{"id":2341,"date":"2025-12-18T08:41:24","date_gmt":"2025-12-18T11:41:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2341"},"modified":"2025-12-18T08:41:24","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:24","slug":"de-objeto-amado-a-dessexualizado-uma-crise-no-laco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/de-objeto-amado-a-dessexualizado-uma-crise-no-laco\/","title":{"rendered":"De objeto amado a dessexualizado, uma crise no la\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Graziela Vasconcelos<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n[\u2026] sujeitos que, na multiplica\u00e7\u00e3o desenfreada de parceiros, sob o imperativo de um gozo permanente e imediato, se abandonam n\u00e3o ao destino que o inconsciente lhes tra\u00e7a, mas a um consumo no qual se anula toda divis\u00e3o na estrita depend\u00eancia corporal; a sexualidade junta-se, assim, ao regime das adi\u00e7\u00f5es como outras tantas formas de preencher o vazio. \u00c9 no <em>acting<\/em> que o sujeito se defende da vergonha (Alberti, C. N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. Argumento do XV Congresso da AMP).<\/p>\n<p>Para dizer da rela\u00e7\u00e3o sexual na contemporaneidade, ou melhor, do <em>n\u00e3o-h\u00e1<\/em> da rela\u00e7\u00e3o sexual em nossos dias, Christiane Alberti, em seu Argumento para o XV Congresso da AMP, nos conduz a uma leitura acerca das \u201cparcerias amorosas\u201d \u00e0 luz de uma civiliza\u00e7\u00e3o (des)orientada por um pseudodiscurso, o do capitalista; e tendo como enquadre os problemas e paradoxos da sexualidade atual, notadamente manifestos nessa dita parceria.<\/p>\n<p>Os embara\u00e7os concernentes a uma rela\u00e7\u00e3o de casal tornaram-se um grande problema do s\u00e9culo XXI. Miller (2003) dar\u00e1 aos problemas das parcerias amorosas o estatuto de sintomas atuais, e \u00e9 precisamente o que Alberti desfia no trecho que destaco de seu argumento. Estamos diante de uma mudan\u00e7a que \u00e9 fulcral e concerne ao campo do <em>n\u00e3o-h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/em> Se antes os problemas eram os sintomas das parcerias, os ci\u00fames, a infidelidade; hoje, a parceria em si se tornou o problema, como prop\u00f5e Miller (2003, p. 15) em seu texto \u201cProblemas de pareja: cinco modelos\u201d. Ao modo dos sintomas atuais, das adi\u00e7\u00f5es, o parceiro, n\u00e3o mais na condi\u00e7\u00e3o de objeto de amor, entra na s\u00e9rie dos objetos que encarnam o suposto dom de criar algo que preencha o vazio, quando sabemos com Lacan (1953-1954\/1986), no Semin\u00e1rio 1, que esse lugar privilegiado se outorga somente \u00e0 palavra, mas n\u00e3o irei nela me deter.<\/p>\n<p>Sustentar o la\u00e7o com o outro e por meio do Outro tornou-se a afli\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o. Nesse encontro com a alteridade encarnada no parceiro e sem a \u00e9gide do Outro simb\u00f3lico, o imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual catapulta o sujeito na elabora\u00e7\u00e3o de uma solu\u00e7\u00e3o que a fa\u00e7a existir. Para cada sujeito, sua solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica: a uns, o objeto droga; a outros, o objeto nada. Aqui, proponho o objeto parceiro; sendo um novo, ou talvez v\u00e1rios, o que Alberti chama de multiplica\u00e7\u00e3o desenfreada, tem como meta tamponar a falta. Este objeto \u201camado\u201d traslada de uma posi\u00e7\u00e3o de causa de desejo, que implica a divis\u00e3o subjetiva, ao lugar de dessexualizado.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um ponto fundamental que Alberti p\u00f5e em relevo no desenvolvimento de seu argumento e que nos exige uma imers\u00e3o a maior profundidade. Para isso, ela nos aparelha com o que Lacan (1964\/1985, p. 147) prop\u00f5e em seu Semin\u00e1rio 11 ao colocar em jogo o termo <em>dessexualiza\u00e7\u00e3o<\/em>. Lacan aponta que a oposi\u00e7\u00e3o que faz Freud do princ\u00edpio de realidade ao princ\u00edpio do prazer se d\u00e1 em raz\u00e3o de que a\u00ed a realidade \u00e9 definida como dessexualizada. Esse car\u00e1ter dessexualizado da realidade, como nos disse Alberti, funciona como chave de leitura para pensar o desencanto, ou at\u00e9 o recha\u00e7o, que se produz na contemporaneidade, ao que se refere ao sexual, quando o parceiro, enquanto esse objeto, \u201cse evade rumo \u00e0 vertente da realidade\u201d.