{"id":2240,"date":"2023-12-20T14:51:50","date_gmt":"2023-12-20T17:51:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2240"},"modified":"2023-12-20T14:51:50","modified_gmt":"2023-12-20T17:51:50","slug":"restar-o-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/restar-o-sonho\/","title":{"rendered":"Restar o sonho"},"content":{"rendered":"<h6>Daniela Lima de Almeida<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB).<br \/>\nAluna do curso de Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL &#8211; IPB)<br \/>\n<\/em><em>\u00a0Mestranda pelo Programa de P\u00f3s-<\/em><em>Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (PPGPSI-UFBA)<\/em><\/h6>\n<blockquote><p><em>O meu sonho, adormecido ou acordado, \u00e9 esse trabalho,<br \/>\n<\/em><em>mas \u00e9 o trabalho que me trabalha.<br \/>\n<\/em>(Maria Gabriela Llansol, <em>O Texto-Catarina<\/em>)<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cO resto \u00e9 sempre, no destino humano, fecundo\u201d, nos diz Lacan (2008 [1964], p. 134) no <em>Semin\u00e1rio 11<\/em>. A psican\u00e1lise sempre se ocupou dos restos. Podemos dizer que um resto \u00e9 o que possibilita seu nascimento e sua renova\u00e7\u00e3o. O sonho, que em algumas matrizes discursivas ocupava o lugar de gari da mente ou de pura atividade cerebral, \u00e9 resgatado por Freud (2019 [1900]), que lhe confere um outro estatuto. Ao fundar um novo campo, Freud chama aten\u00e7\u00e3o para a cena inconsciente que, com seu modo pr\u00f3prio de funcionamento, faz do sonho uma realiza\u00e7\u00e3o de desejo sexual infantil e recalcado. \u00c0 \u00e9poca do corte epistemol\u00f3gico inaugural, Freud inclui o sonhador como int\u00e9rprete da pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o on\u00edrica, cuja interpreta\u00e7\u00e3o consistia em um trabalho de decifra\u00e7\u00e3o. Por sua vez, Lacan opera uma dessubstancializa\u00e7\u00e3o do inconsciente e situa a realidade humana a partir de tr\u00eas registros ps\u00edquicos: o real, o simb\u00f3lico e o imagin\u00e1rio. Nessa dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel interrogar: qual o estatuto do sonho ap\u00f3s o corte epistemol\u00f3gico lacaniano?<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, vale resgatar a reverbera\u00e7\u00e3o de uma equivocidade no t\u00edtulo freudiano <em>Die Traumdeutung<\/em>, <em>A interpreta\u00e7\u00e3o do sonho<\/em>: ao mesmo tempo em que remete a interpretar o sonho, nos diz tamb\u00e9m do sonho como int\u00e9rprete, como afirma Assef (2020). O sonho \u00e9 situado por Lacan (2010 [1960-1]), no <em>Semin\u00e1rio 8<\/em>\u00b8 no campo de err\u00e2ncia do significante. Significantes dispostos a desvios. Vagantes. Entre disson\u00e2ncias e rupturas de <em>senso<\/em>. Um g\u00e9rmen da no\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o como equ\u00edvoco, formulada por Lacan (2011 [1974]) no segundo ensino, ao sublinhar algo no simb\u00f3lico que se restringe por um jogo de palavras, uma equivocidade que comporta a aboli\u00e7\u00e3o do sentido.<\/p>\n<p>Na subvers\u00e3o lingu\u00edstica operada no primeiro ensino de Lacan, s\u00e3o extra\u00eddas as leis que articulam a estrutura da linguagem, como a met\u00e1fora e a meton\u00edmia, para subsidiar uma l\u00f3gica pr\u00f3pria ao inconsciente, num jogo significante de substitui\u00e7\u00f5es, combina\u00e7\u00f5es, elis\u00f5es e deslizamentos, que incide nas forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. H\u00e1 algo, por\u00e9m, que dissolve e escapa ao sentido, ponto em que a equivocidade e a err\u00e2ncia significante conferem adensamento ao tema. Tais dimens\u00f5es presentificam o inconsciente como cicatriz evanescente e evasiva no discurso, com \u201cesse n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea que nos toca\u201d (LACAN, 2008 [1964], p. 32). Assim, uma primeira passagem da interpreta\u00e7\u00e3o como decifra\u00e7\u00e3o para a interpreta\u00e7\u00e3o como equ\u00edvoco come\u00e7a a se delinear e incide no estatuto do sonho.