{"id":2349,"date":"2025-12-18T08:41:24","date_gmt":"2025-12-18T11:41:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2349"},"modified":"2025-12-18T08:41:24","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:24","slug":"lenda-letra-desejo-e-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/lenda-letra-desejo-e-amor\/","title":{"rendered":"L\u00ea(n)da: letra, desejo e amor"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Raquel Matias<br \/>\n<\/em><\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<br \/>\nH\u00e1 textos que n\u00e3o se leem \u2013 acontecem!<\/p>\n<p>S\u00e3o encontros que abrem uma fenda no saber, e, por ali, algo passa, se inscreve, toca o corpo. Assim foi o meu encontro com a escrita de L\u00eada Guimar\u00e3es. Um encontro sem rosto, sem presen\u00e7a imagin\u00e1ria, mas de uma presen\u00e7a real, feita de uma escrita que se oferece como passagem do desejo e n\u00e3o como doutrina.<\/p>\n<p>Hoje, ao apresentar este livro, <em>O que \u00e9 ser homem?<\/em>, sinto-me diante de um novo acontecimento de leitura. Porque a quest\u00e3o que L\u00eada nos lan\u00e7a \u2013 e que ecoa nesta mesa \u2013 n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma pergunta sobre o homem. \u00c9, antes, uma pergunta cortante sobre o nosso tempo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que \u00e9 ser homem, hoje, quando o masculino declina e o semblante de virilidade se desfaz no ar do tempo? L\u00eada n\u00e3o responde \u2013 ela escuta. E, escutando, nos ensina a sustentar a pergunta, a n\u00e3o ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de preencher o furo com defini\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis. \u00c9 por isso que sua obra segue viva: porque nela o saber n\u00e3o se fecha, mas vibra no n\u00e3o-saber que move o desejo.<\/p>\n<p>No meu pr\u00f3prio percurso, que tamb\u00e9m passou por ser Mais-um do cartel que mergulha nos textos de L\u00eada, percebo que foi percorrendo os desfiladeiros do feminino que me aproximei do, n\u00e3o menos enigm\u00e1tico, masculino. O feminino, em sua rela\u00e7\u00e3o com o indiz\u00edvel, sussurrou-me que h\u00e1 uma \u00e9tica do n\u00e3o-todo, um modo de sustentar o imposs\u00edvel sem querer reduzi-lo. E foi justamente esse sussurro surpreendente que me permitiu escutar o masculino desde sua opacidade, em seu mal-estar, em sua vulnerabilidade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que o trabalho de L\u00eada se costura ao meu e ao de tantos outros: n\u00e3o como continuidade linear, mas como bordado em movimento, cheio de fios que se afrouxam e se enla\u00e7am. Porque o que se transmite na psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma doutrina \u2013 \u00e9 um modo de trabalhar, uma \u00e9tica. \u00c9 a coragem de manter viva a interroga\u00e7\u00e3o, de se deixar surpreender pelo que o inconsciente ainda tem a dizer.<\/p>\n<p>Afinal, o que \u00e9 estar vivo, sen\u00e3o isso? Manter o desejo em trabalho, suportar o que n\u00e3o se sabe, deixar-se afetar por aquilo que nos ultrapassa.<\/p>\n<p>L\u00eada soube disso. Sua escrita \u00e9 feita desse entrela\u00e7amento entre rigor e risco, entre o conceito e o corpo. \u00c9 uma escrita que pensa e transpira, que se oferece \u00e0 leitura como experi\u00eancia, n\u00e3o como explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O livro de L\u00eada chega, agora, n\u00e3o como uma \u00faltima p\u00e1gina, mas como um chamado: a seguir lendo, seguir escutando, seguir bordando os fios que ela deixou em suspenso.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Liliane Sales, Luis Salamone e Nieves Soria nesta mesa tamb\u00e9m fala disso: daquilo que se tece entre analistas, nas bordas da transfer\u00eancia de trabalho, onde a amizade e o desejo se encontram. Liliane, organizadora deste livro, amiga \u00edntima, doce porta-voz da mulher extraordin\u00e1ria que L\u00eada foi; Luis, parceiro de escrita e de percurso com L\u00eada; Nieves, companheira de reflex\u00e3o e de la\u00e7o, autora do pref\u00e1cio que nos guia. Cada um deles, a seu modo, testemunha essa vitalidade do trabalho que n\u00e3o se interrompe com a morte, mas se reinventa no la\u00e7o e na leitura.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que vida e morte se tornam indiscern\u00edveis. Porque a psican\u00e1lise, quando \u00e9 viva, pulsa nesse limite: onde o amor toca o saber, e o saber se confirma no corpo.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse ponto que, em nome de tantos que foram atravessados pela palavra de L\u00eada, eu digo: a psican\u00e1lise segue viva. Segue viva enquanto houver quem a deseje, quem por ela se deixe interrogar e aceite surpreender-se.<\/p>\n<p>A Psican\u00e1lise segue viva enquanto houver letra, desejo e amor. Viva L\u00eada! Viva a Psican\u00e1lise!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raquel Matias Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia H\u00e1 textos que n\u00e3o se leem \u2013 acontecem! S\u00e3o encontros que abrem uma fenda no saber, e, por ali, algo passa, se inscreve, toca o corpo. 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