{"id":2375,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2375"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"um-detalhe-uma-ferida-aproximacoes-ao-ato-analitico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/um-detalhe-uma-ferida-aproximacoes-ao-ato-analitico\/","title":{"rendered":"Um detalhe, uma ferida &#8211; aproxima\u00e7\u00f5es ao ato anal\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Leila Mignac<br \/>\n<\/em><\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>\u201cO que meu corpo sabe da fotografia?\u201d \u2013 \u00e9 assim que Roland Barthes (1980, p. 17) abre sua tentativa de localizar a ess\u00eancia da fotografia em <em>A c\u00e2mara clara<\/em>, partindo de uma investiga\u00e7\u00e3o em torno da sua atra\u00e7\u00e3o por determinadas fotos. Isso passa por uma constata\u00e7\u00e3o: \u201cTal foto me adv\u00e9m, tal outra n\u00e3o\u201d (Barthes, 1980, p. 24). Como espectador, ele descreve, ent\u00e3o, o<em> Studium <\/em>como elemento da imagem que se busca com a consci\u00eancia. \u00c9 o esfor\u00e7o de reconhecer as inten\u00e7\u00f5es do fot\u00f3grafo ao compor o quadro da foto, acessando-a a partir de signos culturais que permitem sua compreens\u00e3o: como William Klein ensinando sobre como se vestem os russos ao fotografar em Moscou em 1959, ou Koen Wessing apontando a copresen\u00e7a de personagens improv\u00e1veis \u2013 soldados e freiras \u2013 no mesmo enquadre de uma insurrei\u00e7\u00e3o na Nicar\u00e1gua (Barthes, 1980). S\u00e3o elementos que provocam um interesse <em>meio<\/em> desejo, <em>meio<\/em> querer, um <em>to like <\/em>e n\u00e3o um <em>to love<\/em>. O <em>Punctum<\/em>, por outro lado, perturba o <em>Studium<\/em> e se apresenta em um detalhe que \u00e9 como uma flecha que transpassa quem o nota, partindo da cena. Ponto sens\u00edvel que \u00e9 como pequena mancha, picada, buraco e corte: uma ferida (Barthes, 1980). Para exemplific\u00e1-lo, o leitor \u00e9 guiado em uma s\u00e9rie de imagens por onde um detalhe descentrado o punge, sem aviso: um sapato de presilhas, um colar de p\u00e9rolas, os maus dentes de um garoto, as unhas pouco limpas de uma m\u00e3o, o curativo no dedo de uma menina. Tudo est\u00e1 dado e \u00e9 indesenvolv\u00edvel neste ponto que fisga e que n\u00e3o responde \u00e0 cultura ou ao saber.<\/p>\n<p>Um detalhe conquista toda minha leitura; trata-se de uma muta\u00e7\u00e3o viva de meu interesse, de uma fulgura\u00e7\u00e3o. Pela marca de alguma coisa, a foto n\u00e3o \u00e9 mais qualquer. Esse alguma coisa deu um estalo, provocou em mim um pequeno abalo, um satori, uma passagem de um vazio (Barthes, 1980, p. 46).<\/p>\n<p><em>A c\u00e2mara clara<\/em> de Barthes parece conversar com o que Georges Didi-Huberman trabalha em seu livro <em>O que vemos, o que nos olha, <\/em>escrito que tamb\u00e9m parte de uma pergunta: \u201cquando vemos o que est\u00e1 diante de n\u00f3s, por que uma outra coisa sempre nos olha, impondo um <em>em<\/em>, um <em>dentro<\/em>?\u201d (Didi-Huberman, 2010, p. 30). Didi-Huberman vai centrar seu argumento na ideia de que \u201ccada coisa a ver, por mais exposta, por mais neutra de apar\u00eancia que seja, torna-se inelut\u00e1vel quando uma perda a suporta (&#8230;) e desse ponto nos olha, nos concerne, nos persegue\u201d (Didi-Huberman, 2010, p. 33). Assim, ele se apoia no<em> Ulisses <\/em>de Joyce para nomear como ferida visual o que alude a uma ferida aberta no cora\u00e7\u00e3o de Stephen Dedalus: a m\u00e3e morta que, ao ver o mar que se afasta, o olha. \u00c9 tamb\u00e9m inspirada em Joyce a afirma\u00e7\u00e3o que a vis\u00e3o se choca com o volume dos corpos humanos em suas cavidades; acontecendo <em>atrav\u00e9s<\/em> dos olhos, que se fecham para ver. Didi-Huberman inscreve o vis\u00edvel, portanto, sobre um vazio que se abre em n\u00f3s e que nos constitui, apontando para algo que nos escapa irremediavelmente.<\/p>\n<p>Trata-se de dois modos de abordar o reviramento proposto por Lacan com a mancha como ponto t\u00edquico na fun\u00e7\u00e3o esc\u00f3pica e que se d\u00e1 na fenda entre o olho e o olhar (Lacan, 1964\/1988). Pode-se dizer que Barthes, Didi-Huberman e Lacan se encontram neste <em>unheimlich<\/em>, que \u00e9 o correlato de uma estranheza \u00eaxtima ao falasser. Isso mostra \u2013 a\u00ed onde o real, como c\u00famplice da puls\u00e3o, se evidencia em um ponto cego que nos olha. \u00c9 o que, no Semin\u00e1rio 11, Lacan destaca ao dizer que, ao se ver sendo olhado por uma lata de sardinhas no quadro dos pescadores em que ele faz mancha, ela tem algo a ver com ele: aqui, o olhar pode ser circunscrito como o objeto <em>a<\/em> em sua fun\u00e7\u00e3o punctiforme e evanescente (Lacan, 1964\/1988): ponto de rachadura no sentido e de divis\u00e3o do sujeito que tamb\u00e9m se manifesta no <em>Punctum<\/em> de Barthes e no que h\u00e1 de inelut\u00e1vel na vis\u00e3o para Didi-Huberman. E \u00e9 neste ponto mesmo que o ato anal\u00edtico os encontra.