{"id":2367,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2367"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"um-enlace-com-a-arte-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/um-enlace-com-a-arte-popular\/","title":{"rendered":"Um enlace com a arte popular"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Ma\u00edra Valente de Souza<br \/>\n<\/em><\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>N\u00e3o sei precisar as raz\u00f5es do fasc\u00ednio que emergiu em mim no encontro com a roda de samba a ponto de convert\u00ea-la em um ritual do qual, a partir de ent\u00e3o, era necess\u00e1rio participar uma, e mais outra e outra vez, ao longo de sete anos. Mais do que um campo de pesquisa, a roda de samba constitu\u00eda-se num espa\u00e7o estranhamente familiar. Certa estranheza, sentida ali naquele primeiro encontro, verificava-se presente em cada nova experi\u00eancia, empurrava \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o e produzia sempre uma diferen\u00e7a da ordem de uma familiaridade imprevista. Constante busca do novo na viv\u00eancia do mesmo.<\/p>\n<p>A essa altura, cursava a gradua\u00e7\u00e3o em Pedagogia e j\u00e1 entrevia um interesse que focava nos processos educativos para al\u00e9m dos muros institucionais. Desejava etnografar determinados <em>modi vivendi<\/em> onde a educa\u00e7\u00e3o apresentava-se imersa no pr\u00f3prio saber fazer cultural e aprofundar no que do singular faz la\u00e7o; no que, a despeito dos caprichos capitalistas, resiste, cria e recria v\u00ednculos sociais, numa esp\u00e9cie de \u00e9tica rebelde.<\/p>\n<p>Para produzir uma pesquisa pedag\u00f3gica dentro de um contexto amplo, que era o da antropologia da educa\u00e7\u00e3o, foi imprescind\u00edvel n\u00e3o apenas escutar, um a um, aqueles que fazem e frequentam em diferentes lugares a roda de samba, mas estar atenta a certo saber que circulava, dentro de um universo simb\u00f3lico comum, e dava sustenta\u00e7\u00e3o a uma pr\u00e1tica art\u00edstica e cultural, o que acabou por ancorar-me numa posi\u00e7\u00e3o estrangeira \u2013 habitar um territ\u00f3rio desconhecido, ainda que pertencente a ele. \u00c9 o que se orienta, no campo das etnometodologias, na dire\u00e7\u00e3o de se poder ler algo que escapa ao todo, ao <em>ethos<\/em> grupal, mas que n\u00e3o passa despercebido \u00e0quele que se disp\u00f5e a desabituar-se para, quem sabe, familiarizar-se com o estranho na tentativa de fazer ver, a partir da escrita, o imposs\u00edvel de dizer.<\/p>\n<p>\u201cNa roda de samba, \u00e9 de si que a comunidade fala o tempo todo\u201d (Moura, 2004, p. 102). Ali, forja-se um ambiente dom\u00e9stico, regido por um c\u00f3digo muito particular e por acordos t\u00e1citos, onde sambistas tocam, dan\u00e7am e cantam as pr\u00f3prias dores e alegrias, fundando um sentimento de perten\u00e7a, que preserva as singularidades de cada um e reinstala o prazer de viver em coletividade. H\u00e1 um retorno a uma \u00edntima morada, certamente propiciado pelo universo sonoro e linguageiro, mas tamb\u00e9m parece haver, a cada retorno, a possibilidade de lidar mais e melhor com as perdas e extrair da\u00ed sementes de liberdade.<\/p>\n<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira (2015) retoma o texto \u201cO avesso do trauma\u201d, de \u00c9ric Laurent, para diferenciar os excessos traum\u00e1ticos que estariam do lado da destrui\u00e7\u00e3o e da repeti\u00e7\u00e3o, o trauma como real no simb\u00f3lico, dos excessos sinthom\u00e1ticos em que consistiria o acontecimento de corpo, como abertura \u00e0 conting\u00eancia, como simb\u00f3lico no real:<\/p>\n<blockquote><p>Simb\u00f3lico no real destaca n\u00e3o a incompatibilidade da linguagem com rela\u00e7\u00e3o ao gozo, do imposs\u00edvel de dizer, mas, ao contr\u00e1rio, a linguagem se apresentando como o lugar do gozo, e n\u00e3o a linguagem se apresentando em oposi\u00e7\u00e3o ao gozo (Vieira, 2015, p. 8).