{"id":2242,"date":"2023-12-20T14:51:59","date_gmt":"2023-12-20T17:51:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2242"},"modified":"2023-12-20T14:51:59","modified_gmt":"2023-12-20T17:51:59","slug":"a-pulsao-escopica-no-discurso-capitalista-e-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/a-pulsao-escopica-no-discurso-capitalista-e-o-amor\/","title":{"rendered":"A puls\u00e3o esc\u00f3pica no discurso capitalista e o amor"},"content":{"rendered":"<h6>Giovana Reis Mesquita<br \/>\n<em>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB)<\/em><\/h6>\n<p>Freud (1930\/2010) argumentou que desde que nos tornamos b\u00edpedes, o olhar adquiriu uma import\u00e2ncia maior que a fun\u00e7\u00e3o olfativa. O homem passou a ser um ser esc\u00f3pico.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria pr\u00e9-hist\u00f3ria da Psican\u00e1lise n\u00e3o se furtou de considerar o quanto a puls\u00e3o se instala no olhar. Freud (1996) destacou que Charcot devotava ao olhar uma import\u00e2ncia na atividade cient\u00edfica que n\u00e3o estava apenas no fato de ver, observar, mas, sim, de ver algo novo.<\/p>\n<p>Depois, os pr\u00f3prios textos de Freud fazem refer\u00eancia \u00e0 vis\u00e3o, como as cenas prim\u00e1rias, revelando, portanto, que a puls\u00e3o esc\u00f3pica (<em>Schautrieb<\/em>) est\u00e1 sempre em evid\u00eancia. E declara o quanto era importante que o paciente n\u00e3o visse o analista enquanto estava no div\u00e3, principalmente para aqueles a quem a puls\u00e3o visual desempenhava na neurose um papel significativo (MEZAN, 1988).<\/p>\n<p>Ao falar em puls\u00e3o esc\u00f3pica, colocamos a\u00ed a exist\u00eancia de um psiquismo que n\u00e3o se pauta unicamente no som\u00e1tico. Olhar \u00e9 recorte.<\/p>\n<p>Para Fran\u00e7ois Leguil (1997), o olhar se distingue da vis\u00e3o devido ao fato da palavra colocar uma parcialidade. Olhar, esse verbo transitivo direto, demanda, portanto, um complemento. E o que complementa esse olhar para al\u00e9m da gram\u00e1tica? O desejo.<\/p>\n<p>Olhar \u00e9 desejar e ao mesmo tempo objeto de desejo. Vimos, em 2022, a empolga\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica com o novo telesc\u00f3pio James Webb, e as imagens por ele produzidas estamparam v\u00e1rios sites de not\u00edcia. Tais imagens mostram que o olho n\u00e3o v\u00ea tudo, mas, como a ci\u00eancia, aspira a conseguir.<\/p>\n<p>Antelo (2015), em sua tese \u201cA inquietante estranheza en el cine\u201d, afirma que o olho \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o do corpo que privilegiamos porque al\u00e9m de instrumento de saber, via pela qual se aprende, ele \u00e9 tamb\u00e9m fonte de satisfa\u00e7\u00e3o, por onde gozamos.<\/p>\n<p>Assim, o movimento da civiliza\u00e7\u00e3o parece ser um progresso em dire\u00e7\u00e3o a uma expans\u00e3o do olhar. O artigo de Carvalho (1997) chamado \u201cA satura\u00e7\u00e3o do olhar e a vertigem dos sentidos\u201d, diz que nunca antes do s\u00e9culo XX se experimentou tamanha satura\u00e7\u00e3o dessa puls\u00e3o. Para ele, o olhar tornou-se a principal media\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo com a realidade, os olhos veem mais em um menor espa\u00e7o de tempo, afetando radicalmente os modos de ver. H\u00e1 um aumento da demanda por novidade. H\u00e1 uma gula do olhar.<\/p>\n<p>As imagens, a superf\u00edcie, despertam mais o apetite do olho, do que a natureza interior das coisas. O olhar \u00e9 tribut\u00e1rio do mundo capitalista.<\/p>\n<p>O mundo sem lei, de falo esmaecido, sai da \u00e9tica para uma supremacia do que chamo de uma est\u00e9tica pornogr\u00e1fica, ou seja, de gozo f\u00e1cil e sem tempo de elabora\u00e7\u00e3o: v\u00ea, e se conclui.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a divis\u00e3o do sujeito parece n\u00e3o passar pelo outro, pelo desejo do outro; est\u00e1 mais ligada aos ideais do eu e aos constantes convites ao gozo. Com isso, o pr\u00f3prio corpo parece ganhar mais import\u00e2ncia. A imagem do indiv\u00edduo no espelho \u00e9 s\u00f3lida, completa, sem eros\u00f5es. O olhar est\u00e1 empanzinado de si mesmo.<\/p>\n<p>Um dos destinos da puls\u00e3o que Freud (1915\/2010) estabelece \u00e9 o retorno em dire\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio eu do indiv\u00edduo. No caso da puls\u00e3o esc\u00f3pica hoje, a finalidade ativa de olhar parece estar cada vez mais substitu\u00edda pela passividade de ser olhado. Um exemplo disso \u00e9 o desenvolvimento de aplicativos de celular, onde as pessoas passam a exibir seus corpos e viram a c\u00e2mera para si, no que popularmente se chama de <em>self<\/em>, um modo de fotografar para dentro. Desta forma, segue-se o que Miller (2018) diz: que n\u00e3o h\u00e1 outro no n\u00edvel da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso parece uma dificuldade em passar de uma solu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria a uma simb\u00f3lica \u2013 j\u00e1 que o simb\u00f3lico \u00e9 um registro que se faz para fora, que faz la\u00e7o. Nesse caso, n\u00e3o se tenta dizer, elaborar, apenas ver.