{"id":2244,"date":"2023-12-20T14:52:05","date_gmt":"2023-12-20T17:52:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2244"},"modified":"2023-12-20T14:52:05","modified_gmt":"2023-12-20T17:52:05","slug":"o-tratamento-ao-gozo-nos-novos-sintomas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2023\/12\/20\/o-tratamento-ao-gozo-nos-novos-sintomas\/","title":{"rendered":"O tratamento ao gozo nos novos sintomas"},"content":{"rendered":"<h6>Rog\u00e9rio de Andrade Barros<br \/>\n<em>Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Membro da EBP\/AMP<\/em><\/h6>\n<p>Na contemporaneidade, inaugura-se a \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe (MILLER, 2010).\u00a0 Trata-se do fim da \u00e9poca freudiana, do reino do Nome-do-Pai em sua vertente simb\u00f3lica de tratamento do gozo. Sob o paradigma das psicoses, interessa agora pensar o sintoma em face da aus\u00eancia do significante no Outro.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica psicanal\u00edtica, ocupada de um \u201csaber mutante\u201d (BRODSKY, 2013, p. 7) \u00e9 sens\u00edvel ao Outro social, de forma que \u201cse o Outro muda, muda a cl\u00ednica, j\u00e1 que a cl\u00ednica n\u00e3o est\u00e1 dada no real\u201d (Ibid., p. 7). A grande quest\u00e3o n\u00e3o mais se pauta na aus\u00eancia ou presen\u00e7a do significante que metaforiza o desejo materno, mas se configura propriamente como \u201co que domestica o gozo?\u201d (Ibid., p. 29).<\/p>\n<p>Os novos sintomas s\u00e3o signos da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual e fazem valer, predominantemente, sua vertente de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Os chamados \u201cnovos sintomas\u201d devem ser pensados a partir desse panorama: \u201cqueda do Outro, promo\u00e7\u00e3o do objeto \u2018a\u2019 como causa de um desejo insaci\u00e1vel e exigente de novidade sem deten\u00e7\u00e3o, e as posi\u00e7\u00f5es sexuadas vetorizadas pela tese da \u2018feminiza\u00e7\u00e3o do mundo atual\u2019\u201d (ANTEBI, 2009, p. 8).<\/p>\n<p>Em tempos de \u201ccapitalismo pulsional\u201d (BLANCO, 2009, p. 11), encontramos sujeitos cuja busca de satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 compulsiva, levando a efeitos desastrosos. A rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto, destitu\u00edda da sua vertente simb\u00f3lica, faz ver a face aditiva do sintoma: \u201co sujeito atual se sustenta na necessidade de consumo compulsivo, em condutas aditivas\u201d (Ibid., p. 11).<\/p>\n<p>Com base no hedonismo contempor\u00e2neo, a oferta desmedida de objetos apaga a subjetividade e os sujeitos contempor\u00e2neos apresentam-se cada vez mais desprovidos daquilo que os particularizam e os diferenciam (TUDANCA, 2012), homogeneizados pelo mercado de consumo (ANTEBI, 2009), capturados pelos objetos que os fazem dependentes (BLANCO, 2009). Essa depend\u00eancia denuncia a aus\u00eancia de recursos simb\u00f3licos para lidar com a separa\u00e7\u00e3o, tendo por consequ\u00eancia a preval\u00eancia atual de sintomas cada vez \u201cmais vinculados ao narcisismo, mais regressivos\u201d, evidenciando uma nova economia pulsional.<\/p>\n<p>O mal-estar atual evidencia a impot\u00eancia do simb\u00f3lico, ou seja, o esfacelamento do ideal do semblante paterno como regulador do gozo. Como consequ\u00eancia, temos novas defesas do real, constitui\u00e7\u00f5es em que evidenciamos o retorno da exig\u00eancia de gozo sobre o supereu (BROUSSE, 2009).<\/p>\n<p>Miller (1998), a partir da releitura freudiana realizada por Lacan, serve-se da duplicidade do sintoma para localizar os impasses do sujeito na sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem, especialmente no que se refere \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do Outro. Essa rela\u00e7\u00e3o se realiza a partir do objeto <em>a<\/em>. Nessa dire\u00e7\u00e3o, o objeto <em>a<\/em> representa a interse\u00e7\u00e3o entre os campos da puls\u00e3o e da cultura.