{"id":2357,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2357"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"clarice-no-litoral-pegar-a-palavra-com-a-mao-e-voltar-com-as-maos-vazias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/clarice-no-litoral-pegar-a-palavra-com-a-mao-e-voltar-com-as-maos-vazias\/","title":{"rendered":"Clarice no litoral: pegar a palavra com a m\u00e3o e voltar com as m\u00e3os vazias"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Wilker Fran\u00e7a<br \/>\n<\/em><\/strong>Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>\u201cComo come\u00e7ar pelo in\u00edcio, se as coisas acontecem antes de acontecer?\u201d, perguntou-se Clarice Lispector (1998a) no in\u00edcio de <em>A hora da estrela<\/em>. E \u00e9 bem antes de este texto acontecer que ele j\u00e1 vem acontecendo, seja quando participei de uma discuss\u00e3o em uma atividade de Interc\u00e2mbio na EBP-BA, em 2023, com Luz Horne, seja em meados dos anos 2000, \u00e9poca em que eu s\u00f3 lia Clarice e resistia a qualquer outro escritor; ou agora, em um exerc\u00edcio de escrita, em um papel <em>instante-j\u00e1,<\/em> conversando com Freud e Lacan.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Clarice imigrou para escapar da guerra que assolava o pa\u00eds onde moravam. A m\u00e3e de Clarice faleceu quando ela tinha apenas dez anos, v\u00edtima de paralisia progressiva, possivelmente decorrente da s\u00edfilis, doen\u00e7a ent\u00e3o sem cura (MOSER, 2017). Mas, como as coisas acontecem antes de acontecer, h\u00e1 uma hist\u00f3ria que antecede o nascimento de Clarice. Ela mesma nos relata parte dessa hist\u00f3ria em \u201cPertencer\u201d, inclu\u00eddo em <em>A descoberta do mundo<\/em>:<\/p>\n<blockquote><p>Por motivos que nem minha m\u00e3e nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida. No entanto, fui preparada para ser dada \u00e0 luz de um modo t\u00e3o bonito. Minha m\u00e3e j\u00e1 estava doente, e, por uma supersti\u00e7\u00e3o bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doen\u00e7a. Ent\u00e3o fui deliberadamente criada: com amor e esperan\u00e7a. S\u00f3 que n\u00e3o curei minha m\u00e3e. E sinto at\u00e9 hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma miss\u00e3o determinada e eu falhei (Lispector, 2019, p. 110).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 a partir dessa falha que Clarice se fez. Mas, longe de tentar interpret\u00e1-la, ela mesma nos diz: \u201cEu escrevo como se fosse para salvar a vida de algu\u00e9m. Provavelmente a minha pr\u00f3pria vida. Viver \u00e9 uma esp\u00e9cie de loucura que a morte faz\u201d (Lispector, 1999, p. 11).<\/p>\n<p>E \u00e9 dessa mesma falha, que rima com a vida e desemboca na escrita, que intitulei este texto: \u201cClarice no litoral: pegar a palavra com a m\u00e3o e voltar com as m\u00e3os vazias\u201d. Luz Horne ressalta, tanto na personagem Macab\u00e9a, de <em>A hora da estrela<\/em>, quanto nos personagens dos contos de <em>La\u00e7os de fam\u00edlia<\/em>, uma escrita que desafia um sistema rigidamente delimitado de categorias e fronteiras bem definidas. Ela observa que a escrita de Clarice<\/p>\n<blockquote>[&#8230;] desestabiliza a divis\u00e3o entre o dentro e o fora, entre o que \u00e9 mental e o que \u00e9 corporal, entre o que \u00e9 \u00edntimo e o que \u00e9 p\u00fablico, entre o que \u00e9 familiar e o que \u00e9 estranho, entre o que \u00e9 prazeroso e o que \u00e9 doloroso, entre o belo e o repugnante; mas tamb\u00e9m \u2013 segundo um movimento que ser\u00e1 cada vez mais pronunciado na obra de Clarice Lispector \u2013 entre uma escritura liter\u00e1ria e uma outra que desafia constantemente as taxonomias (Horne, 2021, p. 225).<\/p><\/blockquote>\n<p>Toda essa discuss\u00e3o trazida por Luz Horne remete-me \u00e0 no\u00e7\u00e3o de letra em Lacan (1956\/1998). Na leitura que o autor faz do conto de Edgar Allan Poe, \u201cA carta roubada\u201d, ele se ocupa da materialidade das palavras. O conto narra a hist\u00f3ria de uma carta pertencente \u00e0 rainha que foi roubada e cujo conte\u00fado n\u00e3o podia ser revelado a terceiros. A pol\u00edcia foi chamada para recuper\u00e1-la, mas, apesar de enormes esfor\u00e7os, n\u00e3o conseguiu, pois buscava a carta apenas pela descri\u00e7\u00e3o da rainha, vasculhando poss\u00edveis esconderijos.