<\/p>\n<p>Em cada novo modo de constitui\u00e7\u00e3o de parcerias, que distinguimos na profus\u00e3o de op\u00e7\u00f5es \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o; a cada troca de parceiro, que denuncia a instabilidade dos v\u00ednculos com o outro; algo de uma mostra\u00e7\u00e3o parece estar em jogo. \u00c9 o que, no argumento de Alberti, aparentemente, n\u00e3o passa despercebido e que ela enuncia da seguinte forma: \u201c\u00c9 no <em>acting<\/em> que o sujeito se defende da vergonha.\u201d<\/p>\n<p>Tomarei, para precisar a minha leitura acerca desse enunciado, dois aspectos do desenvolvimento que faz Lacan (1962-1963\/2005) sobre o <em>acting out<\/em> em seu Semin\u00e1rio 10: o primeiro, o car\u00e1ter de resto, objeto <em>a<\/em>, naquilo que \u00e9 mostrado, e que ser\u00e1 a marca sempre encontrada no <em>acting<\/em>; segundo, o fato de que o <em>acting out<\/em> exige a entrada do Outro, um chamado a ele. Ora, estes s\u00e3o dois aspectos centrais na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, a que Domenico Cosenza (2024) nomeou de cl\u00ednica do excesso: uma precariedade na cess\u00e3o do objeto, ficando o sujeito excessivamente pr\u00f3ximo a ele; e uma certa falha na entrada em cena do Outro.<\/p>\n<p>O que se presentifica, portanto, me parece, \u00e9 a ang\u00fastia em sua dimens\u00e3o de gozo, ocultado sob o manto da vergonha, da qual, no <em>acting<\/em>, se defende o sujeito. Esse modo de defesa portaria em si um apelo ao Outro, como um pedido de socorro que apenas por meio do resto se pode escutar? Talvez a introdu\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o do desejo, que n\u00e3o \u00e9 sem o Outro, por meio da palavra, nesse oceano de gozo, permita ao falasser uma <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em>, nos termos de Miller, para se haver com o <em>n\u00e3o-h\u00e1<\/em> da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">ALBERTI, C. N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. Site do XV Congresso da AMP 2026. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/congresamp.com\/pt\/blog\/nao-ha-relacao-sexual\/.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">COSENZA, D. <em>Cl\u00ednica do excesso<\/em>: derivas pulsionais e solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas na psicopatologia contempor\u00e2nea. Belo Horizonte: Scriptum Ed., 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 1: <em>Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Betty Milan. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 10: <em>A ang\u00fastia<\/em>. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, J.-A. Problemas de pareja, cinco modelos. (2003) In: MILLER, J.-A. et al. <em>La pareja y el amor<\/em>: conversaciones clinicas con Jaques-Alain Miller en Barcelona. Buenos Aires: Paid\u00f3s Ed., 2003.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graziela Vasconcelos Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia [\u2026] sujeitos que, na multiplica\u00e7\u00e3o desenfreada de parceiros, sob o imperativo de um gozo permanente e imediato, se abandonam n\u00e3o ao destino que o inconsciente lhes tra\u00e7a, mas a um consumo no qual se anula toda divis\u00e3o na estrita depend\u00eancia corporal; a sexualidade junta-se, assim, ao&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2341","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-026","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2341"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2342,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2341\/revisions\/2342"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2341"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}