{"id":2274,"date":"2025-05-14T15:47:03","date_gmt":"2025-05-14T18:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2274"},"modified":"2025-05-14T15:47:03","modified_gmt":"2025-05-14T18:47:03","slug":"salvador-cidade-que-fala-cidade-sujeito-fala-e-fura-repeticoes-e-restos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/05\/14\/salvador-cidade-que-fala-cidade-sujeito-fala-e-fura-repeticoes-e-restos\/","title":{"rendered":"Salvador, cidade que fala &#8211; Cidade-sujeito: fala e fura, repeti\u00e7\u00f5es e restos"},"content":{"rendered":"<p>Liliane Sales<br \/>\nWilker Fran\u00e7a<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2275 size-large alignnone\" src=\"http:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-19.12.10-1-1024x570.jpeg\" alt=\"\" width=\"980\" height=\"546\" srcset=\"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-19.12.10-1-1024x570.jpeg 1024w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-19.12.10-1-300x167.jpeg 300w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-19.12.10-1-768x427.jpeg 768w, https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-19.12.10-1.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel pensar uma cidade-sujeito pass\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o? Se, em \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d, Lacan (2003) concebe a Escola como um sujeito do qual se espera um trabalho \u2013 atravessada por um furo e sustentada por uma l\u00f3gica n\u00e3o totalizante \u2013, poder\u00edamos perguntar: o que faria de uma cidade algo mais do que territ\u00f3rio ou gest\u00e3o? Que tipo de la\u00e7o, de atravessamento ou de desejo poderia fazer da cidade um sujeito capaz de responder, n\u00e3o como uma unidade fechada, mas como algo que se sustenta de uma divis\u00e3o e se abre ao real? N\u00e3o se trataria de pensar a cidade como uma estrutura pronta, mas como aquilo que se constitui a partir de seus furos, de seus sintomas e da posi\u00e7\u00e3o que os sujeitos a\u00ed tomam.<\/p>\n<p>Foi a partir dessa ideia inicial que a equipe Lapsus se p\u00f4s a trabalho para, de forma po\u00e9tica, enunciar, a partir de um v\u00eddeo, algo dessa cidade t\u00e3o complexa que \u00e9 Salva-dor. Contamos com o presente que foi o poema do nosso colega psicanalista, membro da EBP Se\u00e7\u00e3o Bahia, Nilton Cerqueira, sobre a nossa cidade. Uma poesia que bordeia o imposs\u00edvel diante de cenas do cotidiano da periferia do bairro de S\u00e3o Caetano, o absurdo, o enigma entrela\u00e7ando corpos negros por vezes violentados e quase sempre desrespeitados. Nas palavras dele:<\/p>\n<blockquote><p>Todavia, ali mesmo, no Caps chamado Liberdade, minha margem desta tal liberdade era restrita e condicionada por cada resto recolhido do que vinha como um real da rua afora, furando cada uma das letras aliteradas: psiquiatra, psicanalista, poeta, pol\u00edtico, no agora de cada caso.<\/p><\/blockquote>\n<p>De onde v\u00eam as m\u00faltiplas faces que haver\u00e3o de se mostrar como modos distintos de paix\u00e3o? Nenhuma, contudo, que n\u00e3o brote do absurdo.<\/p>\n<p>Como se chama esse absurdo que produz, nesses peda\u00e7os extremos da cidade, horrores de sofrimento e fervores de inven\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A poesia de Nilton Cerqueira nos conduz pelas bordas da cidade, revelando a cena e o fora de cena: a voz da cidade, seus ru\u00eddos, o estalar dos tiros na necropolitana Salvador. A encena\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, o olhar que tudo vigia, os corpos que se arrastam fora do cart\u00e3o postal. O autor, com as palavras, tateia o horror e, com os restos, p\u00f5e a ver o que est\u00e1 \u00e0 margem \u2013 abrindo uma janela para os corpos negros e perif\u00e9ricos, desenhados no ch\u00e3o e invis\u00edveis principalmente para quem est\u00e1 fora da cena que comp\u00f5e seu cotidiano.