{"id":2379,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2379"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"arriscagem-rasura-de-uma-praticante-de-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/arriscagem-rasura-de-uma-praticante-de-psicanalise\/","title":{"rendered":"Arriscagem: rasura de uma praticante de psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lara Cedraz Carneiro<br \/>\n<\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>De pernas cruzadas e um frio que d\u00e1 calor, percorrendo a caixa dos peitos e passando pela barriga. Com a m\u00e3o direita, unindo tr\u00eas dedos, um grafite de ponta 05. Tra\u00e7o fino, firme numa linha n\u00e3o t\u00e3o reta. Penso antes e depois, a escrita vem do meio como se os meus dedos soubessem seguir o pr\u00f3prio caminho. Ainda n\u00e3o sei se as palavras v\u00eam at\u00e9 mim ou se sou eu que vou at\u00e9 elas \u2013 acho que esse n\u00e3o \u00e9 o <em>x<\/em> da quest\u00e3o. Fato \u00e9 que existe um encontro. \u00c9 do encontro da \u00e1gua com a terra que trata Lacan (1971\/2003) em seu \u00faltimo ensino, no qual passa a orientar-se pelo real, trazendo a interpreta\u00e7\u00e3o como leitura.<\/p>\n<p>Talvez apenas por ter aprendido a brincar com o imposs\u00edvel \u00e9 que ele dedicou seu \u00faltimo ensino \u00e0 tentativa de transmitir em seus semin\u00e1rios algo que esbarra, justamente, nos limites da linguagem. E talvez por ter sido tocada por algo dessa transmiss\u00e3o que \u201c<em>desci pro<\/em> <em>play<\/em>\u201d, embarcando nessa loucura. Isso ocorre visto que se trata de algo que n\u00e3o passa pela via do entendimento da teoria, mas de uma experi\u00eancia que ocorre no e com o corpo. Passamos boa parte da nossa vida aprendendo diversas coisas e nunca fomos ensinados a desaprender. Desconfio, no entanto, que para tratar desse tema \u00e9 preciso estar disposto a repetir essa mat\u00e9ria at\u00e9 que ela se <em>ex-time<\/em> em voc\u00ea. Sobre ela, quem nos ensina melhor s\u00e3o os poetas, como diria Manoel de Barros (2016): \u201cDesaprender oito horas por dia ensina os princ\u00edpios. \/ [&#8230;] As coisas n\u00e3o querem mais ser vistas por pessoas razo\u00e1veis: \/ Elas desejam ser olhadas de azul \u2013 \/ Que nem uma crian\u00e7a que voc\u00ea olha de ave.\u201d (p. 15, 18)<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, Lacan (2009) fala no Semin\u00e1rio 18: \u201c\u00e9 que talvez eu s\u00f3 seja lacaniano por ter estudado chin\u00eas no passado\u201d (p. 35). Isso acontece pois ele se deparou com uma forma \u201cestranha\u201d de escrita que possui uma l\u00f3gica diferente da ocidental, baseada no alfabeto, na qual uma letra possui uma indica\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica exata, alimentando uma falsa equival\u00eancia entre fala e escrita. O que ocorre nessa l\u00edngua \u00e9 que um mesmo som pode ser escrito de v\u00e1rios jeitos e, dessa forma, faz existir uma vasta gama de homofonia sonora. Al\u00e9m disso, duas linhas que possuem os mesmos caracteres escritos podem significar coisas completamente diferentes, a depender de como s\u00e3o pontuadas e entonadas. Ou seja,<\/p>\n<blockquote><p>Nesse caso, a escrita viria em socorro de uma inevit\u00e1vel equivocidade da fala. E em outras tantas vezes, \u00e9 exatamente a escrita dos caracteres que, numa brincadeira ou jogos de palavras, com uma fineza encantadora, reintroduz a equivocidade que parecia ter se dissipado na fala (Andrade, 2016, p. 27).