{"id":2377,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2377"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"a-desrealizacao-de-freud-na-acropole","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/a-desrealizacao-de-freud-na-acropole\/","title":{"rendered":"A desrealiza\u00e7\u00e3o de Freud na Acr\u00f3pole"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Leandro Borges<br \/>\n<\/em><\/strong>Cartelizante<\/p>\n<p>Freud est\u00e1 com 48 anos. Vai \u00e0 It\u00e1lia de f\u00e9rias e acaba encontrando-se, quase inesperadamente, na Gr\u00e9cia, em Atenas:<\/p>\n<blockquote><p>Eu me encontrava na Acr\u00f3pole e pousava meus olhos sobre o cen\u00e1rio, um pensamento surpreendente passou r\u00e1pido em minha mente: \u201cEnt\u00e3o tudo isso realmente existe mesmo, tal como aprendemos no col\u00e9gio!\u201d (Freud, 1936\/1976, p. 295).<\/p><\/blockquote>\n<p>Atordoado, n\u00e3o admite o que v\u00ea; percebe-se nitidamente estranho e dividido. Ele escreve: \u201cAcr\u00f3pole justamente mostrara que, em meu inconsciente, eu n\u00e3o tinha acreditado, e que s\u00f3 agora estava adquirindo uma convic\u00e7\u00e3o que \u2018atingia o fundo do inconsciente\u2019\u2026\u201d (Freud, 1936\/1976, p. 295). Sua experi\u00eancia de estranheza, de incredulidade, se deu por uma rea\u00e7\u00e3o brutal \u00e0 diferen\u00e7a entre dois regimes de exist\u00eancia: o da cren\u00e7a e o da realidade. Ele acrescenta: \u201cPela evid\u00eancia dos meus sentidos, estou agora na Acr\u00f3pole, mas n\u00e3o consigo acreditar nisso\u201d (Freud, 1936\/1976, p. 298). A esse fen\u00f4meno de falsifica\u00e7\u00e3o da realidade, a essa sensa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica de apar\u00eancia confusa e distorcida, Freud nomeia de<em>desrealiza\u00e7\u00e3o,<\/em>e a concebe n\u00e3o apenas como um dist\u00farbio psicol\u00f3gico, mas como uma forma\u00e7\u00e3o defensiva complexa, na qual o eu suspende o valor da realidade para conter o retorno de experi\u00eancias infantis traum\u00e1ticas. O efeito \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma zona intermedi\u00e1ria, onde o eu preserva sua coer\u00eancia ao custo de um desligamento parcial da realidade.<\/p>\n<p>Podemos intuir que, quando Freud literalmente v\u00ea a Acr\u00f3pole, tem um encontro traum\u00e1tico com <em>tiqu\u00ea, <\/em>com o real do olhar e, com efeito, uma experi\u00eancia de gozo. \u201cRealmente, eu n\u00e3o poderia ter imaginado ser poss\u00edvel que me fosse dado ver Atenas com meus pr\u00f3prios olhos \u2013 como indubitavelmente est\u00e1 ocorrendo\u201d (Freud, 1936\/1976, p. 300). Brousse (2014) observa que o la\u00e7o entre a imagem e o organismo tem a ver com as experi\u00eancias de gozo: s\u00e3o elas que articulam e \u201cgrampeiam\u201d a imagem ao corpo. Esse grampo, que os une, \u00e9 o objeto <em>a<\/em>, que \u00e9 aquilo de que o sujeito, para se constituir, se separa enquanto \u00f3rg\u00e3o; ele \u00e9 o resto de uma separa\u00e7\u00e3o inaugural que opera como s\u00edmbolo da falta e consequentemente causa do desejo. Quando a Acr\u00f3pole se \u201cdesrealiza\u201d diante dos olhos de Freud, algum grampo se solta e uma nova articula\u00e7\u00e3o entre imagem e organismo lhe \u00e9 exigida pela puls\u00e3o. Algo se retranscreve na mem\u00f3ria de corpo, uma mudan\u00e7a de registro, onde o tra\u00e7o mn\u00eamico se converte em marca corporal, o gozo sofre muta\u00e7\u00e3o,e se inscreve no corpo pela via do significante. \u201cSe o tra\u00e7o n\u00e3o se torna lembran\u00e7a, a mem\u00f3ria permanece sob o dom\u00ednio do corpo que sente; se ele se torna lembran\u00e7a, ela pode obedecer \u00e0 <em>falta-a-ser<\/em>, e o recalque vence a clivagem\u201d (Brousse, 2021, p. 29).<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de gozo de Freud nos conduz com precis\u00e3o ao conceito de objeto<em> a<\/em> no campo esc\u00f3pico. Ele designa o ponto a partir do qual o olhar irrompe como resto do real, isto \u00e9, com aquilo que, na vis\u00e3o, n\u00e3o se v\u00ea, mas que insiste como presen\u00e7a opaca, uma mancha que fere a unidade imagin\u00e1ria da imagem. No Semin\u00e1rio 11, Lacan desenvolve a no\u00e7\u00e3o de esquise do olho e do olhar, distinguindo o primeiro como pertencente \u00e0 ordem do vis\u00edvel e o segundo como manifesta\u00e7\u00e3o do real: \u201cA fun\u00e7\u00e3o do olhar introduz no campo da vis\u00e3o algo de inapreens\u00edvel, que se manifesta como uma mancha\u201d (Lacan,1964\/2008, p.96). Lacan formula que a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o olhar se funda no engano, o olhar n\u00e3o coincide com o ver; nesse descompasso, o sujeito se cr\u00ea fonte do olhar, mas \u00e9 olhado do ponto onde ele falha. Isto posto, o olho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 janela, mas tamb\u00e9m buraco. Na Acr\u00f3pole, o olhar de Freud \u00e9 capturado por seu ponto cego: o que se eleva diante dele n\u00e3o \u00e9 apenas um monumento, mas a pr\u00f3pria materialidade pulsante do inconsciente. Ele j\u00e1 n\u00e3o contempla,mas \u00e9 atravessado pelo que v\u00ea; \u00e9 ele quem agora \u00e9 visto.