<\/p>\n<p>Lacan indica que \u201co psicanalista, na psican\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 sujeito, e que, por situar seu ato pela topologia ideal do objeto <em>a<\/em>, deduz-se que \u00e9 ao n\u00e3o pensar que ele opera\u201d (Lacan, 1969\/2003, p. 377). Isto \u00e9, por se situar em uma conting\u00eancia, <em>tiqu\u00ea<\/em>, como o detalhe que nos atinge de surpresa, o ato se d\u00e1 neste instante em que n\u00e3o h\u00e1 Outro ou sujeito. H\u00e1, sim, objeto ativo enquanto o sujeito \u00e9 subvertido (Holguin, 2019) \u2013 uma vez que o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 um dizer que o modifica (Lacan, 1969\/2003). Ap\u00f3s o momento decisivo do ato, o sujeito n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo: o que se instaura, sobretudo, \u00e9 um antes e um depois, como C\u00e9sar que, ao saltar sobre o Rubic\u00e3o e pisar na It\u00e1lia, desafia as leis impostas at\u00e9 ent\u00e3o, tornando-se um rebelde. A partir disso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel voltar atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Com efeito, outra aproxima\u00e7\u00e3o entre ato anal\u00edtico e o ponto t\u00edquico se faz a partir de um acontecimento que remete a uma ferida, a mesma que est\u00e1 no centro do que nos flecha \u2013 n\u00e3o seria essa a dire\u00e7\u00e3o? A ferida de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual e que a elucubra\u00e7\u00e3o de saber tenta, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aplacar (Miller, 2018, p. 97). Por isso, o ato anal\u00edtico pode ser descrito como n\u00e3o recuar frente \u00e0 estrutura de fic\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise, sendo conduzido pela l\u00f3gica de mostrar o imposs\u00edvel de dizer a partir de um limite estrutural imposto ao saber (Miller, 2010). \u00c9 o que Miller assinala em <em>A palavra que fere<\/em>, dando pistas sobre a incid\u00eancia traum\u00e1tica do significante no corpo e apontando que o ato pode alcan\u00e7\u00e1-la ao fazer repercutir o gozo ao qual se liga e ultrapassa o sentido.<\/p>\n<p>Desse modo, o novo que se abre a partir do ato anal\u00edtico em sua temporalidade de salto pode afetar o n\u00facleo pulsional e fazer a verdade variar, provocando a transforma\u00e7\u00e3o do sujeito ao lev\u00e1-lo mais al\u00e9m do saber. O que oportuniza essa decis\u00e3o, no entanto, \u00e9 que o analista se fa\u00e7a de objeto <em>a<\/em> e que se sustente por um desejo \u201cde se chegar ao real, de reduzir o Outro a seu real e liber\u00e1-lo do sentido\u201d (Miller, 2012). Ou, dito de outro modo, um desejo de obter uma diferen\u00e7a radical a partir de um gesto que repousa em um lance de dados.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BARTHES, Roland. <em>A c\u00e2mara clara<\/em>: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">DIDI-HUBERMAN, Georges. <em>O que vemos, o que nos olha<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">HOLGUIN, Clara M. Um la\u00e7o \u00eaxtimo: solid\u00e3o com la\u00e7o \u2013 Sobre o ato anal\u00edtico e a garantia. Blog da EBP-SP, 2019. Dispon\u00edvel em:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">https:\/\/ebp.org.br\/sp\/um-laco-extimo-solidao-com-laco-sobre-o-ato-analitico-e-a-garantia\/. Acesso em: 25 out. 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. O ato psicanal\u00edtico. Resumo do Semin\u00e1rio de 1967-1968. (1969) In: LACAN, Jacques. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 371-381.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. A palavra que fere. <em>Opc\u0327a\u0303o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, Sa\u0303o Paulo, n. 56\/57, p. 67-70, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP.\u00a0 Confer\u00eancia realizada em 2012. Dispon\u00edvel em:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">http:\/\/www.congresamp2014.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Presentation-du-theme_Jacques-Alain-Miller.html. Acesso em: 25 out. 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. Uma psican\u00e1lise tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o. In: <em>Aposta no passe<\/em>: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018. p. 91-101.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leila Mignac Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia \u201cO que meu corpo sabe da fotografia?\u201d \u2013 \u00e9 assim que Roland Barthes (1980, p. 17) abre sua tentativa de localizar a ess\u00eancia da fotografia em A c\u00e2mara clara, partindo de uma investiga\u00e7\u00e3o em torno da sua atra\u00e7\u00e3o por determinadas fotos. Isso passa por uma constata\u00e7\u00e3o:&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2375","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-026","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2375"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2375\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2376,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2375\/revisions\/2376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2375"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}