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que a cidade-sujeito nos interpela em sua materialidade sens\u00edvel e simb\u00f3lica. E \u00e9 ainda nessa linha que Lacan (1988), no Semin\u00e1rio 7, menciona um \u201ctal estado do Brasil\u201d que, como num transe, afirmamos \u00e9 a Bahia e os seus orix\u00e1s t\u00e3o presentes na cultura soteropolitana. Ao interrogar a vontade dos deuses, ele aproxima a natureza do amor das inicia\u00e7\u00f5es e cerim\u00f4nias das divindades:<\/p>\n<blockquote>[&#8230;] o que quer dizer inicia\u00e7\u00e3o [&#8230;] designando cerim\u00f4nias muito precisas [&#8230;] pode-se encontrar sob a forma de transes ou de fen\u00f4menos de possess\u00e3o [&#8230;] Plat\u00e3o nos diz assim que aqueles que tiveram a inicia\u00e7\u00e3o de Zeus n\u00e3o reagem no amor como aqueles que tiveram a inicia\u00e7\u00e3o de Ares. Substituam esses nomes por aqueles que, em tal estado do Brasil, podem servir para designar tal esp\u00edrito da terra, da guerra, tal divindade soberana \u2013 n\u00e3o estamos aqui para fazer exotismo, mas \u00e9 justamente disso que se trata (p. 307).<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, Lacan nos aponta para o que ultrapassa o arcabou\u00e7o m\u00edtico ou as quest\u00f5es em torno da ontologia: trata-se do exotismo como aquilo que se faz estrangeiro ao ser e que, por isso mesmo, inclui a alteridade. A cidade-sujeito se forma tamb\u00e9m a\u00ed, nos modos de gozo transmitidos pelo som, pelo ritmo, pelos entrela\u00e7amentos dos corpos.<\/p>\n<p>Por fim, o v\u00eddeo se encerra ao som de <em>Roda de 7<\/em>, de Gabi Guedes, sob a bel\u00edssima interpreta\u00e7\u00e3o de Luiza Brito. A m\u00fasica aponta para a for\u00e7a do batuque e da dan\u00e7a \u2013 uma forma de saber-fazer com o corpo que vibra, resiste e se inscreve no tempo da cidade. Em Salvador, a rela\u00e7\u00e3o entre o toque do atabaque, o ritmo e a corporeidade revela um corpo permeado por influ\u00eancias coletivas e for\u00e7as de alteridade. A dan\u00e7a nesta cidade tamb\u00e9m emerge como gesto que responde a uma presen\u00e7a que inclui o S(\u023a): o orix\u00e1, o insond\u00e1vel.<\/p>\n<p>Salvador ou <em>Salvamor<\/em>? Porque \u00e9 na dobra entre o amor e a dor que essa cidade se sustenta \u2013 e se reinventa. Mas Salvador, ou <em>Salvamor<\/em>, n\u00e3o se fecha numa imagem. N\u00e3o h\u00e1 cart\u00e3o-postal poss\u00edvel que a diga. \u00c9 uma cidade que faz furo, que escapa \u00e0 captura, que insiste em se dizer no ritmo dos corpos, em cada batida de tambor, no grito calado dos becos, na pulsa\u00e7\u00e3o dos gestos que restam quando o sentido falha. Talvez seja isso que a torna causa de desejo para tantos.<\/p>\n<p>Convidamos a assistir o v\u00eddeo e finalizamos este texto com as palavras do poeta:<\/p>\n<blockquote><p>Deixemos, ent\u00e3o, o saber psicanal\u00edtico, esse ser fecundo em sua fugacidade, vivaz em seu alcance, se ocupar, por pouco que seja, dessa margem de liberdade que temos na lida com a loucura de cada um, quando a marca mais solit\u00e1ria de n\u00f3s faz esse n\u00f3 social, que \u00e9 tanto nosso como esse absurdo insond\u00e1vel, umbigo que nos abriga na vida.<\/p><\/blockquote>\n<p><span class=\"wpex-responsive-media\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Prece\" width=\"980\" height=\"551\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CRP6lKXVY_I?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 7: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. (1959-1960) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. (1967) In: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 248-264.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Liliane Sales Wilker Fran\u00e7a Seria poss\u00edvel pensar uma cidade-sujeito pass\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o? 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