\u00a0 Um curto-circuito imag\u00e9tico. A puls\u00e3o esc\u00f3pica talvez esteja saindo de uma satisfa\u00e7\u00e3o pelo conhecer para o gozo no sil\u00eancio das imagens que tudo tapam. H\u00e1 uma dificuldade em encarar a castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No campo anal\u00edtico, isso \u00e9 o que Lacan (2007) chamou de discurso capitalista. Mas diferentemente do conceito do que vem a ser um discurso, esse n\u00e3o barra o gozo, como bem enfatiza Miller (2011). Ao contr\u00e1rio, o sujeito parece estar colado em uma satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o abre espa\u00e7o para o desejo.<\/p>\n<p>O gozo condescende ao desejo atrav\u00e9s do amor (Lacan, 2012).\u00a0 \u00c9 este que propicia a viv\u00eancia de um gozo menos f\u00e1lico, que suporte mais a castra\u00e7\u00e3o. O amor cobre, supre, o que n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>Lacan (2010), no semin\u00e1rio \u201cA transfer\u00eancia\u201d, diz que o amor \u00e9 concebido a partir da no\u00e7\u00e3o de falta, de castra\u00e7\u00e3o. H\u00e1, portanto, uma rela\u00e7\u00e3o entre amor e castra\u00e7\u00e3o. Ao amor s\u00f3 se tem acesso castrado. Para amar, tem que abrir m\u00e3o do pr\u00f3prio gozo. Quanto mais castrado, mais se ama.<\/p>\n<p>Para Soria (2018),<\/p>\n<blockquote><p>a experi\u00eancia mesma do amor \u00e9 a experi\u00eancia de um objeto que se subtrai, que se escapa; e o campo esc\u00f3pico \u00e9 a dimens\u00e3o na qual melhor se capta esse fen\u00f4meno estrutural. Por isso n\u00e3o \u00e9 casual que o complexo de castra\u00e7\u00e3o freudiano esteja ligado ao imagin\u00e1rio, esteja ligado \u00e0 vis\u00e3o. [&#8230; ] a falta est\u00e1 ligada a uma negativiza\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o, a falta do imagin\u00e1rio \u00e9 uma falta de imagem. (p.62).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ademais, Lacan (1998) coloca o campo esc\u00f3pico como aquele que mais vela a castra\u00e7\u00e3o, porque o campo visual \u00e9 o que mais tende a completar a imagem; vide os princ\u00edpios da Psicologia da Gestalt, da boa-forma.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o podemos nos perguntar: A puls\u00e3o esc\u00f3pica preenche ou erode? Completa a falta ou olha para ela? Pode estar ligada ao amor, e, portanto, \u00e0 sua falta constitutiva?<\/p>\n<p>Talvez as duas coisas. A puls\u00e3o esc\u00f3pica pode estar a servi\u00e7o do desejo, e n\u00e3o s\u00f3 do gozo, buscando, apesar do que se v\u00ea, como aborda Leguil (1997), aquilo que permanece escondido do olhar, que em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 a castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando se assume a castra\u00e7\u00e3o, o imposs\u00edvel de ver, o monol\u00edtico do sujeito se erode, a falta aparece. Algo se perde, e o amor pode aparecer. Como em <em>Lituraterra<\/em>, Lacan (2003) retoma a met\u00e1fora freudiana de que a atividade anal\u00edtica \u00e9 mais escultural. \u00c9, portanto, mais de retirar do que de acrescentar.<\/p>\n<p>Assim, como a psican\u00e1lise \u00e9 uma atividade baseada no manejo da transfer\u00eancia, que \u00e9 o manejo do amor, \u00e9 preciso retirar, encarar a falta para o amor aparecer. Seja em an\u00e1lise ou n\u00e3o. O Eros n\u00e3o se erode quando o sujeito permite se erodir.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>ANTELO, M. <em>La inquietante extra\u00f1eza en el cine<\/em>. Tese de doutorado. Departamento de comunica\u00e7\u00e3o, Universidade Pompeu Fabra. Barcelona, 2015.<\/h6>\n<h6>CARVALHO, S. L. T. A satura\u00e7\u00e3o do olhar e a vertigem dos sentidos. <em>Revista USP<\/em>, (32), p. 126-155, 1997.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1893). Charcot. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud, v. 3. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1914-1916) Os instintos e seus destinos. In: <em>Obras Completas<\/em>, v. 12. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1930-1936). O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In: <em>Obras Completas<\/em>, v. 18. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958). A significa\u00e7\u00e3o do falo. In. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960-1961) O semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-1963) O semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969-1970) O semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971) Lituraterra. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LEGUIL, F. Lembrar-se do objeto que vimos, minha alma&#8230; In: RIBEIRO, M. A. C. e MOTTA, M. B. DA (Orgs.). <em>Os destinos da puls\u00e3o: sintoma e sublima\u00e7\u00e3o <\/em>\/ Kalimeros \u2013 Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1997.<\/h6>\n<h6>MEZAN, R. A medusa e o telesc\u00f3pio ou Verggasse 19. In: A. NOVAES (Org.), <em>O Olhar<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 1988.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.- A. Perspectivas do escritos e outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. El partenaire-s\u00edntoma. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2018.<\/h6>\n<h6>SORIA, N. Nudos del amor. Buenos Aires: Del Bude, 2018.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Giovana Reis Mesquita Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia (IPB) Freud (1930\/2010) argumentou que desde que nos tornamos b\u00edpedes, o olhar adquiriu uma import\u00e2ncia maior que a fun\u00e7\u00e3o olfativa. O homem passou a ser um ser esc\u00f3pico. 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