor libidinal e f\u00e1lico a crian\u00e7a quando isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a crian\u00e7a fica exilada do campo do Outro. (BARROS, 2018)<\/p>\n<p>Em muitos casos em especial na neurose, a maternidade \u00e9 uma causa, uma experi\u00eancia que permite a mulher reconhecer no filho o objeto do seu amor e de seu desejo. O la\u00e7o entre a m\u00e3e e o filho \u00e9 para a vida toda, h\u00e1 um jogo libidinal que permeia a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filho, por meio dos objetos que s\u00e3o perdidos e fazem parte de um processo de separa\u00e7\u00e3o, a saber: a placenta, o cord\u00e3o umbilical, o peito, as roupas, os sapatinhos, os objetos que caem, a m\u00e3e faz uma media\u00e7\u00e3o do sujeito apresentado o mundo e fazendo uma rela\u00e7\u00e3o com a dimens\u00e3o do real da vida. (BARROS, 2018)<\/p>\n<p>A maternidade para psican\u00e1lise \u00e9 um acontecimento, uma experi\u00eancia libidinal respons\u00e1vel pela tessitura de um lugar no campo simb\u00f3lico para a edifica\u00e7\u00e3o de um sujeito de desejo. Em termos lacanianos \u00e9 condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para o sujeito ser sujeito ter um lugar no campo do Outro. Com Freud aprendemos que a funda\u00e7\u00e3o do humano se orientava por meio do romance familiar com a trama ed\u00edpica que produz um mito de origem. Lacan (1999) em As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente divide didaticamente o Complexo de \u00c9dipo em tr\u00eas tempos demonstrando a l\u00f3gica pulsional, do desejo e da linguagem entre a m\u00e3e, a crian\u00e7a -o falo e o pai.<\/p>\n<p>No primeiro tempo h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre a m\u00e3e e a crian\u00e7a, essa se assujeita imaginariamente a m\u00e3e. No segundo tempo o pai aparece como aquele que priva a crian\u00e7a da m\u00e3e, o pai \u00e9 nesse tempo o onipotente. No terceiro tempo, o pai aparece como sendo o portador do falo e com isso instaura o falo como o objeto causa de desejo da m\u00e3e. Assim, o pai passa a ser aquele que possui a ins\u00edgnia do desejo materno. Nesse tempo, se instaura a met\u00e1fora paterna e a identifica\u00e7\u00e3o com o pai, Ideal do eu. Assim, o desejo materno remete ao real e a met\u00e1fora paterna a rede de significantes que nomeiam o desejo materno. A m\u00e3e \u00e9 aquela quem funda o pai, ou seja, ela valida o dito do pai por meio do la\u00e7o de amor e de respeito, o que ele diz n\u00e3o \u00e9 equivalente a zero.<\/p>\n<p>Para Barros (2015) a m\u00e3e \u00e9 um equivalente de um desejo e esse desejo determina o lugar da crian\u00e7a no mundo, logo a crian\u00e7a \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o desse desejo. O destino de um filho tem rela\u00e7\u00e3o com o desejo materno e sua articula\u00e7\u00e3o com o significante os nomes-do-pai, assim n\u00e3o existe o desejo materno, sem o significante nome-do-pai.<\/p>\n<p>Para Lacan, a met\u00e1fora paterna remete ao simb\u00f3lico que nomeia o real do desejo materno e mostra que a funda\u00e7\u00e3o do humano est\u00e1 permeada pelos desejos da m\u00e3e endere\u00e7ado ao filho e que o pai promove a separa\u00e7\u00e3o e a nomea\u00e7\u00e3o desse desejo, liberando a crian\u00e7a para se constituir enquanto sujeito de desejo. Primeiro \u00e9 preciso contar com o desejo do Outro, para num segundo tempo poder se separar dele, essa \u00e9 a l\u00f3gica da neurose, na psicose n\u00e3o h\u00e1 a dimens\u00e3o do terceiro que separa o sujeito do desejo materno, ficando a crian\u00e7a alienada ao fantasma do Outro.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>BARROS, M. La Madre: Apuntes lacanianos Grama Ediciones, 2018.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Amor, sexualidade, feminilidade Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2023. (Obras incompletas de Freud)<\/h6>\n<h6>HOMEM, M. Coisa de menina? Uma conversa sobre g\u00eanero, sexualidade, maternidade e feminismo Campinas, SP: Papirus7 Mares, 2019. Cole\u00e7\u00e3o Papirus debate.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro:\u00a0\u00a0\u00a0 Jorge\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>______. O semin\u00e1rio livro 5: as forma\u00e7\u00f5es inconscientes Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6>VIEIRA, M. A. M\u00e3es Rio de Janeiro: Subversos, 2015<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karynna M. Barros da N\u00f3brega Membro da Se\u00e7\u00e3o Nordeste EBP\/AMP. Professora adjunta do curso de psicologia da Universidade Federal de Campina Grande &#8211; UFCG \u201cO papel da m\u00e3e \u00e9 o desejo da m\u00e3e. \u00c9 capital. 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