{"id":2371,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2371"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"do-excesso-e-suas-bordas-o-manejo-do-gozo-na-contemporaneidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/do-excesso-e-suas-bordas-o-manejo-do-gozo-na-contemporaneidade\/","title":{"rendered":"Do excesso e suas bordas: o manejo do gozo na contemporaneidade"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Ligia Amorim<br \/>\n<\/em><\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>O presente ensaio prop\u00f5e um di\u00e1logo entre a \u00e9tica da psican\u00e1lise lacaniana e a concep\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do arquiteto chin\u00eas Kongjian Yu, criador do conceito de <em>cidades-esponja<\/em>. Partindo da ideia de que tanto a \u00e1gua quanto o gozo s\u00e3o excessos que resistem \u00e0 conten\u00e7\u00e3o, o texto articula tr\u00eas figuras simb\u00f3licas \u2013 a barragem de Marguerite Duras, os diques da Holanda evocados por Freud e a cidade-esponja de Kongjian Yu, falecido recentemente em um acidente a\u00e9reo no Brasil \u2013 para pensar o modo como o sujeito contempor\u00e2neo pode lidar com o transbordamento pulsional. Em uma \u00e9poca marcada pelo imperativo de gozar, a psican\u00e1lise prop\u00f5e n\u00e3o a repress\u00e3o do excesso, mas sua circunscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, criando bordas por onde o gozo possa circular sem devastar.<\/p>\n<p>O arquiteto chin\u00eas Kongjian Yu (1963-2024), reconhecido por sua proposta das <em>cidades-esponja<\/em>, dedicou-se a pensar como o excesso \u2013 no caso, o da \u00e1gua \u2013 pode ser manejado de modo criativo. Em vez de combater as enchentes, <em>Kongjian <\/em>propunha acolher o transbordamento, permitindo que o solo urbano absorvesse, infiltrasse e fizesse circular o excesso de \u00e1gua. Sua concep\u00e7\u00e3o desloca a l\u00f3gica do controle para a do bom uso do excesso. Essa intui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica encontra surpreendente resson\u00e2ncia com a \u00e9tica da psican\u00e1lise lacaniana.<\/p>\n<p>Para Lacan (1962-1963\/2005), o sujeito tamb\u00e9m \u00e9 atravessado por um excesso: o gozo, satisfa\u00e7\u00e3o que excede a economia do prazer e n\u00e3o pode ser inteiramente simbolizada. No<em> Semin\u00e1rio 10<\/em>,<em> A ang\u00fastia<\/em>, Lacan compara a puls\u00e3o a uma torneira: o problema n\u00e3o est\u00e1 em abri-la, mas em fech\u00e1-la \u2013 instaurar um ponto de corte que regule o fluxo pulsional (Lacan, 1962-1963\/2005, p. 315). Essa met\u00e1fora hidr\u00e1ulica antecipa a fun\u00e7\u00e3o do analista: n\u00e3o bloquear o gozo, mas introduzir um ponto de perda necess\u00e1rio \u00e0 sua circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa problem\u00e1tica reaparece na literatura e na teoria. Em <em>Uma barragem contra o Pac\u00edfico<\/em>, Marguerite Duras (1950\/2009) narra a insist\u00eancia de uma m\u00e3e em construir uma barragem para impedir que a \u00e1gua salgada invada os arrozais \u2013 tentativa fadada ao fracasso. A barragem \u00e9 destru\u00edda pelas for\u00e7as naturais, pela corros\u00e3o, pelas mar\u00e9s. Freud (1932\/2010), na Confer\u00eancia XXXI, evoca o antigo mar interior holand\u00eas, o Zuiderzee (Freud, 1935\/2005), transformado em terra cultiv\u00e1vel, para ilustrar como o ego se forma a partir do id \u2013 um peda\u00e7o do mar pulsional que se deixa drenar, domesticando o excesso. Essa imagem pode ser colocada em di\u00e1logo com a concep\u00e7\u00e3o de Jacques-Alain Miller sobre o trabalho simb\u00f3lico de circunscri\u00e7\u00e3o do gozo: n\u00e3o se trata de eliminar o mar do inconsciente, mas de construir diques simb\u00f3licos que permitam \u00e0 vida ps\u00edquica se sustentar sobre ele.<\/p>\n<p>Miller (2009) retoma a met\u00e1fora aqu\u00e1tica para pensar o gozo como o elemento massivo por excel\u00eancia: tal como a \u00e1gua, ele n\u00e3o vem em partes discretas, a menos que algo funcione como borda \u2013 \u201c\u00e9 necess\u00e1rio garrafas para se ter uma \u00e1gua e outra\u201d (p. 72). A opera\u00e7\u00e3o do significante, nesse sentido, \u00e9 o que introduz uma l\u00f3gica de corte, permitindo que o gozo deixe de ser pura invas\u00e3o e se torne algo com o que o sujeito possa fazer la\u00e7o. Enquanto Duras mostra o fracasso tr\u00e1gico da conten\u00e7\u00e3o, Miller prop\u00f5e uma circunscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u2013 diques que n\u00e3o eliminam o gozo, mas o contornam.