{"id":2353,"date":"2025-12-18T08:41:24","date_gmt":"2025-12-18T11:41:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2353"},"modified":"2025-12-18T08:41:24","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:24","slug":"apresentacao-do-livro-o-que-e-ser-homem-que-significa-ser-un-hombre-de-leda-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/apresentacao-do-livro-o-que-e-ser-homem-que-significa-ser-un-hombre-de-leda-guimaraes\/","title":{"rendered":"Apresenta\u00e7\u00e3o do livro O que \u00e9 ser homem? (\u00bfQu\u00e9 significa ser un hombre?), de L\u00eada Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Luis Dar\u00edo Salamone<br \/>\n<\/em><\/strong>AME EOL\/AMP<\/p>\n<p>Boa tarde. Lamento muito n\u00e3o falar portugu\u00eas, mal falo castelhano. E ainda por cima, costumo falar r\u00e1pido demais. Vou tentar diminuir minha velocidade habitual. Qualquer coisa, por favor, me avisem.<\/p>\n<p>Para mim, \u00e9 uma alegria compartilhar este momento com voc\u00eas. Agrade\u00e7o muito o convite. \u00c9 lindo lembrar de L\u00eada.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o imensamente o trabalho de Liliane com este livro. Ele j\u00e1 faz parte de algo que estou escrevendo, um livro que se chama <em>Tratado de la obsesi\u00f3n<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 um prazer compartilhar esta apresenta\u00e7\u00e3o com Pablo, Raquel e Nieves. Um prazer estar com todos os colegas do Brasil e de outros lugares. Com Andr\u00e9 Guimar\u00e3es, com pessoas queridas como Iordan e com Bernardino, cujo excelente livro sobre a velhice acabei de ler.<\/p>\n<p>Conheci L\u00eada a partir de um de seus testemunhos. N\u00e3o \u00e9ramos amigos, nem nos conhec\u00edamos. Quando conseguimos nos sentar para tomar um caf\u00e9, eu disse a ela que, no que diz respeito ao gozo feminino, ela era uma das \u00fanicas pessoas com quem eu concordava. Fundamentalmente porque ambos separ\u00e1vamos o gozo feminino do superegoico, enquanto muitos analistas pareciam confundi-los. Eu tinha feito minha tese de doutorado sobre o tema e havia chegado a essa conclus\u00e3o por dois caminhos: a matem\u00e1tica lacaniana e a literatura, suas refer\u00eancias \u00e0 poesia m\u00edstica. Ela havia chegado a essa conclus\u00e3o por sua pr\u00f3pria experi\u00eancia anal\u00edtica. Lembro que, quando nos sentamos num bar, ela desenhou um esquema num guardanapo que me esclareceu de forma simples a diferen\u00e7a entre o gozo feminino e o f\u00e1lico \u2013 com dois vetores, mostrou que n\u00e3o se tratava de uma quest\u00e3o de quantidade (mais orgasmos, o que remete a algo cont\u00e1vel, f\u00e1lico), mas de qualidade, e como esse gozo se d\u00e1 al\u00e9m da dimens\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Conversamos longamente sobre o gozo do homem e da mulher ao final da an\u00e1lise. Ambos pensamos que dever\u00edamos fazer algo e decidimos escrever juntos um livro. Depois daquela conversa, daquela \u00fanica conversa, havia algo que nos unira para sempre. N\u00e3o era uma \u00e9poca de auge da internet. Talvez hoje tiv\u00e9ssemos dado um semin\u00e1rio por Zoom. Uma brasileira e um argentino publicando um livro com a caracter\u00edstica de estar em portugu\u00eas e castelhano. Convidamos um espanhol, Miquel Bassols, ent\u00e3o presidente de nossa institui\u00e7\u00e3o, para escrever o pref\u00e1cio. Foi realmente um livro que nasceu dentro da AMP.<\/p>\n<p>Eu havia terminado meu trabalho como AE e tinha acabado de publicar um extenso texto sobre meu testemunho chamado \u201cLa aventura de un an\u00e1lisis\u201d. Por isso meu texto foi te\u00f3rico, o de L\u00eada testemunhal.<\/p>\n<p>L\u00eada Guimar\u00e3es foi uma analista de uma lucidez extraordin\u00e1ria, uma mulher que pensou a psican\u00e1lise desde seu desejo. Era uma mulher de desejo, com uma intensidade que a aproximava tanto da cl\u00ednica quanto da poesia. Depois de ter interrogado durante anos o gozo feminino, ela voltou sua pergunta para o outro lado do mapa: o homem. O que \u00e9 ser homem? Essa pergunta, que \u00e0 primeira vista remete \u00e0 identidade, no campo da psican\u00e1lise se abre ao imposs\u00edvel: ao modo como um sujeito se situa diante da falta, do gozo e do amor.<\/p>\n<p>Neste livro, L\u00eada desenvolve uma investiga\u00e7\u00e3o que \u00e9 mais do que te\u00f3rica: \u00e9 uma experi\u00eancia de transmiss\u00e3o. Sua escrita se enra\u00edza no desejo de saber, mas tamb\u00e9m no desejo de escutar. Escutar os homens analistas (os chamados AE, Analistas da Escola) ap\u00f3s o final de sua an\u00e1lise, quando o gozo foi reconfigurado e a palavra adquire a espessura do vivido. Ali, nessas vozes, L\u00eada interroga com delicadeza e acuidade: pode um homem acessar o gozo feminino? Pode amar sem devorar, desejar sem degradar, sustentar o amor sem a media\u00e7\u00e3o do falo?