<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 uma l\u00edngua que n\u00e3o facilita o entendimento pois \u00e9 cheia de mal-entendidos e ambiguidades. Assim, o sentido \u00e9 criado a partir de um <em>ato de leitura<\/em> e, para tal, \u00e9 preciso possuir um conhecimento da l\u00edngua e estar a par do contexto para extrair algum sentido poss\u00edvel. O que podemos aprender com a escrita chinesa \u00e9 que dentro de uma l\u00edngua, seja ela qual for, h\u00e1 sempre um estrangeiro. Ou como diria Lacan (1971\/2003), a linguagem \u00e9 habitada por quem fala.<\/p>\n<p>Com o quarto corte epist\u00eamico do seu ensino, o interesse passa a ser, para aqu\u00e9m da linguagem, o estranho que a habita. Como acess\u00e1-lo? A busca vai em dire\u00e7\u00e3o ao mais primitivo ponto de interse\u00e7\u00e3o entre o discurso e o pulsional: a letra como litoral. Lacan (1971\/2003), em \u201cLituraterra\u201d, utiliza a met\u00e1fora do litoral, onde dois elementos feitos de subst\u00e2ncias diferentes se encontram sem uma fronteira muito bem estabelecida, na qual n\u00e3o se sabe onde um termina e come\u00e7a o outro. No encontro entre \u00e1gua e terra formam-se sulcos que desenham uma rasura, uma escrita de gozo.<\/p>\n<p>O autor coloca que a escrita no real \u00e9 o ravinamento do significado, o que choveu do semblante como aquilo que constitui o significante: \u201cA escrita n\u00e3o decalca este \u00faltimo, mas sim, seus efeitos de l\u00edngua, o que dele se forja por quem a fala.\u201d (Lacan, 1971\/2003, p. 17). Dito de outra forma, existe aquilo que nos fez e h\u00e1 tamb\u00e9m o que fazemos daquilo que fez de n\u00f3s. \u00c9 o que Horne (2022) traz como uma escrita dupla, sendo \u201cessa primeira, determinante, \u00e9 uma escrita que se instaura atrav\u00e9s do Um. N\u00e3o \u00e9 como uma chuva, \u00e9 como um vulc\u00e3o que, de dentro, explode e tra\u00e7a sulcos pelos quais, posteriormente, se encaminhar\u00e3o os significantes que caem da nuvem do Outro.\u201d (p. 42).<\/p>\n<p>Por que \u00e9 interessante para n\u00f3s, praticantes de psican\u00e1lise, acessar essa outra dimens\u00e3o? Pois cada vez que algu\u00e9m vai ao consult\u00f3rio de um analista, chega tamb\u00e9m, justamente, essa l\u00edngua estrangeira, singular, secreta. Dessa forma, falar a l\u00edngua dos segredos \u201ctem o efeito de fazer desaparecer o v\u00ednculo entre saber e verdade, ou mais exatamente de arrancar da verdade sua face de satisfa\u00e7\u00e3o, ao desconect\u00e1-la do sentido, como Lacan assinala.\u201d (Brousse, 2008, p. 13).<\/p>\n<p>Freud (1911\/2010) j\u00e1 havia nos alertado que, ao adentrar num pa\u00eds estrangeiro, a moeda do seu pa\u00eds de origem perde a utilidade: \u00e9 preciso manusear a local. Para demonstrar os riscos de n\u00e3o utilizar a moeda que possui serventia, trago um recorte da pe\u00e7a <em>Hamlet<\/em>, ato III. Trata-se de um rico di\u00e1logo entre Rosencrantz \u2013 amigo de inf\u00e2ncia de Hamlet convocado pelo rei para descobrir o que se passava na cabe\u00e7a dele \u2013 e o pr\u00edncipe. Ap\u00f3s o amigo queixar-se de Hamlet n\u00e3o querer contar a raz\u00e3o da sua tristeza, o pr\u00edncipe lhe entrega uma flauta e pede, insistentemente, para que o amigo a toque. Rosencrantz responde que n\u00e3o pode, pois n\u00e3o possui tal habilidade. Ent\u00e3o Hamlet diz:<\/p>\n<blockquote>[&#8230;] Pensou que eu fosse um instrumento no qual poderia tocar \u00e0 vontade, s\u00f3 porque imaginou conhecer minhas chaves. Tinha a inten\u00e7\u00e3o de penetrar no cora\u00e7\u00e3o do meu segredo, para experimentar toda a escala dos meus sentimentos. No entanto, apesar de conter esse instrumento bastante m\u00fasica e de ser dotado de excelente voz, n\u00e3o conseguiu faz\u00ea-lo falar. [&#8230;] Imaginou, ent\u00e3o, que sou mais f\u00e1cil de tocar do que esta flauta? Dai-me o nome do instrumento que quiser; ainda que seja f\u00e1cil me ferir, nunca me far\u00e1 produzir som (Shakespeare, 1603\/s.d., p. 105).