<\/p>\n<p>Lacan ensina que o gozo, embora fluido, \u00e9 cont\u00e1vel: deixa marcas, tra\u00e7os, letras. O dique e a barragem tornam-se, assim, imagens do esfor\u00e7o humano de lidar com o imposs\u00edvel de conter o gozo \u2013 e dos restos que ele sempre deixa. A an\u00e1lise tenta regular o gozo, circunscrev\u00ea-lo simbolicamente, sabendo que algo sempre escapa. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 eliminar o excesso, mas manej\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Da mesma forma que o arquiteto prop\u00f5e \u00e0 cidade aprender a conviver com a \u00e1gua, o analista prop\u00f5e ao sujeito aprender a conviver com seu gozo. Ambos tratam do mesmo desafio: criar bordas simb\u00f3licas capazes de dar forma ao que transborda.<\/p>\n<p>Na sociedade contempor\u00e2nea, marcada pela satura\u00e7\u00e3o de imagens e pelo imperativo de gozar, o excesso n\u00e3o \u00e9 mais recalcado, mas exigido. A cultura convoca o gozo no corpo, no trabalho, na performance e at\u00e9 na felicidade. O resultado \u00e9 um gozo sem bordas simb\u00f3licas, que retorna sob formas de sofrimento difuso: ang\u00fastias corporais, compuls\u00f5es, <em>burnout<\/em>, depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, a \u201ctorneira\u201d lacaniana ganha atualidade: se o excesso de hoje \u00e9 o da satura\u00e7\u00e3o, o manejo anal\u00edtico n\u00e3o visa reprimir, mas introduzir diferen\u00e7a. A an\u00e1lise opera como uma engenharia subjetiva do tipo <em>cidade-esponja<\/em> \u2013 cria poros, frestas simb\u00f3licas por onde o gozo possa circular sem devastar.<\/p>\n<p>Trata-se, como dizia Lacan (1972-1973\/1985), de fazer uso do gozo. O analista n\u00e3o cura o excesso \u2013 reorienta seu curso, como o arquiteto que desvia a \u00e1gua para canais f\u00e9rteis. Cada an\u00e1lise inventa um modo singular de tratar o gozo.<\/p>\n<p>Assim como Kongjian Yu prop\u00f5e que as cidades deixem de ser imperme\u00e1veis, a psican\u00e1lise prop\u00f5e que o sujeito se torne menos imperme\u00e1vel \u00e0 falta. O gesto do arquiteto e o do analista se encontram em uma mesma \u00e9tica: n\u00e3o eliminar o excesso, mas fazer dele causa de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No lugar da represa, a cidade-esponja; no lugar do recalque, o trabalho anal\u00edtico. Ambos transformam o que amea\u00e7a em recurso simb\u00f3lico \u2013 criam espa\u00e7os de porosidade, onde o excesso pode ser habitado sem destruir. Assim como a cidade aprende a viver com suas chuvas, o sujeito aprende, em an\u00e1lise, a viver com o que o habita. O gozo, o excesso, o real \u2013 n\u00e3o s\u00e3o o que deve ser eliminado, mas o que, acolhido e tratado, permite inventar um modo singular de viver.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">DURAS, Marguerite. <em>Uma barragem contra o Pac\u00edfico<\/em>. (1950) Tradu\u00e7\u00e3o: T. L. Vieira. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, Sigmund. <em>Confer\u00eancias de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise.<\/em> (1935) Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, S. <em>Novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise.<\/em> (1932) Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda<\/em>. (1972-1973) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 10: <em>A ang\u00fastia<\/em>. (1962-1963) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. <em>A l\u00f3gica da cura psicanal\u00edtica<\/em>. In: X Jornadas do Campo Freudiano, 1993, M\u00e1laga &#8211; Espanha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">YU, Kongjian. <em>The sponge city: Planning, design and political design<\/em>. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.turenscape.com\/paper\/detail\/503.html. [Acesso em: 26 out. 2025].<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ligia Amorim Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia O presente ensaio prop\u00f5e um di\u00e1logo entre a \u00e9tica da psican\u00e1lise lacaniana e a concep\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica do arquiteto chin\u00eas Kongjian Yu, criador do conceito de cidades-esponja. 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