<\/p><\/blockquote>\n<p>Portanto, o acontecimento de corpo n\u00e3o seria a experi\u00eancia de um gozo fora da linguagem, mas um acontecimento de linguagem ao mesmo tempo que de gozo, gozo singular do <em>sinthoma<\/em>, em que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de concomit\u00e2ncia entre real e simb\u00f3lico. Um acontecimento de lal\u00edngua, ainda que fora do sentido, n\u00e3o fora do simb\u00f3lico. \u201cCaso contr\u00e1rio vamos achar que esse acontecimento \u00e9 sil\u00eancio, indiz\u00edvel, puls\u00e3o de morte como pura morte, quando na verdade ela \u00e9 tamb\u00e9m gozo vital linguageiro.\u201d (Vieira, 2015, p. 8).<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente essa rela\u00e7\u00e3o entre simb\u00f3lico e real que observo na roda de samba. A m\u00fasica, a sonoridade musical, ao mesmo tempo em que instaura a possibilidade de um acontecimento fora de sentido, permite, por outro lado, um tratamento desse excesso pela via do sentido, atrav\u00e9s das letras das can\u00e7\u00f5es e de um linguajar comum. \u201cEm vez de dizermos ent\u00e3o que o mal-entendido \u00e9 a l\u00edngua impotente diremos que ele \u00e9 lal\u00edngua em seu esplendor. Ele n\u00e3o atrapalha a comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que a sustenta.\u201d (Vieira, 2015, p. 9).<\/p>\n<p>Carlos Rodrigues Brand\u00e3o (2006) diz-nos sobre a fun\u00e7\u00e3o daquele que chama de \u201cSenhor da Palavra\u201d, quem estaria dentro de uma comunidade tradicional, por exemplo, na posi\u00e7\u00e3o de um Outro da linguagem: \u201cEnunciador do conhecido e do consagrado, a miss\u00e3o daquele que comanda \u00e9 ser a fala do saber que todos sabem e da norma que todos devem cumprir e a quem compete ao chefe apenas lembrar.\u201d (p. 12). Se, como se diz na psican\u00e1lise, estamos em uma \u00e9poca em que esse Outro vem perdendo, gradativamente, consist\u00eancia, poderia a arte \u2013 sobretudo, a arte popular, como, no caso, a roda de samba \u2013 reinserir o sujeito no campo das trocas e do sentido e, portanto, na dimens\u00e3o da falta, mas tamb\u00e9m no caminho de uma inven\u00e7\u00e3o? Servir, para al\u00e9m de um processo sublimat\u00f3rio, como um enla\u00e7amento discursivo para os sujeitos? E, sendo assim, contribuir para as reflex\u00f5es sobre a cl\u00ednica e a forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise?<\/p>\n<blockquote><p>Vamos seguir com esta ideia? Uma an\u00e1lise nos daria a possibilidade de ver nos acontecimentos n\u00e3o apenas seu poder de corte e ruptura, mas de abertura e inven\u00e7\u00e3o, mais o transbordamento do campo dos poss\u00edveis do que as marcas que este transbordamento deixar\u00e1 (Vieira, 2015, p. 4).<\/p><\/blockquote>\n<p>Sempre que ou\u00e7o falar dos novos sintomas, costumo dizer que talvez n\u00e3o haja nada de t\u00e3o novo que Freud j\u00e1 n\u00e3o tivesse presenciado no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Revolu\u00e7\u00e3o burguesa e industrial, queda das monarquias, guerras, inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas de forte impacto sociocultural e nas rela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas entre na\u00e7\u00f5es, enfim, reconfiguravam uma \u00e9poca, penso, em similar propor\u00e7\u00e3o ao que vivenciamos atualmente. Freud soube, a meu ver, escutar o sintoma de uma era. Se a arte serviu-lhe tamb\u00e9m como b\u00fassola, talvez seja porque o artista \u00e0s vezes consiga, n\u00e3o exatamente antever, mas produzir algum dizer sobre o que lhe atravessa, inclusive, da cultura de seu tempo, a-bordando e tecendo com um real.