{"id":2238,"date":"2023-12-20T14:43:55","date_gmt":"2023-12-20T17:43:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2238"},"modified":"2023-12-20T14:56:11","modified_gmt":"2023-12-20T17:56:11","slug":"a-funcao-paterna-na-devastacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/a-funcao-paterna-na-devastacao\/","title":{"rendered":"A fun\u00e7\u00e3o paterna na devasta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6>Vanessa Farias<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de devasta\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada a rela\u00e7\u00e3o da filha com o desejo materno, sendo que a rela\u00e7\u00e3o com o Outro materno se revela clinicamente no caso a caso. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o em que se observa um demasiado apego \u00e0 m\u00e3e, por vezes uma fixa\u00e7\u00e3o, submiss\u00e3o nesta rela\u00e7\u00e3o, podendo haver repercuss\u00f5es na vida amorosa futura, constatando-se, muitas vezes, recusa dessas rela\u00e7\u00f5es. Quando se fala de devasta\u00e7\u00e3o, imediatamente se relaciona ao termo \u201cmaterno\u201d.<\/p>\n<p>Onde entra o pai nesta rela\u00e7\u00e3o? Nos casos cl\u00ednicos acompanhados pude observar uma rela\u00e7\u00e3o de amor ao pai, admira\u00e7\u00e3o e carinho, mas que, por outro lado, \u00e9 um pai que se apresenta opaco, ausente, submisso aos caprichos da m\u00e3e, n\u00e3o cumprindo nenhuma fun\u00e7\u00e3o de esteio para estas filhas, claudicando o significante paterno. Da\u00ed surge o interesse de se fazer uma breve investiga\u00e7\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o do pai na psican\u00e1lise e, especificamente, na devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na obra freudiana a fun\u00e7\u00e3o do pai sempre ocupou um lugar de destaque, sendo considerado como fundamental na constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do sujeito, onde utiliza-se conceitos como complexo de \u00e9dipo, incesto e castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 Lacan (1957 &#8211; 1958), ao falar do pai em seu ensino, revela a fun\u00e7\u00e3o paterna, associado-a ao complexo de \u00c9dipo, sendo essa fun\u00e7\u00e3o a de interditar a m\u00e3e; ele \u00e9 o encarregado de proibir o incesto, a partir de sua presen\u00e7a e efeitos no inconsciente. O pai, para Lacan, \u00e9 um significante que substitui um outro significante: \u00e9 uma met\u00e1fora. \u00c9 a met\u00e1fora paterna. Esse primeiro significante \u00e9 o significante materno, que \u00e9 substitu\u00eddo pela fun\u00e7\u00e3o do pai no complexo de \u00c9dipo. Isso \u00e9 explicado atrav\u00e9s da f\u00f3rmula da met\u00e1fora paterna. Nesta met\u00e1fora, se trata da coloca\u00e7\u00e3o substitutiva do pai como s\u00edmbolo ou significante, no lugar da m\u00e3e.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a depende do desejo da m\u00e3e mas se desvincula da depend\u00eancia efetiva deste desejo atrav\u00e9s da constata\u00e7\u00e3o de que a m\u00e3e pode ou n\u00e3o estar presente, que h\u00e1 algo a mais presente na vida da m\u00e3e, al\u00e9m da crian\u00e7a, um objeto do seu desejo, que \u00e9 o falo. A partir da\u00ed algo se institui, uma subjetiva\u00e7\u00e3o, se afirmando o desejo da crian\u00e7a, que \u00e9 a apet\u00eancia do desejo da m\u00e3e (idem).<\/p>\n<p>Neste sentido, o pai, ao privar a m\u00e3e do seu objeto de desejo \u2013 o objeto f\u00e1lico \u2013 desempenha um papel fundamental na neurose e em todo o desenrolar do complexo de \u00c9dipo (ibidem).<\/p>\n<p>Para articular o lugar do pai na devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio trazer duas defini\u00e7\u00f5es do conceito de devasta\u00e7\u00e3o para Lacan, onde encontramos men\u00e7\u00e3o a esta fun\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma met\u00e1fora:<\/p>\n<p>Na primeira, que encontra &#8211; se no semin\u00e1rio 17 (1969 -1970), Lacan fala:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>O papel da m\u00e3e \u00e9 o desejo da m\u00e3e. \u00c9 capital. O desejo da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 algo que se possa suportar assim, que lhe seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um crocodilo em cuja boca voc\u00eas est\u00e3o \u2014 a m\u00e3e \u00e9 isso. N\u00e3o se sabe o que lhe pode dar na telha, de estalo fechar sua bocarra. O desejo da m\u00e3e \u00e9 isso. Ent\u00e3o, tentei explicar que havia algo de tranquilizador. Digo-lhes coisa simples, estou improvisando, devo dizer. H\u00e1 um rolo, de pedra, \u00e9 claro, que l\u00e1 est\u00e1 em pot\u00eancia, no n\u00edvel da bocarra, e isso ret\u00e9m, isso emperra. \u00c9 o que chama falo. \u00c9 o rolo que os p\u00f5e a salvo se, de repente, aquilo se fecha.