{"id":2351,"date":"2025-12-18T08:41:24","date_gmt":"2025-12-18T11:41:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2351"},"modified":"2025-12-18T08:41:24","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:24","slug":"a-escrita-viva-de-leda-sobre-o-enigma-e-o-segredo-do-masculino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/a-escrita-viva-de-leda-sobre-o-enigma-e-o-segredo-do-masculino\/","title":{"rendered":"A escrita viva de L\u00eada sobre o enigma e o segredo do masculino"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Nieves Soria<\/strong><\/em><br \/>\nAME EOL\/ AMP<\/p>\n<p>Boa tarde! \u00c9 um prazer enorme estar aqui. Ainda estou emocionada com as palavras de Liliane, a quem queria agradecer o convite para escrever o pref\u00e1cio deste livro t\u00e3o original e interessante, que vamos comentar agora com o Luis, e agradecer ao cartel o convite para participar desta apresenta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m me d\u00e1 muita alegria ver, aqui no Zoom, o audit\u00f3rio da querida Se\u00e7\u00e3o Bahia, \u00e0 qual envio um forte abra\u00e7o, e aos colegas da EBP de outras Se\u00e7\u00f5es, que est\u00e3o aqui presentes.<\/p>\n<p>Para mim, nesta homenagem a L\u00eada, todas as palavras que foram ditas sobre ela, at\u00e9 este momento, a trouxeram de um modo muito claro. Era uma presen\u00e7a absolutamente \u00fanica e original. A presen\u00e7a de uma colega saudosa de quem sempre me chegou muito a do\u00e7ura. Sempre me tocou muito a do\u00e7ura de L\u00eada, que seguramente tinha a ver com sua voz, como destacou Pablo, e acho que \u00e9 uma colega que deixou muitas marcas na comunidade anal\u00edtica, n\u00e3o somente na Escola Brasileira. E se tem algo que pode ser lido nestas p\u00e1ginas e que tamb\u00e9m se escutou nas apresenta\u00e7\u00f5es que acabamos de ouvir, \u00e9 \u201co vivo\u201d de sua presen\u00e7a; essa presen\u00e7a viva que tamb\u00e9m se pode apalpar na letra de sua escrita. Tamb\u00e9m ficou para mim, das apresenta\u00e7\u00f5es que fizeram Raquel e Liliane, o que disse Raquel da leitura como experi\u00eancia. Parece-me que, efetivamente, se h\u00e1 algo que transmite este livro \u00e9 justamente a leitura como uma experi\u00eancia. E do que colocava Liliane como algo desse estilo de L\u00eada t\u00e3o feminino. Ela falou da sedu\u00e7\u00e3o, da perturba\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lembro exatamente, mas de certa precis\u00e3o na maneira de dizer as coisas, de certo modo muito direto de nomear e dizer as coisas.<\/p>\n<p>Convidaram-me para que falasse um pouco do que escrevi no pref\u00e1cio. Ent\u00e3o, vou comentar alguns pontos. Para come\u00e7ar, quando leio o livro, o que encontro, como lhes dizia h\u00e1 pouco, \u00e9 a presen\u00e7a viva de L\u00eada, como a conheci em sua vida, pesquisando com paix\u00e3o, renovando perguntas, causada por uma transfer\u00eancia de trabalho. N\u00e3o tive encontros frequentes com ela, mas, sempre que a encontrava, a via animada por uma paix\u00e3o e parecia-me uma trabalhadora incans\u00e1vel e sempre realizando um trabalho de Escola; sempre no marco de uma transfer\u00eancia de trabalho da qual este livro \u00e9 um claro testemunho. A transfer\u00eancia de trabalho percorre todas as p\u00e1ginas deste livro, um verdadeiro trabalho de Escola. E este livro \u00e9 um verdadeiro trabalho de Escola em ato. H\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o das mulheres, que L\u00eada gosta de citar, quando Lacan disse da mulher como real e verdadeira. H\u00e1 algo disso que encontro na leitura destes textos: um dizer real e verdadeiro, e uma enuncia\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante, porque \u00e9 um livro que, j\u00e1 desde o pr\u00f3prio