{"id":2361,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2361"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"a-questao-do-outro-nas-novas-formas-de-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/a-questao-do-outro-nas-novas-formas-de-sintoma\/","title":{"rendered":"A quest\u00e3o do Outro nas novas formas de sintoma"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Rog\u00e9rio de Andrade Barros<br \/>\n<\/em><\/strong>EBP\/AMP<br \/>\nProfessor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica psicanal\u00edtica requer, seguindo as formula\u00e7\u00f5es de Lacan, estar \u00e0 altura da subjetividade da \u00e9poca (Lacan, 1953\/1998). Longe de depor as suas armas frente aos impasses da civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio poder l\u00ea-los como um sintoma, podendo captar os rastros e restos que permitem a nossa cl\u00ednica hoje, nem progressistas e nem nost\u00e1lgicos (Miller, 2011), mas analiticamente. Se o sintoma neur\u00f3tico \u2013 e, especialmente, a convers\u00e3o hist\u00e9rica \u2013 foi o que permitiu a Freud articular puls\u00e3o e cultura, devemos, para o novo s\u00e9culo, pensar os efeitos das mudan\u00e7as da civiliza\u00e7\u00e3o sobre a manifesta\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica do mal-estar.<\/p>\n<p>Pensar os novos sintomas nos faz tomar a civiliza\u00e7\u00e3o como parceira, o que implica, sem contornos, abordar o tema do la\u00e7o (Harari, 2018). Sabemos que \u00e9 atrav\u00e9s do discurso que se faz o liame social, partindo do campo da linguagem e da fun\u00e7\u00e3o da fala. Entretanto, o novo mestre capitalista foraclui as coisas de amor, o que implica um recha\u00e7o \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, pilar fundamental do la\u00e7o social, tendo como efeito sintomas mudos, em que se incluem as novas patologias designadas pelas nosografias psiqui\u00e1tricas: anorexias, bulimias, depend\u00eancias, s\u00edndromes do p\u00e2nico, entre outras. Delineia-se, ent\u00e3o, um rompimento do Outro simb\u00f3lico, par de alteridade para dar margem ao gozo, fazendo-nos interrogar, no um a um, quais as solu\u00e7\u00f5es que encontramos para dar um circuito a isso que, a rigor, se encontra fora da b\u00fassola.<\/p>\n<p>Se o Outro simb\u00f3lico corresponde a uma alteridade para que o gozo possa ser circunscrito, interessa pensar, para as novas formas de sintoma, o que cumpre essa fun\u00e7\u00e3o. Convencionou-se tributar aos novos sintomas o Outro que n\u00e3o existe (Miller, 2010), dando relevo, assim, \u00e0 vertente autoer\u00f3tica dessas manifesta\u00e7\u00f5es (Miller, 2016), regimes de gozo sem Outro. Se o sintoma \u00e9 o que aparelha gozo e significante, como pens\u00e1-lo, hoje, nos impasses que a civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea nos apresenta? Que outro para os novos sintomas lhe permite fazer alteridade ao gozo?<\/p>\n<p><strong>O excesso como paradigma, a n\u00e3o cess\u00e3o como pressuposto<\/strong><\/p>\n<p>Cosenza (2024), em seu livro <em>Cl\u00ednica do excesso<\/em>: derivas pulsionais e solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas na psicopatologia contempor\u00e2nea, toma o excesso como fio condutor dos quadros sintom\u00e1ticos que caracterizam a cl\u00ednica contempor\u00e2nea. O excesso se apresenta desde a origem da cl\u00ednica psicanal\u00edtica, especialmente no corpo. Habitado pelo gozo, o corpo \u00e9 o que se goza em uma rela\u00e7\u00e3o desarm\u00f4nica. Rebelde \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o da libido, o sintoma freudiano manifestava a rela\u00e7\u00e3o entre a lei e o gozo, onde se depreende o objeto <em>a<\/em> como o que condensa a perda de gozo pela opera\u00e7\u00e3o de linguagem a ser recuperada, restitu\u00edda.