{"id":2373,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2373"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"a-voz-da-musica-como-escuta-do-indizivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/a-voz-da-musica-como-escuta-do-indizivel\/","title":{"rendered":"A voz da m\u00fasica como escuta do indiz\u00edvel"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Liliane Sales<br \/>\n<\/em><\/strong>Associada ao instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>O conceito de puls\u00e3o foi elaborado por Freud (1915\/2019) para se referir \u00e0 exig\u00eancia de trabalho constante ao aparelho ps\u00edquico, ainda que a puls\u00e3o n\u00e3o pudesse ser localizada exclusivamente no campo ps\u00edquico, tampouco no campo som\u00e1tico, mas sim, em uma jun\u00e7\u00e3o dos dois que ressoa sobre o corpo. Em Lacan (1964\/2008), a puls\u00e3o se torna um conceito que engendra uma articula\u00e7\u00e3o entre significante e corpo. Poder\u00edamos dizer que uma das especificidades da puls\u00e3o \u00e9 o ritmo que se encontra ao lado do significante, correlato \u00e0 altern\u00e2ncia encontrada na musicalidade da voz materna, ou seja, o ritmo, o tom de voz da m\u00e3e que constitui a experi\u00eancia da vida ps\u00edquica do beb\u00ea.<\/p>\n<p>O funcionamento pulsional \u00e9 marcado pelos efeitos da a\u00e7\u00e3o da linguagem sobre o corpo, os quais, inicialmente, atuam em torno dos orif\u00edcios corporais, estendendo-se por todo corpo, transformando-o em um corpo pulsional.<\/p>\n<p>Lacan nos lembra que os ouvidos s\u00e3o os \u00fanicos orif\u00edcios que n\u00e3o podemos fechar.<\/p>\n<p>Pensando nessa fun\u00e7\u00e3o aberta dos ouvidos, da escuta atenta, lembrei-me de uma passagem de uma entrevista com o cantautor Lenine, m\u00fasico da MPB, quando lan\u00e7ou seu CD com t\u00edtulo \u201cCh\u00e3o\u201d. Lenine conta que tem paix\u00e3o pela palavra \u201cch\u00e3o\u201d, que \u00e9 nasal, monoss\u00edlaba, onomatopeica, pois \u00e9, ao mesmo tempo, um lugar que sustenta. A capa desse CD \u00e9 uma fotografia do artista deitado com seu neto dormindo sobre o seu corpo. O m\u00fasico destaca o corpo como fun\u00e7\u00e3o de ch\u00e3o para amparar o beb\u00ea. Trata-se de um trabalho que ele considerou \u00edntimo, familiar, em que os sons que permeiam a m\u00fasica s\u00e3o de ru\u00eddos do cotidiano, reais, e n\u00e3o feitos por efeitos especiais \u2013 assim como o som de passos, folhas secas, chaleira de leite. No momento da grava\u00e7\u00e3o, em um est\u00fadio em casa, fazem um pequeno intervalo e, naquele instante de sil\u00eancio, seu filho abre a porta e eles ouviram o cantar do can\u00e1rio-belga, que \u00e9 um p\u00e1ssaro da sua sogra e se chama Frederico VI. O sil\u00eancio da m\u00fasica no est\u00fadio soa l\u00e1 fora o canto do p\u00e1ssaro no mesmo tom e faz um arranjo junto com a m\u00fasica. Frederico VI, o can\u00e1rio-belga, e Lenine foram afetados pelos sons que os invadiram e que podemos chamar de uma puls\u00e3o invocante, como nomeou Lacan ao tratar do objeto voz.<\/p>\n<p>Esse intenso resultado dos arranjos de vozes, instrumentos e sil\u00eancios provocou encantamento aos ouvidos que foram intimados pela sonoridade compartilhada.<\/p>\n<p>Cito Marcus Andr\u00e9 Vieira (2018), em um dos seus testemunhos do passe: \u201cEssa invoca\u00e7\u00e3o que Lacan chamou de \u2018<em>presen\u00e7a do Outro\u2019 <\/em>sob sua forma vocal, solicitando-nos o mais \u00edntimo do nosso desejo.\u201d (p. 75). Desejo, palavra usada pelo artista ao se referir \u00e0 alegre conting\u00eancia de ouvir aquele canto afinado \u00e0 sua arte, logo, nesse projeto que privilegia os sons naturais. A linguagem externa do p\u00e1ssaro, de passos, da vida l\u00e1 fora, ganhou alma ao atravessar a porta do est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o de voz e de instrumentos que tocam ao ressoar, mas que foram tamb\u00e9m tocados.