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 preciso situar a roda de samba como uma arte que vai al\u00e9m da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, ainda que passe por a\u00ed, na medida em que ela funda um grupo de parcerias e conv\u00edvio, inclusive fazendo uso de uma gram\u00e1tica simb\u00f3lica e afetiva que vai na contram\u00e3o do que experienciamos com a virtualidade e esgar\u00e7amento dos la\u00e7os sociais e resgatando a dimens\u00e3o da familiaridade, da presen\u00e7a e, sobretudo, do pertencimento. Percebo que h\u00e1 uma certa avidez nos sujeitos contempor\u00e2neos, ainda que se diga o contr\u00e1rio, em fazer la\u00e7o e que, talvez, caiba aos praticantes da psican\u00e1lise uma maior escuta do que lhes adv\u00e9m das ruas, da cultura e das artes populares; uma escuta de um saber fazer que produz diferentes enla\u00e7amentos, muito mais na via de uma vivifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gostaria de finalizar com a fala de S\u00e9rgio de Mattos sobre seu final de an\u00e1lise, em entrevista no <em>podcast<\/em> \u201cSobre Um-dizer\u201d:<\/p>\n<blockquote>[\u2026] esse me chame, al\u00e9m dessa quest\u00e3o da tonalidade, dessa r\u00edtmica, \u201cme chame, me chame, me chame\u201d, que \u00e9 quase que um canto de ninar tamb\u00e9m, n\u00e9?, me deu um lugar assim no outro, que \u00e9 um lugar que eu n\u00e3o tinha pela minha hist\u00f3ria, onde tinham portas fechadas pra mim, onde eu estava diante de situa\u00e7\u00f5es muito mort\u00edferas, onde o outro pra mim era sempre o lugar de uma amea\u00e7a, que ent\u00e3o eu tinha que me preparar e estar o tempo inteiro em prontid\u00e3o, porque podia vir guerrear comigo. Ent\u00e3o, tinha assim um corpo sempre pronto pra batalha [\u2026] a\u00ed, assim, eu vivia nesse estado e naquele momento parece que desmonta tudo isso. Eu encontro uma rela\u00e7\u00e3o nova com o Outro, que \u00e9 um outro amoroso onde eu possa estar relaxado, n\u00e9? Eu acho que esse relaxamento permite aparecer toda uma libido, todo um gozo, que dispensava toda essa defesa, a ang\u00fastia e tudo isso que provoca aquela\u2026 \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o meio psicanal\u00edtica da coisa\u2026 que provoca a\u00ed uma del\u00edcia na minha vida, n\u00e9? (Mattos, 2025). [Transcri\u00e7\u00e3o da autora].<\/p><\/blockquote>\n<p>Vamos apostar em um novo encontro poss\u00edvel, talvez mais amoroso?<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BRAND\u00c3O, Carlos Rodrigues. <em>O que \u00e9 educa\u00e7\u00e3o popular<\/em>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2006. (Cole\u00e7\u00e3o Primeiros passos, 318)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MATTOS, S\u00e9rgio de. O que se aprende em uma an\u00e1lise com S\u00e9rgio de Mattos. Locu\u00e7\u00e3o de Cauana Mestre e Licene Garcia. Podcast <em>Sobre Um-dizer<\/em>, 53min, 14 jul. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/open.spotify.com\/episode\/6QXDMyULMYkRQKYvj4bPqr?si=VSUK9nQlRWSbhBdBaas3Rg. Acesso em: 8 nov. 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MOURA, Roberto M. <em>No princ\u00edpio, era a roda<\/em>: um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">VIEIRA, Marcus Andr\u00e9. Na cidade do sinthoma. <em>Litura<\/em>, Rio de Janeiro, 2015. Dispon\u00edvel em: https:\/\/litura.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/VIII-O-passe-e-corpo-falante-Na-cidade-do-sintoma-editado.pdf. Acesso em: 8 nov. 2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ma\u00edra Valente de Souza Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia N\u00e3o sei precisar as raz\u00f5es do fasc\u00ednio que emergiu em mim no encontro com a roda de samba a ponto de convert\u00ea-la em um ritual do qual, a partir de ent\u00e3o, era necess\u00e1rio participar uma, e mais outra e outra vez, ao longo de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2367","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-026","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2367"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2368,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2367\/revisions\/2368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2367"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}