t\u00edtulo \u2013 <em>O que \u00e9 ser um homem<\/em> \u2013, se coloca, com toda a consist\u00eancia e com toda a for\u00e7a, como uma interroga\u00e7\u00e3o nesta \u00e9poca de apagamento da diferen\u00e7a sexual. Em uma \u00e9poca na qual prevalece o apagamento da diferen\u00e7a sexual, que \u00e9 um resultado do avan\u00e7o do discurso da ci\u00eancia sobre o corpo, da tecnoci\u00eancia sobre o corpo, L\u00eada n\u00e3o tem nenhum receio em falar de homens e mulheres e de retomar a quest\u00e3o, levantada por Lacan, de homens e mulheres como duas esp\u00e9cies diferentes. Por\u00e9m, n\u00e3o apenas isso. Ela tamb\u00e9m levanta uma pergunta que, dentro do campo psicanal\u00edtico, jamais encontrei colocada desse modo.<\/p>\n<p>Sempre se considerou o fato de que se sabia o que \u00e9 ser um homem e sempre o enigma se encontrou do lado do feminino, o enigma do feminino, o continente desconhecido etc. etc. E acontece que esta mulher, psicanalista, tem a aud\u00e1cia de levantar a pergunta sobre que \u00e9 ser um homem e tamb\u00e9m de colocar o enigma do masculino. Liliane falava dos segredos dos homens, quando classicamente o segredo, desde Freud, aparentava ser predom\u00ednio do feminino. No entanto, L\u00eada n\u00e3o tem nenhum problema em falar do enigma do masculino, do segredo do masculino, de interrogar essa posi\u00e7\u00e3o e, como destacou Raquel, em n\u00e3o dar respostas, sen\u00e3o fazer perguntas. Fazer as boas perguntas, e fazer as boas perguntas para quem vai poder dar uma resposta.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 muito interessante, porque tamb\u00e9m este \u00e9 um livro sobre o final de an\u00e1lise dos homens, e suas perguntas se dirigem fundamentalmente aos AE da Escola Una, dentre os quais, ao menos vejo que h\u00e1 dois aqui presentes, Luis Salamone e Bernardino Horne, que a acompanharam t\u00e3o de perto em todas as suas elabora\u00e7\u00f5es e foram interlocutores privilegiados de L\u00eada e dos quais ela retoma, uma e outra vez, seus desenvolvimentos e seus aportes \u00e0 cl\u00ednica da sexualidade masculina, no final de an\u00e1lise, ou desde o final de an\u00e1lise, porque acho que \u00e9 isso o que eles constroem: uma cl\u00ednica da sexualidade masculina desde o final de an\u00e1lise. E, desde a\u00ed, iluminam quest\u00f5es que, com efeito, permaneciam obscuras.<\/p>\n<p>E acontece que havia muitas coisas que n\u00e3o sab\u00edamos. H\u00e1 muitas coisas que n\u00e3o sabemos sobre o que \u00e9 ser um homem. Se tem algo que este livro coloca em evid\u00eancia \u00e9 esse furo no saber, que est\u00e1 velado, em torno do que \u00e9 ser um homem. Lembro que Lacan diz de passagem, em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, que n\u00e3o somente n\u00e3o h\u00e1 o significante da mulher, sen\u00e3o que tampouco h\u00e1 o significante do homem e que a mulher somente encontra o homem na psicose. Isto \u00e9, com efeito, se n\u00e3o h\u00e1 significante do homem, ent\u00e3o, bom, tampouco sabemos o que \u00e9 ser um homem. Mas, ningu\u00e9m tinha ousado levantar a pergunta com esta clareza e essa espontaneidade t\u00e3o feminina, pr\u00f3pria de L\u00eada.<\/p>\n<p>Outra coisa que comento, no meu pr\u00f3logo, \u00e9 que leio uma posi\u00e7\u00e3o amorosa para com os homens, nesta pesquisa que realiza L\u00eada, na qual os interroga. Digo, interroga-os amorosamente, interroga-os buscando entender ou clarear alguns enigmas e consegue realizar uma escrita na qual v\u00e3o se clareando algumas quest\u00f5es muito fundamentais sobre a sexualidade masculina.