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para falar a l\u00edngua dos segredos, \u201c\u00c9 preciso um embalo que s\u00f3 consegue quem se desliga de seja l\u00e1 o que for que o tra\u00e7a.\u201d (Lacan, 1971\/2003, p. 21). Isso ocorre porque a interpreta\u00e7\u00e3o passa a estar inscrita no registro do Um, ou seja, no campo do sem sentido. Um longo suspiro, um gole d\u2019\u00e1gua. Uma d\u00favida que insiste: de que modo aprender a fazer esse tipo de leitura? Creio que n\u00e3o existe escapat\u00f3ria nem salva\u00e7\u00e3o. O \u00fanico modo de aprender a fazer \u00e9 fazendo \u2014 h\u00e1 um risco necess\u00e1rio. Apresento-lhes, ent\u00e3o, minha <em>arriscagem<\/em>: rasura de uma praticante de psican\u00e1lise. Para finalizar, cito quem melhor me ensina sobre o inomin\u00e1vel: \u201cAssim como me lan\u00e7o no tra\u00e7o de meu desenho, este \u00e9 um exerc\u00edcio de vida sem planejamento. O mundo n\u00e3o tem ordem vis\u00edvel e eu s\u00f3 tenho a ordem da respira\u00e7\u00e3o. Deixo-me acontecer.\u201d (Lispector, 2020, p. 20).<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">ANDRADE, Cleyton. <em>Lacan chin\u00eas<\/em>: poesia, ideograma e caligrafia chinesa de uma psican\u00e1lise. 2. ed. Macei\u00f3: Edufal, 2016. 207p.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BARROS, Manoel de. <em>O livro das ignor\u00e3\u00e7as<\/em>. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. Moments d\u2019une histoire d\u2019amour. <em>La Cause freudienne<\/em>, Paris, n. 68: Notre sujet suppos\u00e9 savoir, p. 14-17, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FREUD, Sigmund. Formula\u00e7\u00f5es sobre os dois princ\u00edpios do funcionamento mental. (1911) In: FREUD, Sigmund. <em>Observa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (O caso Schreber), artigos sobre t\u00e9cnica e outros textos (1911-1913)<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 108-121. (Obras completas, 10)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">HORNE, Bernardino; GURGEL, Iordan (orgs.). <em>O campo uniano<\/em>: o \u00faltimo ensino de Lacan e suas consequ\u00eancias. 1. ed. Goi\u00e2nia: Ares Editora, 2022.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 18: <em>De um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em>. (1971) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. Lituraterra. In: LACAN, Jacques. <em>Outros escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 15-27.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LISPECTOR, Clarice. <em>\u00c1gua viva<\/em>. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">SHAKESPEARE, William. <em>A tr\u00e1gica hist\u00f3ria de Hamlet, pr\u00edncipe de Dinamarca<\/em>. (1603) Edi\u00e7\u00e3o de Ridendo Castigat Mores. s\/d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.jahr.org ou http:\/\/www.ebooksbrasil.com. Acesso em: 26 out. 2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lara Cedraz Carneiro Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia De pernas cruzadas e um frio que d\u00e1 calor, percorrendo a caixa dos peitos e passando pela barriga. Com a m\u00e3o direita, unindo tr\u00eas dedos, um grafite de ponta 05. Tra\u00e7o fino, firme numa linha n\u00e3o t\u00e3o reta. 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