{"id":2369,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2369"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"a-dor-que-escreve-melancolia-e-o-heroi-byroniano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/a-dor-que-escreve-melancolia-e-o-heroi-byroniano\/","title":{"rendered":"A dor que escreve: melancolia e o her\u00f3i byroniano"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Lucas Antunes Santos Vilas Boas<br \/>\n<\/em><\/strong>Aluno do curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL\/IPB-BA)<\/p>\n<p>O movimento liter\u00e1rio conhecido como byronismo, originado a partir da figura de George Gordon Byron (1788-1824), destaca-se como uma resposta est\u00e9tica e existencial \u00e0 racionalidade iluminista e ao crescente moralismo conservador do per\u00edodo, que mais tarde se consolidaria na era vitoriana. Mais do que um estilo po\u00e9tico, o byronismo \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o de uma postura subjetiva marcada pela dor, ex\u00edlio e rebeldia. O chamado \u201cher\u00f3i byroniano\u201d, inspirado nas obras e na pr\u00f3pria figura de Byron, \u00e9 um sujeito atormentado, rom\u00e2ntico, c\u00ednico e solit\u00e1rio. De acordo com Chris Baldick (2001), esse her\u00f3i pode ser caracterizado como um \u201caudacioso desafiador, mas, ao mesmo tempo, um exilado que se atormenta amargamente; orgulhosamente desdenhoso quanto \u00e0s normas sociais, mas sofrendo por algum pecado inominado\u201d (p. 31).<\/p>\n<p>Esse tipo de personagem foi amplamente difundido na literatura europeia do s\u00e9culo XIX, influenciando autores como Alfred de Musset, Mikhail Lermontov e \u00c1lvares de Azevedo, este \u00faltimo expoente do ultrarromantismo brasileiro, cujos versos est\u00e3o impregnados de morbidez, idealiza\u00e7\u00e3o da morte e erotismo melanc\u00f3lico. Como observa Harold Bloom (1970), a tradi\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica cultiva uma rela\u00e7\u00e3o profunda com a perda e o excesso, incorporando a dor como elemento estruturante da identidade po\u00e9tica. Trata-se de uma figura essencialmente atravessada pela perda. Nesse sentido, o amor, quando acontece, \u00e9 sempre interditado ou fadado ao fracasso; a gl\u00f3ria \u00e9 ef\u00eamera ou sem sentido; e a pr\u00f3pria vida, um palco de ex\u00edlio, solid\u00e3o e desamparo. De acordo com Mario Praz (1996), h\u00e1 no byronismo uma esp\u00e9cie de estetiza\u00e7\u00e3o da desilus\u00e3o e do sofrimento, uma \u201cmelancolia cultivada\u201d que se torna constitutiva da subjetividade do her\u00f3i.<\/p>\n<p>Essa disposi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica do sujeito byroniano encontra um campo f\u00e9rtil de leitura quando analisada a partir da teoria freudiana. No texto \u201cLuto e melancolia\u201d, Freud (1917\/2020) prop\u00f5e uma distin\u00e7\u00e3o entre dois modos de vivenciar a perda: o luto, em que o sujeito se separa gradualmente do objeto perdido, e a melancolia, em que h\u00e1 uma identifica\u00e7\u00e3o inconsciente com esse objeto, levando \u00e0 autodeprecia\u00e7\u00e3o e ao empobrecimento do Eu. O autor marca essa diferen\u00e7a ao trazer que \u201co luto exibe os mesmos tra\u00e7os, com exce\u00e7\u00e3o de um: nele a autoestima n\u00e3o \u00e9 afetada\u201d (Freud, 1917\/2020, p. 173). O her\u00f3i byroniano, ao eleger a perda e a dor como fundamento de sua exist\u00eancia, parece encarnar essa estrutura descrita por Freud: ele n\u00e3o apenas lamenta o objeto perdido, ele torna-se esse objeto.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre melancolia e est\u00e9tica n\u00e3o se reduz \u00e0 representa\u00e7\u00e3o da dor, mas \u00e0 sua eleva\u00e7\u00e3o a um lugar de gozo. O sofrimento, nesse contexto, \u00e9 simultaneamente real e performativo, ele organiza o discurso, orienta as escolhas e sustenta a identidade do sujeito. Tal como no modelo freudiano, em que h\u00e1 \u201cum enorme empobrecimento do Eu\u201d (Freud, 1917\/2020, p. 175). Ao incorporar o objeto perdido, o her\u00f3i byronista se constr\u00f3i em torno de um vazio que se recusa a ser simbolizado, reiterando a perda como destino.<\/p>\n<p>A partir da perda, a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o mundo \u00e9 modificada: \u201cno luto, \u00e9 o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, \u00e9 o pr\u00f3prio Eu\u201d (Freud, 1917\/2020, p. 176). Na melancolia, o sujeito n\u00e3o reconhece exatamente o que perdeu, e em vez de se separar do objeto, identifica-se com ele.<\/p>\n<p>Nesse racioc\u00ednio, Freud (1917\/2020) nota que \u201ca sombra do objeto caiu sobre o Eu, e a partir de ent\u00e3o este p\u00f4de ser julgado por uma inst\u00e2ncia especial como um objeto, o objeto abandonado\u201d (p. 181). O tra\u00e7o decisivo da melancolia \u00e9, portanto, essa identifica\u00e7\u00e3o com o objeto perdido e a invers\u00e3o da agressividade, antes dirigida ao objeto, contra o pr\u00f3prio Eu. Essa l\u00f3gica pode ser observada com clareza na figura do her\u00f3i byroniano, cuja atitude de constante autodeprecia\u00e7\u00e3o, de niilismo e autoex\u00edlio, revela menos um arrependimento consciente e mais uma fixa\u00e7\u00e3o em um objeto que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 presente: um amor perdido, uma verdade inalcan\u00e7\u00e1vel, uma promessa de completude jamais cumprida.