<\/p>\n<p>A equivocidade e a err\u00e2ncia significante retornam no <em>dizv\u00e3<\/em> (LACAN, 2001 [1977], p. 6), neologismo lacaniano que gera uma homofonia entre <em>div\u00e3 <\/em>e <em>direvent,<\/em> que comporta<em> dire <\/em>(dizer) e <em>vent <\/em>(vento). O que se diz ao vento ou no div\u00e3 presentifica uma fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica do significante, capaz de testemunhar que \u201ca fun\u00e7\u00e3o da linguagem n\u00e3o \u00e9 informar, mas <em>evocar<\/em>\u201d (LACAN, 1998 [1953], p. 301). As coisas que voam e escapam <em>evocam<\/em> que na fala e em seu trope\u00e7o se trata de \u201cfazer ouvir o que ela n\u00e3o diz\u201d (LACAN, 1998 [1953], p 296). Com isso, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o sonho interpreta o sonhador? Interpreta e interpela. Um sonho que chega \u00e0 an\u00e1lise \u00e9 um sonho que j\u00e1 provocou algum burburinho ao <em>falasser<\/em>, que de algum modo sente-se concernido por ele.<\/p>\n<p>Na mesma li\u00e7\u00e3o do <em>Semin\u00e1rio 8<\/em>, Lacan acrescenta que, no campo do sonho, \u201ctenho um primeiro acesso \u00e0 ideia de que h\u00e1 mais real do que a sombra, que h\u00e1, em primeiro lugar e no m\u00ednimo, o real do desejo, do qual essa sombra me separa [&#8230;] o desejo \u00e9 um desejo de sonho [&#8230;] o desejo tem a mesma estrutura que o sonho\u201d (LACAN, 2010 [1960-1], p. 458-9). Do que se trata o real do desejo no sonho? O real, aqui, aparece enquanto \u00edndice da impossibilidade de conjun\u00e7\u00e3o entre desejo e objeto. H\u00e1 uma fenda que persiste e instaura a meton\u00edmia do desejo. Nessa dire\u00e7\u00e3o, Lacan (2010 [1960-1]) sublinha que o analista desperta o analisante, um despertar que implica instaurar uma separa\u00e7\u00e3o entre a demanda e o desejo. Todavia, em seu \u00faltimo ensino, ele assinala que despertamos para continuar sonhando, para <em>a<\/em>bordar o real, que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever e exige do <em>falasser<\/em> uma inven\u00e7\u00e3o para habitar o ex\u00edlio da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual (DESSAL, 2019).<\/p>\n<p>Ao ultrapassar a primazia do simb\u00f3lico, Lacan (1998 [1975]) aborda a incid\u00eancia do significante no corpo. Por\u00e9m, n\u00e3o se trata do significante articulado, estruturado como uma linguagem, sen\u00e3o sua pr\u00f3pria materialidade, distanciada da produ\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o. Esta formula\u00e7\u00e3o se desdobra no conceito de <em>lal\u00edngua<\/em>, em que o fluxo f\u00f4nico do enxame de S1\u2019s produzem, como ondas, equivocidade e funcionam como causa de gozo, melodia desligada de significa\u00e7\u00e3o, um acorde que afeta o corpo: \u201cn\u00e3o \u00e9 por acaso que n\u203a<em>al\u00edngua<\/em>, qualquer que seja ela, na qual algu\u00e9m recebeu uma primeira marca, uma palavra \u00e9 equ\u00edvoca\u201d (LACAN, 1998 [1975], p. 7). Este enxame funciona como aluvi\u00e3o de mal-entendidos, de equ\u00edvocos que presentificam, nos trope\u00e7os, trocadilhos e jogos de palavras, o inconsciente. Trata-se, a princ\u00edpio, de um fluxo f\u00f4nico, que s\u00f3 ressoar\u00e1 como uma cadeia significante a partir de um ato de leitura (Arenas, 2017), que \u00e9, a cada vez, elocubra\u00e7\u00e3o de saber sobre <em>lal\u00edngua <\/em>(LACAN, 1985 [1972-3]). Com a interpreta\u00e7\u00e3o como equ\u00edvoco, o sentido estanca e reenvia o <em>falasser <\/em>ao mal-entendido fundamental.<\/p>\n<p>Em <em>Abertura da sess\u00e3o cl\u00ednica<\/em>, Lacan (2001 [1977]) assinala que a l\u00edngua \u00e9 chiclete. Com uma pequena tor\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel enunciar que <em>lal\u00edngua<\/em> \u00e9 chiclete, com resson\u00e2ncias que proliferam, retumbam em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 pelo modo como <em>al\u00edngua<\/em> foi falada e tamb\u00e9m ouvida por tal ou qual em sua particularidade, que alguma coisa em seguida reaparecer\u00e1 nos sonhos, em todo tipo de trope\u00e7os, em toda esp\u00e9cie de modos de dizer. \u00c9, se me permitem empregar pela primeira vez esse termo, nesse <em>mot\u00e9rialisme <\/em>onde reside a tomada do in-consciente (LACAN, 1998 [1975]), p. 7-8).