<\/em>\u201d (p. 118).<\/p><\/blockquote>\n<p>Estava se referindo a met\u00e1fora paterna, ao mencionar o rolo de pedra que est\u00e1 l\u00e1, potente, que impede a boca do crocodilo de se fechar.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que\u00a0 essa substitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 menos terr\u00edvel, mas \u00e9 mais favor\u00e1vel porque n\u00e3o impede o desenvolvimento, enquanto que n\u00e3o havendo essa substitui\u00e7\u00e3o, ou seja, ser engolido ou devorado pela m\u00e3e, n\u00e3o h\u00e1 uma sa\u00edda para algum desenvolvimento. Isso significa que a crian\u00e7a fica fixada na m\u00e3e, assujeitada a ela &#8211; um dos aspectos na devasta\u00e7\u00e3o. (Lacan, 1956\/57)<\/p>\n<p>Na segunda vez em que menciona a fun\u00e7\u00e3o paterna na devasta\u00e7\u00e3o encontra-se no texto O Aturdito (1972):<\/p>\n<blockquote><p>\u201c&#8230; <em>a elucubra\u00e7\u00e3o freudiana do complexo de \u00c9dipo, que faz da mulher peixe na \u00e1gua, pela castra\u00e7\u00e3o ser nela ponto de partida (Freud dixit), contrasta dolorosamente com a realidade de devasta\u00e7\u00e3o que constitui, na mulher, em sua maioria, a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, de quem, como mulher, ela realmente parece esperar mais subst\u00e2ncia que do pai &#8211; o que n\u00e3o combina com ele ser segundo, nessa devasta\u00e7\u00e3o<\/em>.\u201d (Lacan, p. 465).<\/p><\/blockquote>\n<p>O pai como segundo no estrago n\u00e3o \u00e9 o fundamental no \u00c9dipo, ou seja, a fun\u00e7\u00e3o paterna n\u00e3o est\u00e1 bem representada. Nos casos de devasta\u00e7\u00e3o, a met\u00e1fora paterna, n\u00e3o se consegue fazer a substitui\u00e7\u00e3o do pai como s\u00edmbolo ou significante, no lugar da m\u00e3e, fica em segundo plano.<\/p>\n<p>Para Bayon (2013), isto quer dizer que h\u00e1 uma escolha inconsciente do sujeito que pode ou bem esperar mais subst\u00e2ncia da m\u00e3e, deixando-a na devasta\u00e7\u00e3o, ou bem virar-se para o amor do pai, o que a localizar\u00e1 na histeria.<\/p>\n<p>Mas, para isso, o pai n\u00e3o deve estar submetido aos caprichos da m\u00e3e para poder encarnar a sua fun\u00e7\u00e3o de interdit\u00e1-la, de castr\u00e1-la. Ele deve\u00a0 encarnar o lugar do potente rolo de pedra que funciona na boca do crocodilo que proibe a crian\u00e7a de ser devorada pelo desejo materno sem lei, ocupando o lugar de primeiro, e n\u00e3o de segundo no complexo de \u00c9dipo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>BAYON, P. (2013). Estrago como posici\u00f3n subjetiva. Revista Registros. Tomo\u00a0\u00a0 Verde &#8211; Madres y padres. 2013.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. (1956 &#8211; 1957).\u00a0O semin\u00e1rio:\u00a0livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1995.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958). O semin\u00e1rio: livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio\u00a0\u00a0 de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1999.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969\/1970). O semin\u00e1rio: livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972). O aturdito. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1998.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vanessa Farias Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) A no\u00e7\u00e3o de devasta\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada a rela\u00e7\u00e3o da filha com o desejo materno, sendo que a rela\u00e7\u00e3o com o Outro materno se revela clinicamente no caso a caso. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o em que se observa um demasiado apego \u00e0 m\u00e3e, por vezes uma fixa\u00e7\u00e3o,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2238","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-025","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2238","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2238"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2238\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2239,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2238\/revisions\/2239"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2238"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2238"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2238"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2238"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}