<\/p>\n<p>Em contrapartida, o detetive Dupin n\u00e3o considerou a carta apenas pela descri\u00e7\u00e3o fornecida; ele levou em conta seu poss\u00edvel disfarce. Sup\u00f4s que ela estaria em algum lugar evidente e que o ladr\u00e3o agiu com singeleza, o que permitiu encontr\u00e1-la. Lacan (1956\/1998) sublinha, portanto, que Dupin apreendeu a carta n\u00e3o apenas como mensagem ou descri\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m em sua dimens\u00e3o material, que possibilita que seja manuseada, travestida ou rasgada. Nesse momento, para Lacan (1956\/1998), a materialidade da letra\/carta se associa ao paradigma da perda, ao n\u00e3o-dito e ao segredo, remetendo-nos ao registro simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Em \u201cLituraterra\u201d, Lacan (1971\/2003) dedica-se \u00e0 letra mais em sua dimens\u00e3o caligr\u00e1fica do que tipogr\u00e1fica, conforme observa Marcus Andr\u00e9 (2018) em <em>A escrita do sil\u00eancio<\/em>. Ele refletia sobre a fronteira, n\u00e3o t\u00e3o bem delimitada, entre saber e gozo, um \u2018litoral\u2019, como o pr\u00f3prio Lacan denominou. Esse litoral \u00e9, ao mesmo tempo, literal. Ele nos diz: \u201cEntre o centro e aus\u00eancia, entre saber e gozo, h\u00e1 litoral que s\u00f3 vira literal quando, essa virada, voc\u00eas podem tom\u00e1-la, a mesma, a todo instante\u201d (Lacan, 1971\/2003, p. 21-22).<\/p>\n<p>Ao sobrevoar as plan\u00edcies da Sib\u00e9ria, Lacan (1971\/2003) observou, pela janela do avi\u00e3o, o ravinamento das \u00e1guas nas montanhas: a chuva provoca altera\u00e7\u00f5es no solo, formando canais de concentra\u00e7\u00e3o e escoamento capazes de incis\u00f5es na superf\u00edcie do solo. Nesse processo, surgem sulcos na terra.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessa imagem que Lacan (1971\/2019) passa a pensar a letra. Para Lacan (1971\/2019), as nuvens seriam os semblantes que, ao se romperem, forjam a precipita\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, met\u00e1fora para o gozo que nos habita, e \u00e9 isso que produzir\u00e1 as rasuras na terra. Nesse momento, a letra se descola de sua dimens\u00e3o significante e se converte em pura literalidade, ao lado do real. Lacan (1971\/2019) inicia o texto nos colocando diante da palavra <em>liturarius<\/em>, indicando um escrito que possui rasuras e \u00e9 a partir da\u00ed que cunhar\u00e1 o termo \u201clituraterra\u201d. Uma escrita que est\u00e1 mais pr\u00f3xima das marcas de gozo, e ent\u00e3o ele passa a discorrer sobre a escrita chinesa. \u201cPara lituraterrear, eu mesmo, assinalo que aqui fa\u00e7o imagem no ravinamento, com certeza, mas nenhuma met\u00e1fora: a escrita \u00e9 esse ravinamento\u201d (Lacan, 1971\/2009, p. 116).<\/p>\n<p>Em um esfor\u00e7o de poesia, podemos destacar algo dessa dimens\u00e3o de letra na escrita de Clarice: desse limite n\u00e3o t\u00e3o bem definido, desse borr\u00e3o, desse litoral entre o sentido e o fora do sentido. Trata-se de uma escrita que d\u00e1 espa\u00e7o aos sulcos e ravinamentos. Cristiane Barreto (2021), ao comentar uma passagem de <em>A paix\u00e3o segundo GH<\/em>, observa que \u201ca letra prepondera sobre o sentido engendrado nas palavras\u201d (p. 1). Clarice insiste em escrever sobre aquilo que n\u00e3o se inscreve.<\/p>\n<p>Ao utilizar a palavra para al\u00e9m de sua dimens\u00e3o de sentido, Clarice toca na materialidade e faz do literal, litoral \u2013 \u201c[&#8230;] como pegar com a m\u00e3o a palavra. A palavra \u00e9 objeto?\u201d (Lispector, 1998b, p. 12). \u201cMas onde est\u00e3o as palavras? Esgotaram-se os significados. [&#8230;] Eu queria que me dessem licen\u00e7a para que eu escreva ao som harpejado e agreste, a sucata da palavra\u201d (Lispector, 1999, p. 14).<\/p>\n<p>Uma escrita-litoral que marca o furo da linguagem, como ela destaca em <em>A paix\u00e3o segundo GH<\/em>:<\/p>\n<blockquote><p>Eu tenho \u00e0 medida que designo \u2013 este \u00e9 o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais \u00e0 medida que n\u00e3o consigo designar. A realidade \u00e9 a mat\u00e9ria-prima, a linguagem \u00e9 o modo como vou busc\u00e1-la \u2013 e como n\u00e3o acho. Mas \u00e9 do buscar e n\u00e3o achar que nasce o que eu n\u00e3o conhecia, e que instantaneamente reconhe\u00e7o. A linguagem \u00e9 meu esfor\u00e7o humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as m\u00e3os vazias. Mas \u2013 volto com o indiz\u00edvel. O indiz\u00edvel s\u00f3 me poder\u00e1 ser dado atrav\u00e9s do fracasso de minha linguagem. S\u00f3 quando falha a constru\u00e7\u00e3o, \u00e9 que obtenho o que ela n\u00e3o conseguiu (Lispector, 2009, p. 176).