<\/p>\n<p>O inconsciente, diz Lacan, \u00e9 hom\u00f3logo \u00e0s zonas er\u00f3genas do corpo. Elas s\u00e3o seu<em>locus<\/em>, lugares de passagem, de fric\u00e7\u00e3o, onde o gozo se grava em tra\u00e7os. \u201cO lugar e o la\u00e7o s\u00e3o insepar\u00e1veis. J\u00e1 que \u2018o ato de recordar \u00e9 em parte corporal\u2019, existem os <em>loca corporalia<\/em>, lugares de mem\u00f3ria, que s\u00e3o lugares corporais\u2026\u201d (Antelo, 1993, p. 91). Nessa topologia, a puls\u00e3o opera como uma borda viva, que funcionam por abertura e fechamento, articulando o corpo ao significante. \u00c9 nessa unidade das hi\u00e2ncias, afirma Lacan (2008), que \u201ca puls\u00e3o tem seu papel no funcionamento do inconsciente\u201d (p. 178). Diante da Acr\u00f3pole, o olhar de Freud saturado de mem\u00f3ria de gozo atravessa o limiar do sentido e o inconsciente se abre como fenda pulsante. Tal abertura n\u00e3o apenas rompe com o automatismo dos significantes, mas desvela a fragilidade dos semblantes e abala a sustenta\u00e7\u00e3o de sua fantasia, fazendo emergir o real que, at\u00e9 ent\u00e3o, se mantinha velado sob o v\u00e9u do sentido.<\/p>\n<p>Foi um acontecimento de corpo. Freud \u00e9 tomado pela coisa estranha que nos habita ao ver, com seus pr\u00f3prios olhos, um desejo destinado ao imposs\u00edvel realizar-se diante dele. Na Acr\u00f3pole, a experi\u00eancia de um \u00eaxito o surpreende, ele se percebe pensando que \u00e9 \u201cbom demais para ser verdade\u201d (Freud, 1936\/1976, p. 301). Essa sensa\u00e7\u00e3o que o suspende entre o prazer e a perturba\u00e7\u00e3o revela a for\u00e7a do supereu, que vela todo o feito com o selo da culpa. \u201cParecia-me al\u00e9m dos limites do poss\u00edvel eu, algum dia, viajar t\u00e3o longe \u2013 eu percorrer um caminho t\u00e3o longo\u201d (Freud, 1936\/1976, p. 302). O olhar lan\u00e7ado sobre Atenas devolve-lhe a imagem de uma travessia: a ultrapassagem simb\u00f3lica do pai. No instante em que realiza o que o pai n\u00e3o p\u00f4de, Freud se v\u00ea invadido por uma culpa silenciosa, o pre\u00e7o de ter atravessado o interdito. Aos 80 anos, ele reconhece que \u201cparece como se a ess\u00eancia do \u00eaxito consistisse em ter realizado mais que o pai, e como se ainda fosse proibido ultrapassar o pai\u201d (Freud, 1936\/1976, p. 303). O epis\u00f3dio marca, assim, a queda do ideal paterno. E Freud acaba por nos testemunhar que o desejo s\u00f3 pode ser satisfeito se for trabalhado e torcido pela censura e que, sempre que houver desejo realizado, haver\u00e1 tamb\u00e9m <em>desrealiza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">ANTELO, Marcela. A dama Yates. <em>Correio, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 72, p. 91-92, 2013.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. Corpos lacanianos: novidades contempor\u00e2neas sobre o est\u00e1dio do espelho. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online<\/em>, nova s\u00e9rie, S\u00e3o Paulo, ano V, n. 15, p. <em>xx-xx<\/em>, 2014. Dispon\u00edvel em:https:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_15\/Corpos_lacanianos.pdf. Acesso em: 25 out. 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. Tra\u00e7os e marcas. <em>Curinga<\/em>, Belo Horizonte, n. 68:Psican\u00e1lise, corpo e acontecimento, p. 24-34, 2021.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, Sigmund. Um dist\u00farbio de mem\u00f3ria na Acr\u00f3pole. (1936) In: FREUD, Sigmund. <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/em>. v. XXII: Novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 291-303.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. (1964) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leandro Borges Cartelizante Freud est\u00e1 com 48 anos. 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