<\/p>\n<p>A postura existencial do her\u00f3i byroniano, muitas vezes descrita como narcisista ou autodestrutiva, encontra sentido sob a lente freudiana. O narcisismo da melancolia n\u00e3o \u00e9 apenas amor ao Eu, mas um retorno da libido por n\u00e3o conseguir reinvestir em um novo objeto, que se d\u00e1 sob o signo da agressividade. O poeta \u00c1lvares de Azevedo (1853\/2000), influenciado diretamente por Byron, \u00e9 exemplar nesse ponto. Com seu tom eleg\u00edaco e autodepreciativo, presente em obras como <em>Lira dos vinte anos<\/em>, o poeta brasileiro aponta para uma subjetividade em ru\u00edna que se compraz na pr\u00f3pria fal\u00eancia, transformando a dor em est\u00e9tica e identidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 poss\u00edvel pensar a melancolia byroniana como uma tentativa de suspens\u00e3o do tempo. Enquanto o luto avan\u00e7a, a melancolia estagna. O sujeito melanc\u00f3lico se fixa no instante da perda, como se esse momento condensasse toda a verdade de sua exist\u00eancia. Essa fixa\u00e7\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel na repeti\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica da morte, da desesperan\u00e7a e do amor imposs\u00edvel nas obras marcadas por esse <em>ethos<\/em>. Freud (1917\/2020) observa que a melancolia opera \u201cde modo que o investimento objetal possa, ao lhe aparecerem dificuldades, regredir ao narcisismo\u201d (p. 181) \u2013 e, assim, o sujeito melanc\u00f3lico \u201cpode tratar a si mesmo como um objeto\u201d (p. 185). O her\u00f3i byroniano, nesse sentido, \u00e9 algu\u00e9m que performa essa ru\u00edna.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma articula\u00e7\u00e3o ainda mais profunda com a est\u00e9tica rom\u00e2ntica: o sofrimento n\u00e3o \u00e9 apenas representado, mas idealizado. A dor torna-se bela, a perda torna-se linguagem, e a fal\u00eancia do Eu, longe de ser apenas sintoma, passa a ser express\u00e3o de autenticidade. O sujeito byroniano \u00e9, a partir disso, um melanc\u00f3lico que encontrou na escrita uma forma de cristalizar sua identifica\u00e7\u00e3o com o objeto perdido.<\/p>\n<p>Ao reconhecer a melancolia n\u00e3o apenas como um afeto, mas como um modo de funcionamento que organiza a rela\u00e7\u00e3o com o desejo, o tempo e o Outro, Freud (1917\/2020) oferece ferramentas para compreender o sujeito rom\u00e2ntico n\u00e3o como mero personagem liter\u00e1rio, mas como uma figura que encarna, em sua forma mais intensa, a experi\u00eancia do mal-estar na cultura.<\/p>\n<p>O byronismo, nesse sentido, pode ser lido como uma estiliza\u00e7\u00e3o da melancolia, uma tentativa de responder, via est\u00e9tica, \u00e0 impossibilidade de simbolizar a perda. A escrita tr\u00e1gica, o amor fadado ao fracasso, o ex\u00edlio e a recusa do la\u00e7o social comp\u00f5em um imagin\u00e1rio no qual o objeto perdido nunca \u00e9 verdadeiramente abandonado; pelo contr\u00e1rio, ele \u00e9 revivido, reiterado e, finalmente, elevado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de identidade. A melancolia n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, mas pode, paradoxalmente, ser seu motor.<\/p>\n<p>Assim, o sujeito byroniano, ao estetizar a perda e fazer da dor a sua linguagem, n\u00e3o apenas exemplifica um modo de funcionamento, mas tamb\u00e9m nos convida a pensar a melancolia para al\u00e9m da cl\u00ednica: como forma de vida, como forma de escrita e, sobretudo, como uma tentativa de encontrar sentido no que falta.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">AZEVEDO, \u00c1lvares de. <em>Lira dos vinte anos<\/em> (1853). S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2000.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BALDICK, Chris. <em>The concise Oxford dictionary of literary terms<\/em>. New York: Oxford University Press, 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BLOOM, Harold. <em>The ringers in the tower: studies in romantic tradition<\/em>. Chicago: University of Chicago Press, 1970.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917[1915]). In. FREUD, Sigmund.\u00a0<em>Obras Completas, <\/em>volume 12:<em> Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916)<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2020.\u00a0pp. 173-185.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">PRAZ, Mario. <em>A carne, a morte e o diabo na literatura rom\u00e2ntica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Philadelpho Menezes. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucas Antunes Santos Vilas Boas Aluno do curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Teoria da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana (TPOL\/IPB-BA) O movimento liter\u00e1rio conhecido como byronismo, originado a partir da figura de George Gordon Byron (1788-1824), destaca-se como uma resposta est\u00e9tica e existencial \u00e0 racionalidade iluminista e ao crescente moralismo conservador do per\u00edodo, que mais tarde se&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2369","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-026","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2369","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2369"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2369\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2370,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2369\/revisions\/2370"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2369"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2369"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2369"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2369"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}