<\/p>\n<p>No pref\u00e1cio, digo que encontro algumas p\u00e9rolas neste livro. Seguramente, cada um encontrar\u00e1 as suas, orientado por suas pr\u00f3prias perguntas, por seu pr\u00f3prio desejo. Talvez, destaque apenas algumas para deixar aberto o apetite para a leitura deste livro t\u00e3o fundamental para a psican\u00e1lise, que tamb\u00e9m acho que seria muito interessante se pudesse ser publicado em espanhol. Acredito que, tamb\u00e9m aos colegas hispano-falantes, lhes pode interessar muito. E acredito, como j\u00e1 falei, que \u00e9 um aporte t\u00e3o original, que verdadeiramente vale a pena que circule, tamb\u00e9m entre outras l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, algumas pequenas p\u00e9rolas. Gostei muito da descri\u00e7\u00e3o que ela faz de algo que diz encontrar em sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica, isto \u00e9, de sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica e de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia: a constata\u00e7\u00e3o de que os homens vivem subjetivamente em dois mundos. Um mundo discursivo com o qual se apresentam ante os outros, falando sobre si mesmos e um mundo secreto, intransmiss\u00edvel, solit\u00e1rio, inconfess\u00e1vel. E \u00e9 interessante tamb\u00e9m como esses dois mundos aos quais se refere em mais de uma oportunidade, ao longo do livro, tamb\u00e9m se articulam com os dois fantasmas do homem, o que soube clarear Bernardino Horne e de cuja transmiss\u00e3o L\u00eada recolhe a luva. Esta divis\u00e3o entre o fantasma masculino \u2013 s\u00e1dico, ligado \u00e0s fantasias sexuais, utilizadas para a excita\u00e7\u00e3o sexual, e o fantasma feminino \u2013 masoquista, ligado \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de objeto no fantasma fundamental. Considero que essas duas distin\u00e7\u00f5es, entre dois mundos, entre dois fantasmas, enriquecem a cl\u00ednica da sexualidade masculina.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que acho muito interessante e que \u00e9 algo da marca de L\u00eada: a maneira de diz\u00ea-lo. Porque, de algum modo, isso est\u00e1 em Lacan, \u00e9 retomado por Miller; mas a maneira como o disse L\u00eada, esse deslocamento da falta da mulher para o homem e, ent\u00e3o, a import\u00e2ncia de abordar a sexualidade masculina a partir da falta, do homem como faltante, diz ela. Acho que isso tamb\u00e9m \u00e9 um achado, como um ponto de capiton\u00ea, para abordar a sexualidade masculina. E depois, toda a quest\u00e3o da cl\u00ednica da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o masculina, em que vai se apoiar fortemente nos desenvolvimentos de Luis Salamone que, como j\u00e1 foi dito e tamb\u00e9m figura no livro que eles escreveram juntos: um livro sobre um homem e uma mulher depois da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, toda a cl\u00ednica da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o no homem e como ela recorta, especialmente, dos aportes de Luis Salamone a universaliza\u00e7\u00e3o da impot\u00eancia ps\u00edquica, al\u00e9m das desventuras do \u00f3rg\u00e3o. Como uma posi\u00e7\u00e3o estrutural do homem ante \u2013 e isto tamb\u00e9m \u00e9 outra coloca\u00e7\u00e3o de Luis, que me parece que L\u00eada sublinha e atesoura especialmente, que essa ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o no menino \u00e9 ante o encontro com o corpo feminino, a dimens\u00e3o corporal feminina. Essa dimens\u00e3o corporal, tanto do feminino como do \u00f3rg\u00e3o, est\u00e3o muito presentes e atravessam todo este livro, colocando em primeiro plano algo que provoca horror na \u00e9poca do discurso capitalista: o real anat\u00f4mico dos sexos e suas incid\u00eancias no campo do gozo. Aquilo que Freud j\u00e1 colocava em seu texto \u201cAlgumas consequ\u00eancias ps\u00edquicas da diferen\u00e7a anat\u00f4mica dos sexos\u201d. \u00c9 de inspira\u00e7\u00e3o freudiana toda a leitura que faz L\u00eada, ainda que n\u00e3o cite tanto Freud. No entanto, \u00e9 de inspira\u00e7\u00e3o freudiana a leitura que realiza e a maneira como l\u00ea os testemunhos dos AE que interroga.