<\/p>\n<p>De um lado, temos o campo das puls\u00f5es parciais, n\u00edvel em que \u201ch\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com o objeto oral, objeto anal, esc\u00f3pico, mas n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com a pessoa\u201d (MILLER, 1998, p. 15). Trata-se de um dom\u00ednio em que prevalece o gozo solit\u00e1rio, autoer\u00f3tico, sem haver ainda uma unifica\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es. Dizemos, assim, que no campo das puls\u00f5es parciais o gozo \u00e9 desordenado, n\u00e3o havendo ainda o falo como significante que ordena o investimento da libido atrav\u00e9s de um operador simb\u00f3lico (MILLER, 2005).<\/p>\n<p>Para que isso ocorra, \u00e9 necess\u00e1rio um desenvolvimento posterior, fazendo com que n\u00f3s nos transformemos nos \u201cencantadores seres sociais que somos\u201d (Ibid., p. 15). \u00c9 preciso que advenha o campo do Outro, submetendo a puls\u00e3o \u201c\u00e0 circula\u00e7\u00e3o do complexo de \u00c9dipo, \u00e0s estruturas de parentesco, o que denominamos campo da cultura\u201d (Ibid., p. 15). Miller marca, ainda, que no terreno da parcialidade pulsional n\u00e3o h\u00e1 homem e mulher, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o do homem com a mulher como tal, o que se formaliza do lado do grande Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 importante sinalizar que os dispositivos culturais n\u00e3o alteram as puls\u00f5es parciais. As mudan\u00e7as sintom\u00e1ticas de cada \u00e9poca decorrem do modo peculiar com que os sujeitos, servindo-se dos artif\u00edcios da pr\u00f3pria cultura, gozam dos objetos dispon\u00edveis a partir dos ideais. O sintoma \u00e9 \u201cum aparelho para localizar o pequeno <em>a<\/em>\u201d (p. 16), objeto que insere o elemento cultural na puls\u00e3o, fazendo existir, assim, uma aparelhagem significante sobre o gozo. Para os novos sintomas, a fantasia, tela simb\u00f3lica a partir do qual Lacan (1957-1958\/1999) articula o simb\u00f3lico ($) e o real (objeto <em>a<\/em>), parece n\u00e3o possuir qualquer utilidade em meio \u00e0s possibilidades irrestritas de gozar sem limites dos sintomas de supermercado.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de uma refer\u00eancia ao Outro, sinal da inoper\u00e2ncia do Nome-do-Pai como organizador de gozo, n\u00e3o \u00e9 sem efeito. Para \u201capaziguar o mal-estar relativo ao decl\u00ednio da figura do pai e \u00e0 inconsist\u00eancia do Outro\u201d (TENDLARZ, 2007, p. 27), evidenciamos o recurso a identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias mut\u00e1veis \u201cque funcionam como supl\u00eancias em face do d\u00e9ficit simb\u00f3lico\u201d (Ibid., p. 27). Supl\u00eancias que devem ser entendidas como formas de reparar o lapso do n\u00f3, realizando novamente o n\u00f3 que ata os registros real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio (MILLER, 2008).<\/p>\n<p><strong>Cl\u00ednica continu\u00edsta<\/strong><\/p>\n<p>Tendlarz (2007) afirma que, a partir das mudan\u00e7as do novo s\u00e9culo, os saberes foram convocados a rever suas classifica\u00e7\u00f5es, de modo que alguns diagn\u00f3sticos deixaram de ser operativos. No campo espec\u00edfico da psican\u00e1lise, notamos a passagem de uma cl\u00ednica descontinu\u00edsta, pautada na inscri\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai, \u00e0 cl\u00ednica continu\u00edsta, \u201c[&#8230;] de conex\u00e3o, borromeana, na qual o suporte n\u00e3o \u00e9 mais a inscri\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai, mas a foraclus\u00e3o generalizada e a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com seu sinthoma\u201d (TENDLARZ, 2007, p. 28). Dessa forma, deslocamos a \u00eanfase anteriormente dada \u00e0 estrutura, para nos inclinar \u00e0 \u201cunidade elementar do sintoma\u201d (Ibid, p. 28). Se o \u201cenvolt\u00f3rio formal\u201d se modifica, o n\u00facleo do sintoma, que \u00e9 o gozo, \u00e9 ainda o mesmo, de modo que concordamos com Tendlarz (2007) ao considerar que \u201cn\u00e3o existe uma nova puls\u00e3o\u201d (p. 28).