<\/p>\n<p>A puls\u00e3o invocante \u00e9 um conceito da psican\u00e1lise que relaciona a voz com o corpo e a linguagem. A voz \u00e9 o objeto da puls\u00e3o invocante, que foi proposta por Lacan. A puls\u00e3o invocante desnatura o corpo com a linguagem, faz com que a voz n\u00e3o seja apenas sonora, mas tamb\u00e9m significante. Permite que um novo falante assuma a palavra.<\/p>\n<p>A voz, na psican\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 algo que se usa, mas sim aquilo que n\u00e3o se pode dizer. Ela \u00e9 o vazio do outro, que ressoa na voz.<\/p>\n<p>O gozo passa pela linguagem, passa pelo significante \u2013 o canto do p\u00e1ssaro vira signo para o artista ao passar pelo simbolismo da m\u00fasica e seus arranjos.<\/p>\n<p>O objeto da puls\u00e3o \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um objeto perdido. A meta da puls\u00e3o \u00e9 sempre a satisfa\u00e7\u00e3o. Ela contorna o objeto, cria-o e volta-se sobre si mesma encontrando a satisfa\u00e7\u00e3o. Ativa ou passiva.<\/p>\n<p>O trabalho em an\u00e1lise s\u00e3o os efeitos de resson\u00e2ncia da voz do Outro no sujeito e suas consequ\u00eancias, bem como a dimens\u00e3o de gozo que a trama simb\u00f3lica-real-imagin\u00e1ria musical p\u00f5e em cena, o que leva ao analista uma quest\u00e3o crucial sobre o desejo. H\u00e1, no desejo, um ponto surdo que faz com que cada analista venha a se autorizar como uma fun\u00e7\u00e3o para um sujeito em an\u00e1lise. Escutar o que tem de mais singular do sujeito e se permitir se surpreender. Permitindo, contudo, um canto, uma voz peculiar, convocando a sustentar a dimens\u00e3o de despertar para o sujeito.<\/p>\n<p>Canto surdo que se apresenta como advertido, portando um inaudito. Colocando o desejo em causa e invocando uma sa\u00edda nova por improviso. Assim como a voz invocante do p\u00e1ssaro fora do est\u00fadio, esse dentro\/fora que, agora, \u00e9 absorvido e eternizado em m\u00fasica, marca o que ressoa do desejo do artista, bem como do sujeito que faz ressoar o que antes era inaudito no seu canto surdo. O gozo do encantamento da voz do Outro, onde a escuta \u00e9 erotizada pela musicalidade.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, S. <em>As puls\u00f5es e seus destinos<\/em>. (1915) Tradu\u00e7\u00e3o: Pedro Heliodoro. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2019. (Obras incompletas de Sigmund Freud)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. Cap. XIV &#8211; A puls\u00e3o parcial e seu circuito, p. 165-176.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">VIEIRA, M. A. <em>A escrita do sil\u00eancio<\/em>: voz e letra em uma an\u00e1lise. Rio de Janeiro: Subversos, 2018.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Liliane Sales Associada ao instituto de Psican\u00e1lise da Bahia O conceito de puls\u00e3o foi elaborado por Freud (1915\/2019) para se referir \u00e0 exig\u00eancia de trabalho constante ao aparelho ps\u00edquico, ainda que a puls\u00e3o n\u00e3o pudesse ser localizada exclusivamente no campo ps\u00edquico, tampouco no campo som\u00e1tico, mas sim, em uma jun\u00e7\u00e3o dos dois que ressoa sobre&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-026","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2373"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2373\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2374,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2373\/revisions\/2374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2373"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}