<\/p>\n<p>Para aparelhar perda de gozo e busca pelo objeto, \u00e9 necess\u00e1rio que haja o que Lacan (1962-1963\/2005) nomeia no seu Semin\u00e1rio 10, <em>A ang\u00fastia<\/em>, de cess\u00e3o do objeto, processo decisivo na constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade. Trata-se da produ\u00e7\u00e3o dos objetos perdidos como restos da interven\u00e7\u00e3o do Outro da linguagem sobre os corpos dos vivos.<\/p>\n<p>A recusa radical \u00e0 cess\u00e3o do objeto \u00e9 o que fundamenta a psicose. Entretanto, a cl\u00ednica contempor\u00e2nea nos apresenta solu\u00e7\u00f5es que evidenciam a rejei\u00e7\u00e3o ao Outro e, como consequ\u00eancia, a a\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o do gozo do corpo. Como efeito, temos uma cola ao gozo do Um, primordial, indivis\u00edvel. Tal qual a recusa ao desmame, vislumbrada por Lacan, o objeto de gozo se apresenta intransfer\u00edvel, elipsando o sujeito em uma experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o ilimitada. Esse novo excesso, n\u00e3o balizado pela lei edipiana, requer que pensemos uma nova escritura da economia libidinal no la\u00e7o social na era do capitalismo avan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Hoje, testemunhamos novos m\u00e9todos de recusa \u00e0 cess\u00e3o do objeto criados e difundidos pelo mercado. Frente \u00e0 oferta ilimitada de objetos <em>gadgets<\/em>, correspondem circuitos de gozo n\u00e3o perdido que funcionam autarquicamente, alternativas aos del\u00edrios e \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es, ao fracasso da incorpora\u00e7\u00e3o da lei do Outro.<\/p>\n<p>Apesar da dimens\u00e3o psic\u00f3tica que se evidencia no la\u00e7o atual, as novas formas de sintoma, apesar de nos apresentarem uma dimens\u00e3o n\u00e3o metaf\u00f3rica, em que n\u00e3o se cede parte do gozo ao Outro, permitindo-nos fazer uma passagem da cl\u00ednica da falta e do desejo \u00e0 cl\u00ednica do ilimitado e do transbordamento, n\u00e3o generaliza a estrutura psic\u00f3tica, mas antes, a foraclus\u00e3o. \u00c9 a cl\u00ednica das solu\u00e7\u00f5es, dos estilos de vida, dos modos de gozo est\u00e1veis e repetitivos que organizam o sistema de pr\u00e1ticas cotidianas. Gozos de circuitos fechados sem freio aos objetos de depend\u00eancia, seja neur\u00f3tico ou psic\u00f3tico. Cl\u00ednica dos polisinthomados, recurso ao enodamento que se faz \u00e0s expensas do furo simb\u00f3lico, apresentando reparos ao lapso do n\u00f3 que n\u00e3o necessariamente se apresentam como outrora (Schejtman, 2015).<\/p>\n<p><strong>O Outro que existe no tempo da internet<\/strong><\/p>\n<p>Se a cess\u00e3o do objeto corresponde ao Outro simb\u00f3lico, barrado, faltante, incompleto, tendo do encontro com ele a queda do objeto <em>a<\/em>, sua produ\u00e7\u00e3o, podemos dizer que a n\u00e3o cess\u00e3o do objeto, tribut\u00e1ria da l\u00f3gica civilizat\u00f3ria do gozo em tempos de capitalismo avan\u00e7ando, corresponde n\u00e3o ao Outro inexistente, mas ao Outro consistente, sem faltas. Tomo aqui a internet como paradigma para pensar o Outro contempor\u00e2neo e os efeitos de gozo gerados nesta modalidade de par.<\/p>\n<p>De acordo com Laurent (2024), em uma entrevista concedida por ele e intitulada \u201cGozar da internet\u201d, o outro virtual \u00e9 coeso e completo. A internet mudou a forma como nos relacionamos com o mundo, funcionando como um novo \u00f3rg\u00e3o que d\u00e1 a ilus\u00e3o de acesso ao mercado digitalizado e globalizado. Assim, a internet \u00e9 um novo campo oferecido \u00e0 loucura de crer-se Um na escala do mundo, engrenada sob a paix\u00e3o narc\u00edsica. Nessa perspectiva, os grupos virtuais difundidos nas redes podem servir para dividir o mundo em comunidades herm\u00e9ticas, isoladas como c\u00e2meras de eco. Um outro imagin\u00e1rio, n\u00e3o mais simb\u00f3lico, que d\u00e1 um tratamento ao gozo, operando pelas generaliza\u00e7\u00f5es aglutinadoras dos S<sub>1<\/sub> que carecem de sentido, comunidades sede de identifica\u00e7\u00f5es massivas que organizam estilos de vida e modos de gozo do corpo, sem apelo ao Outro simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Fajnwaks (2017), por sua vez, indica haver entre o Outro da internet, lugar do c\u00f3digo, onde se depositam os significantes do sujeito, e nos dados decorrentes da sua utiliza\u00e7\u00e3o, e o lugar do Outro, cunhado por Lacan, similaridades. A diferen\u00e7a \u00e9 que este Outro da internet \u00e9 de s\u00edntese, n\u00e3o havendo, assim, efeito de met\u00e1fora. O que se apresenta \u00e9 uma cifragem sem equ\u00edvoco e sem resto, em que se pretende recobrir o real pelo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Se a internet favorece a loucura narc\u00edsica, onde re\u00fane-se o Ser, eliminando-se o enigma, o discurso anal\u00edtico se dirige ao sujeito para que ele, na sua produ\u00e7\u00e3o, separe-se e deixe cair os significantes-mestres, S<sub>1<\/sub>s, que comandam a sua exist\u00eancia. Nessa dire\u00e7\u00e3o, o discurso anal\u00edtico vai de encontro \u00e0 paix\u00e3o narc\u00edsica ao orientar-se pelo real. Descoberto o furo que incita ao saber, cabe pensar que jogadas o analista pode fazer para entrar na partida como um Outro inconsistente e incompleto, sem que o horror ao furo convoque, rapidamente, o recurso ao ChatGPT, por exemplo, outro especular que sutura no tom e passo da urg\u00eancia atual.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">COSENZA, Domenico. <em>Cl\u00ednica do excesso<\/em>: derivas pulsionais e solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas na psicopatologia contempor\u00e2nea. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FAJNWAKS, Fabi\u00e1n. (2017). N\u00e3o haver\u00e1 algoritmo para digitalizar o analista. <em>Derivas Anal\u00edticas, Revista Digital de Psican\u00e1lise e Cultura da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 MG<\/em>, Belo Horizonte, n. 23, ago. 2025. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/algoritmo-analista. (Originalmente publicado na revista <em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, Paris, n. 97: Internet Avec Lacan, nov. 2017. Gentilmente cedido pelo autor para tradu\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o na revista <em>Derivas Anal\u00edticas<\/em>.)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">HARARI, Angelina. <em>Fundamentos da pr\u00e1tica lacaniana<\/em>: risco e corpo. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. (1953) In: LACAN, Jacques. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 238-324.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 10: <em>A ang\u00fastia<\/em>. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LAURENT, \u00c9ric. Gozar da internet. (2024) <em>Derivas Anal\u00edticas, Revista Digital de Psican\u00e1lise e Cultura da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 MG<\/em>, Belo Horizonte, n. 23, ago. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.revistaderivasanaliticas.com.br\/index.php\/gozar-internet.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. <em>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. Ler um sintoma. <em>Afreudite, Revista Lus\u00f3fona de Psican\u00e1lise Pura e Aplicada<\/em>, Lisboa, ano VII, n. 13\/14, p. 1-30, 2011. Dispon\u00edvel em: https:\/\/recil.ulusofona.pt\/items\/6e016cfa-b341-4e09-ba1c-9a98b33500f0.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. Para uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o gozo autoer\u00f3tico. <em>Pharmakon digital<\/em>, v. 2, nov. 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">SCHEJTMAN, Fabi\u00e1n. <em>Sinthome<\/em>: ensayos de cl\u00ednica psicoanal\u00edtica nodal. Olivos: Grama Ediciones, 2015.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rog\u00e9rio de Andrade Barros EBP\/AMP Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). A pr\u00e1tica psicanal\u00edtica requer, seguindo as formula\u00e7\u00f5es de Lacan, estar \u00e0 altura da subjetividade da \u00e9poca (Lacan, 1953\/1998). 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