<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa passagem n\u00e3o deixa d\u00favidas de que os artistas precedem os psicanalistas, como nos ensinou Freud (1908\/2015). A Clarice lacaniana nos mostra que \u00e9 no pr\u00f3prio fracasso da linguagem que se escreve algo do gozo opaco ao sentido. Do imposs\u00edvel de salvar a m\u00e3e \u00e0 letra-litoral, ao consentir com o furo e faz\u00ea-lo ressoar em seus textos, Clarice d\u00e1 lugar ao insond\u00e1vel: borda uma fronteira bailante, \u00e1guas que v\u00e3o e v\u00eam, areia, um litoral. Ela n\u00e3o salva, mas vivifica cada corpo-leitor que se deixa afetar por sua escrita-deslumbramento.<\/p>\n<p>No imposs\u00edvel de prescindir da linguagem, ela marca um \u201cesfor\u00e7o de poesia\u201d, em que o eco das palavras, o espa\u00e7o em branco entre elas, o som do texto, predominam sobre o sentido, convocando a\u00ed um corpo vivo que, se se deixar afetar, experiencia o que ressoa do imposs\u00edvel de simbolizar.<\/p>\n<p>Seja a barata em <em>A paix\u00e3o segundo GH<\/em>, o rato no conto \u201cPerdoando Deus\u201d ou o cego mascando chiclete no conto \u201cAmor\u201d, esses elementos funcionam como uma <em>tiqu\u00ea<\/em> que irrompe em uma narrativa encadeada pelas elucubra\u00e7\u00f5es dos personagens. Fazem cair o v\u00e9u dos semblantes e revelam o nada que estava recoberto.<\/p>\n<p>Talvez seja exatamente isso que Clarice possa ensinar aos psicanalistas. Uma an\u00e1lise come\u00e7a com um convite: \u201cFale livremente o que vier \u00e0 cabe\u00e7a\u201d. Nesse encadeamento de ideias do analisando, uma das fun\u00e7\u00f5es do analista seria justamente se fazer barata, se fazer rato, se fazer cego mascando chiclete, isto \u00e9, introduzir o elemento que rompe a continuidade do sentido, abrindo espa\u00e7o para o surgimento de algo novo. Um analista que faz ressoar os ravinamentos, as marcas de gozo, quando o que se tem s\u00e3o nuvens.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BARRETO, Cristiane. O indiz\u00edvel na escrita de Clarice Lispector. <em>Boletim Infamiliar<\/em>, XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, 20 fev. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/cristiane-barreto-e-fabiola-ramon-comentam-o-fragmento-do-livro-a-paixao-segundo-gh-de-clarice-lispector. Acesso em: 15 jun. 2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, Sigmund. O poeta e o fantasiar. (1908) In: FREUD, S. <em>Arte, literatura e os artistas.<\/em> Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2015. (Obras incompletas de Sigmund Freud)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">HORNE, Luz. Desfamiliarizar os la\u00e7os: a escritura estr\u00e1bica. In: ANTELO, Marcela; GURGEL, Iordan (orgs.). <em>O feminino infamiliar: dizer o indiz\u00edvel.<\/em> Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2021. p. 221-230.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. O semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d. (1956) In: LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 13-67.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. Lituraterra. (1971) In: LACAN, J. <em>Outros escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 15-27.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 18: <em>De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. (1971) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LISPECTOR, Clarice. <em>\u00c1gua viva<\/em>. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1998a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LISPECTOR, Clarice. <em>A hora da estrela<\/em>.Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1998b.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LISPECTOR, Clarice. <em>Um sopro de vida<\/em>. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1999.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LISPECTOR, Clarice. <em>A paix\u00e3o segundo GH<\/em>. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LISPECTOR, Clarice. Pertencer. In: LISPECTOR, C. <em>A descoberta do mundo<\/em>.Rio de Janeiro: Rocco, 2019.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MOSER, Benjamin. <em>Clarice: uma biografia.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">VIEIRA, Marcus Andr\u00e9. <em>A escrita do sil\u00eancio<\/em>: voz e letra em uma an\u00e1lise. Rio de Janeiro: Subversos, 2018.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilker Fran\u00e7a Associado ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia \u201cComo come\u00e7ar pelo in\u00edcio, se as coisas acontecem antes de acontecer?\u201d, perguntou-se Clarice Lispector (1998a) no in\u00edcio de A hora da estrela. 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