<\/p><\/blockquote>\n<p>Dessa maneira, o sonho \u00e9 um dos arranjos para os ecos e equ\u00edvocos de <em>lal\u00edngua. <\/em>O inconsciente, no sonho, \u00e9 int\u00e9rprete de <em>lal\u00edngua<\/em>. Uma borda para o furo central que estrutura o <em>falasser<\/em> e repercute o imposs\u00edvel, que insiste. Na forma\u00e7\u00e3o on\u00edrica, desde Freud, o umbigo do sonho testemunha um ponto que resiste \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o, \u201cum novelo de pensamentos on\u00edricos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desembara\u00e7ar, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o contribuiu muito para o conte\u00fado do sonho. Esse, ent\u00e3o, \u00e9 o \u2018umbigo\u2019 do sonho, o ponto em que ele assenta no desconhecido\u201d (FREUD, (2019 [1900], p. 530). O umbigo do sonho como limite \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o aponta para um imposs\u00edvel de cifrar, para uma opacidade do real que exige novos contornos, incessantes. Assim, o umbigo que encerra o sonho \u00e9, tamb\u00e9m, sua abertura (BRANCO, 2021). Em outra dire\u00e7\u00e3o, Trocoli (2017) resgata a dimens\u00e3o do umbigo enquanto cicatriz e n\u00f3 que corta: \u201cos sonhos, em sua intraduzibilidade, em seu umbigo, passam a ter a fun\u00e7\u00e3o de corte. L\u00e1 onde eu n\u00e3o interpreto, isso corta\u201d (p. 6). Diante de um n\u00f3 que n\u00e3o pode ser desfeito, o corte. Cortar um ponto de imposs\u00edvel. Cortar e deixar cair os restos de uma an\u00e1lise. Cair. Decantar. Lan\u00e7ar. Uma \u00e9tica da psican\u00e1lise \u00e9, portanto, uma <em>p\u00f3-<\/em>\u00e9tica, ao dar lugar aos restos.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>ARENAS, Gerardo. Pasos hacia una econom\u00eda de los goces. Olivos: Grama Ediciones, 2017.<\/h6>\n<h6>ASSEF, Jorge. O sonho e sua interpreta\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o do tratamento hoje. \u00a0XII Congresso Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, 2020. &lt; https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/papers_001-pt.pdf &gt;.<\/h6>\n<h6>BRANCO, Lucia Castello. O caderno de [cem] sonhos de MGab. Belo Horizonte: Letramento, 2021.<\/h6>\n<h6>DESSAL, Gustavo. Lacan insone. Confer\u00eancia pronunciada na IV Jornada da EBP-Se\u00e7\u00e3o Santa Catarina \u2013 Tempo de sonhar, instantes de despertar, 2019. &lt; http:\/\/revistaarteira.com.br\/index.php\/lacan-insone#:~:text=Ainda%20nesse%20semin%C3%A1rio%2C%20Lacan%20concebe,363 &gt;<\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. A Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Obras Completas, v. 4, S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 2019 (PDF).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda [1972-1973]. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma [1975]. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 23, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise [1953]. In: Escritos: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Abertura da se\u00e7\u00e3o cl\u00ednica [1977]. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 30, p. 6, 2001.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise [1964]. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia [1960-1961]. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. A terceira [1974]. Op\u00e7\u00e3o lacaniana, Edi\u00e7\u00e3o Especial, n. 62, 2011.<\/h6>\n<h6>TROCOLI, Flavia. Ali onde eu n\u00e3o interpreto, isso corta.\u00a0Lacuna, S\u00e3o Paulo, v. 3, n. 6, 2017.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Lima de Almeida Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB). Aluna do curso de Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL &#8211; IPB) \u00a0Mestranda pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (PPGPSI-UFBA) O meu sonho, adormecido ou acordado, \u00e9 esse trabalho, mas \u00e9 o trabalho que me trabalha. 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