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a quest\u00e3o da ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o, a dimens\u00e3o f\u00f3bica masculina, essa tamb\u00e9m me parece que \u00e9 muito interessante: essa nomina\u00e7\u00e3o de fobia para a ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o no menino, que d\u00e1 um sesgo f\u00f3bico ao menino, se podemos dizer assim. Acho que isso tamb\u00e9m \u00e9 muito interessante.<\/p>\n<p>A maneira como l\u00ea o mort\u00edfero da rela\u00e7\u00e3o ed\u00edpica com a m\u00e3e no menino, uma que acho tamb\u00e9m muito interessante, e um par de quest\u00f5es mais. E acredito que sejam quest\u00f5es para continuar pesquisando.<\/p>\n<p>Quando lemos tudo o que vai se desenvolvendo no livro sobre a sexualidade masculina, vemos que h\u00e1 uma estreita rela\u00e7\u00e3o com a neurose obsessiva. J\u00e1 Freud colocava que h\u00e1 uma intima rela\u00e7\u00e3o entre neurose obsessiva e masculinidade e histeria e feminilidade. Isso \u00e9 de constata\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, por\u00e9m n\u00e3o se costuma desenvolver essa rela\u00e7\u00e3o entre neurose obsessiva e masculinidade, histeria e feminilidade. N\u00e3o se costuma argumentar, n\u00e3o se costuma fundamentar, porque traz o espinhoso problema do anat\u00f4mico. Porque, quando dizemos masculinidade, a\u00ed estamos falando que a grande maioria dos neur\u00f3ticos obsessivos resulta que s\u00e3o meninos, e isso \u00e9 inc\u00f4modo. Isso \u00e9 inc\u00f4modo e, por sua vez, \u00e9 interessante, porque isso \u00e9 real. Assim \u00e9 a pr\u00e1tica e \u00e9 interessante abordar esse real tal como ele \u00e9. Abordar o que h\u00e1, n\u00e3o o que deveria ser. O que \u00e9.<\/p>\n<p>Acho que ela n\u00e3o tem nenhum problema com isso, o faz muito diretamente, n\u00e3o se questiona, n\u00e3o tem nenhum escr\u00fapulo, n\u00e3o se preocupa por n\u00e3o ser politicamente correta e avan\u00e7a como tem que avan\u00e7ar um analista, al\u00e9m dos ideais da \u00e9poca, para interrogar o real de sua pr\u00e1tica. E acho isso um ato de grande aud\u00e1cia da parte de L\u00eada.<\/p>\n<p>Outro ato de grande aud\u00e1cia \u00e9 o de dessacralizar o gozo feminino, dessacralizar o lugar da mulher como <em>sinthoma<\/em>. Ent\u00e3o, ela pode chegar a dizer, por um lado, que para um menino o gozo que h\u00e1 \u00e9 o gozo f\u00e1lico. N\u00e3o se trata de que chegue ao gozo feminino, trata-se de que possa passar pela castra\u00e7\u00e3o para poder fazer amor com uma mulher, n\u00e3o de que alcance o gozo feminino. Os limites da estrutura do campo do gozo, ligados novamente ao dual do sexo e tamb\u00e9m \u00e0 ideia de que uma mulher no lugar de <em>sinthoma<\/em> n\u00e3o \u00e9 mais do que a mulher como objeto do fantasma do homem, e que justamente para que um homem possa encontrar-se com uma mulher, esse lugar de <em>sinthoma<\/em> tem que vacilar.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m \u00e9 uma dessacraliza\u00e7\u00e3o muito interessante do <em>sinthoma<\/em>. Bem, haveria muitas quest\u00f5es mais. \u00c9 um livro muito interessante que coloca surpresas e novidades a cada p\u00e1gina; ent\u00e3o, aos que n\u00e3o o leram, convido-os a l\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o: Pablo Sauce<br \/>\nRevis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o: Ma\u00edra Valente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nieves Soria AME EOL\/ AMP Boa tarde! \u00c9 um prazer enorme estar aqui. 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