<\/p>\n<p>Para L\u00eada, a diferen\u00e7a entre os sexos se joga, como em Lacan, numa l\u00f3gica do gozo e numa maneira de habitar o desejo. Ela situa a quest\u00e3o no pr\u00f3prio n\u00facleo do enigma humano.<\/p>\n<p>O homem, ela diz, vive em dois mundos: o discursivo, onde fala de si, e o secreto, onde seu gozo \u00e9 guardado como um tesouro ou uma vergonha. Entre esses dois mundos instala-se a impot\u00eancia ps\u00edquica, essa forma de limite que Freud descreveu como universal na civiliza\u00e7\u00e3o, e que L\u00eada rel\u00ea \u00e0 luz do pensamento de Lacan como um modo estrutural de defesa frente \u00e0 invas\u00e3o do gozo feminino.<\/p>\n<p>O livro avan\u00e7a, ent\u00e3o, como uma cartografia do gozo masculino: o horror f\u00f3bico do homem, sua ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o, o ref\u00fagio obsessivo, a fascina\u00e7\u00e3o pelo <em>sinthoma<\/em> que encarna a mulher. Mas tamb\u00e9m, e sobretudo, sua possibilidade de deslocamento. Porque o que aqui se interroga \u00e9 a possibilidade de transformar um destino. Uma transforma\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o subjetiva. Quando um homem atravessa seu fantasma e se confronta com sua pr\u00f3pria falta, pode deixar de fazer do outro um objeto de \u00f3dio ou idealiza\u00e7\u00e3o. Pode amar sem compreender.<\/p>\n<p>Na escrita de L\u00eada, h\u00e1 algo profundamente vital. Seu modo de pensar a psican\u00e1lise n\u00e3o separa o rigor conceitual da intensidade do desejo. Cada frase sua vibra com a m\u00fasica de quem viveu o ato anal\u00edtico como uma paix\u00e3o \u00e9tica. Em <em>O que \u00e9 ser homem?<\/em>, essa paix\u00e3o se torna ainda mais audaz: a de uma mulher que ama os homens, que ousa lhes perguntar, que n\u00e3o os julga nem os absolve, mas os interroga desde o amor e o saber. Essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 o que torna este livro um acontecimento: um gesto de pensamento que, a partir da diferen\u00e7a, prop\u00f5e outra forma de rela\u00e7\u00e3o entre os sexos, fora da idealiza\u00e7\u00e3o, no terreno incerto e fecundo do gozo.<\/p>\n<p>Quando L\u00eada Guimar\u00e3es pergunta o que \u00e9 um homem, ela est\u00e1 longe de buscar uma defini\u00e7\u00e3o \u2013 fala de sua experi\u00eancia, do que escutou na cl\u00ednica, da maneira como um sujeito habita sua falta, seu desejo e seu gozo.<\/p>\n<p>Desde Freud, sabemos que o homem est\u00e1 marcado pela impot\u00eancia, pela cis\u00e3o entre amor e desejo, pela ang\u00fastia diante do corpo feminino que encarna o irrepresent\u00e1vel. Mas L\u00eada leva essa pergunta mais longe: interroga o mist\u00e9rio do gozo nos homens, sua maneira de amar, sua defesa diante do excesso, sua tentativa de sustentar-se na l\u00f3gica f\u00e1lica para n\u00e3o cair no ilimitado. L\u00eada escuta os homens. A diferen\u00e7a entre os sexos torna-se um campo de interroga\u00e7\u00e3o \u2013 com essa paix\u00e3o e ternura que a caracterizavam.<\/p>\n<p>L\u00eada Guimar\u00e3es \u00e9 uma mulher que olha para o homem a partir do amor e se atreve a escutar aquilo que, em alguns homens, ro\u00e7a o imposs\u00edvel: esse tremor do corpo que se abre ao gozo feminino.<\/p>\n<p>Em sua escrita, o homem torna-se um enigma vivo, vulner\u00e1vel, desejante. A partir desse olhar, <em>O que \u00e9 ser homem?<\/em> n\u00e3o busca responder \u00e0 pergunta do t\u00edtulo, mas mant\u00ea-la aberta: mais do que saber o que \u00e9 um homem, trata-se de seguir escutando o que ele pode vir a ser quando o amor e o gozo deixam de se excluir.<\/p>\n<p>Como bem diz Nieves no pref\u00e1cio (n\u00e3o haveria maneira melhor de expressar), neste livro pude escutar essa voz amorosa de L\u00eada que permanece viva em sua letra.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: J\u00falia Jones<br \/>\nRevis\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o: Ma\u00edra Valente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Dar\u00edo Salamone AME EOL\/AMP Boa tarde. Lamento muito n\u00e3o falar portugu\u00eas, mal falo castelhano. E ainda por cima, costumo falar r\u00e1pido demais. Vou tentar diminuir minha velocidade habitual. Qualquer coisa, por favor, me avisem. Para mim, \u00e9 uma alegria compartilhar este momento com voc\u00eas. 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