<\/p>\n<p>Ante o fracasso do Nome-do-Pai em nomear e regular o gozo do ser de fala, surgem, no campo social, nomea\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias e reais (DAFUNCHIO, 2013). Distintas das nomea\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, essas nomea\u00e7\u00f5es revelam a impermeabilidade \u00e0 palavra. S\u00e3o, antes disso, sintomas mudos (MILLER, 1997), que nada querem dizer, n\u00e3o interpelam o int\u00e9rprete, n\u00e3o fazendo apelo ao Outro. Pauta-se a\u00ed o desafio do ato anal\u00edtico frente aos novos sintomas e seus modos de gozo, desaparelhados do Outro. Um novo tempo para um novo analista? \u00c9 esta mesma a aposta de Lacan ao pluralizar os Nomes-do-Pai em sua heresia. Seguimos a sua subvers\u00e3o, reinventando a cl\u00ednica a cada paciente.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>ANTEBI, Diana. El Outro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica. Em: Colofon \u2013 Bolet\u00edn de la Federaci\u00f3n Internacional de Bibliotecas de la Orientaci\u00f3n Lacaniana. n. 29, 2009.<\/h6>\n<h6>BLANCO, Manuel Fern\u00e1ndez. El capitalismo pulsional. Em: Colofon \u2013 Bolet\u00edn de la Federaci\u00f3n Internacional de Bibliotecas de la Orientaci\u00f3n Lacaniana. n. 29, 2009.<\/h6>\n<h6>BRODSKY, Graciela. A loucura nossa de cada dia. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie. ano 4. n. 12, 2013.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie H\u00e9l\u00e8ne. A psicose ordin\u00e1ria \u00e0 luz da teoria lacaniana do discurso. Latusa digital, ano 6, n. 38, setembro, 2009.<\/h6>\n<h6>DAFUNCHIO, Nieves Soria. Semin\u00e1rios: Cl\u00ednica da sexua\u00e7\u00e3o, Salvador, Ba; Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia: uma cl\u00ednica nodal das neuroses, Recife, PE. Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia: Salvador, 2013.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques (1957-1958). O semin\u00e1rio, livro 5: As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. <em>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. El partenaire-s\u00edntoma. 1. ed. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2008.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. Silet, os paradoxos da puls\u00e3o de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. O sintoma como aparelho. Em: Funda\u00e7\u00e3o do Campo Freudiano (Org.). O sintoma charlat\u00e3o. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed., 1998.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. O sintoma e o cometa. Opc\u0327a\u0303o Lacaniana, n. 19, p. 5-13, 1997.<\/h6>\n<h6>TENDLARZ, Silvia Elena. O inclassific\u00e1vel. In Alvarenga, E.; C\u00e1rdenas, M. H. (orgs.). (2007). A variedade da pr\u00e1tica: do tipo cl\u00ednico ao caso \u00fanico em psican\u00e1lise. Terceiro Encontro Americano, XV Encontro Internacional do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007.<\/h6>\n<h6>TUDANCA, Luis. Una pol\u00edtica del s\u00edntoma. 1. ed. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2012.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio de Andrade Barros Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Membro da EBP\/AMP Na contemporaneidade, inaugura-se a \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe (MILLER, 2010).\u00a0 Trata-se do fim da \u00e9poca freudiana, do reino do Nome-do-Pai em sua vertente simb\u00f3lica de tratamento do gozo. 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