{"id":2383,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2383"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"efeito-de-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/efeito-de-poesia\/","title":{"rendered":"Efeito de poesia*"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Eucy de Mello<br \/>\n<\/em><\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>Tenho escutado, na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica, alguns pacientes que s\u00e3o pais e m\u00e3es de crian\u00e7as em idade escolar e que se encontram atormentados e angustiados pelos imperativos de um discurso que pretende arrum\u00e1-las nas prateleiras da funcionalidade, o que quer que isso queira dizer. Na tentativa de falar sobre o que os atormenta quanto a esses imperativos, falam tamb\u00e9m daquilo que os consome em termos de suas pr\u00f3prias quest\u00f5es no que diz respeito a esse \u201cestar integrado(a)\u201d, \u201cestar funcionando\u201d. A sanha normatizadora da contemporaneidade obedece ao discurso capitalista, que promove o individualismo, mas elide a singularidade. Talvez por isso tenha surgido em mim um interesse maior pelo que Freud aponta como uma das vicissitudes da puls\u00e3o e que conhecemos pelo nome de sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda que de forma totalmente diferente dos imperativos normatizadores da nossa \u00e9poca, a sublima\u00e7\u00e3o se apresentou, sob a pena de Freud, como uma possibilidade de escoamento da puls\u00e3o que pudesse veicular um tipo de ren\u00fancia. Ela \u00e9 apresentada como uma alternativa \u00e0s exig\u00eancias de civiliza\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, mas tamb\u00e9m superestimada como solu\u00e7\u00e3o ideal do conflito entre os imperativos pulsionais e a conviv\u00eancia humana, sendo at\u00e9 mesmo percebida, pelos mais incautos, como uma facilitadora da adapta\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Por outro lado, a sublima\u00e7\u00e3o foi e ser\u00e1 sempre associada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, o que nos leva pelos caminhos da inven\u00e7\u00e3o e do <em>sinthome<\/em>. Ainda que Lacan n\u00e3o trate nomeadamente da sublima\u00e7\u00e3o no Semin\u00e1rio 23, nem talvez em nenhum outro Semin\u00e1rio posterior, me parece que a puls\u00e3o vai ficando cada vez mais central at\u00e9 o fim de seu ensino, por ser indissoci\u00e1vel das quest\u00f5es do Gozo. Miller (2012), falando sobre o sexto paradigma, que localiza a partir do Semin\u00e1rio 20, diz que \u201cse observamos isso lucidamente, o gozo uno apresenta-se como gozo do corpo, gozo f\u00e1lico, gozo da fala, gozo sublimat\u00f3rio\u201d (p. 46). E acrescenta: \u201cLacan indica-nos, verdadeiramente, que \u00e9 no lugar do gozo uno que a sublima\u00e7\u00e3o encontra seu verdadeiro fundamento\u201d (Miller, 2012, p. 46).<\/p>\n<p>Mas aqui, no entanto, vou me deter apenas em um ponto, um ponto de partida, e que diz respeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es da sublima\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, especialmente a poesia.<\/p>\n<p>Lacan, principalmente a partir do Semin\u00e1rio 7, vai se afastar cada vez mais dessa formula\u00e7\u00e3o de cunho socializante e normatizador, e afirma que a sublima\u00e7\u00e3o \u201celeva um objeto \u00e0 dignidade da Coisa\u201d (Lacan, 1959-1960\/1997, p. 141), postulando a no\u00e7\u00e3o freudiana de <em>Das Ding<\/em> como fundamental, o que aponta para o centro da economia libidinal.<\/p>\n<p>Se <em>Das Ding<\/em> \u00e9 o que padece do significante, situando o irrepresent\u00e1vel da experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o e apontando para o vazio, engendrando o furo, a sublima\u00e7\u00e3o parece possibilitar a cria\u00e7\u00e3o de um objeto surgido desse vazio, na condi\u00e7\u00e3o de explicitar sua opacidade.<\/p>\n<p>Lacan vai tomar um coment\u00e1rio de Freud em \u201cTotem e tabu\u201d quando ele diz do que as diferentes neuroses poderiam ser caricaturas, para dizer que, diferentemente da ci\u00eancia \u2013 que nega a exist\u00eancia de <em>Das Ding<\/em> e da religi\u00e3o \u2013 que a preserva como mist\u00e9rio m\u00edtico que deve ser mantido \u00e0 dist\u00e2ncia, a arte pode contornar <em>Das Ding<\/em>, explicitando seu vazio atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um objeto nesse lugar. \u201cNem a ci\u00eancia nem a religi\u00e3o s\u00e3o aptas para salvar a Coisa, nem a nos d\u00e1-la\u201d (Lacan, 1959-1960\/ 1997, p. 168), ele nos diz no Semin\u00e1rio sobre a \u00c9tica. Poder\u00edamos ent\u00e3o pensar que a arte, sim, seria?<\/p>\n<p>\u201cA ast\u00facia do homem \u00e9 de estofar tudo isso com poesia, que \u00e9 efeito de sentido, mas da mesma forma efeito de furo. S\u00f3 a poesia permite a interpreta\u00e7\u00e3o\u201d (Lacan, 1977a, p. 73). Essa fala de Lacan nos remete a outra, bastante anterior, quando diz que a sublima\u00e7\u00e3o teria a ver com a cria\u00e7\u00e3o de um objeto que possa n\u00e3o evitar a Coisa, mas represent\u00e1-la na medida em que \u00e9 criado.<\/p>\n<p>A poesia equivoca, ela faz aparecer o invis\u00edvel no momento mesmo em que faz transmudar-se o reconhec\u00edvel, em que subtrai o comum no uso das palavras, provocando prazer e at\u00e9 tamb\u00e9m desprazer, mas certamente causando efeitos. Caetano Veloso, em sua can\u00e7\u00e3o \u201cOutras palavras\u201d do \u00e1lbum de mesmo nome, lan\u00e7ado em 1981, nos brinda com uma estrofe que evidencia esse c\u00famulo de equivoca\u00e7\u00e3o com que a poesia pode nos atravessar:<\/p>\n<p>Para fins gatins alphaluz<\/p>\n<p>Sexonhei la guerrapaz<\/p>\n<p>Ourax\u00e9 pal\u00e1voras driz<\/p>\n<p>Ok\u00ea cris expacial<\/p>\n<p>Projeitinho imanso ciumortevida vidavid<\/p>\n<p>Lambentelho fr\u00faturo orgasmaravalha-me logun<\/p>\n<p>Homenina nel para\u00eds de felicidadania (OUTRAS, 1981).<\/p>\n<p><strong>O que pode a psican\u00e1lise a\u00ed?<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u201cO analista fatia\u201d, diz Lacan (1977b, p. 12, tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/p>\n<p>O que ele diz \u00e9 corte, ou seja, ele participa da escrita, salvo que ele equivoca sobre a ortografia. Ele escreve diferentemente, de forma que, atrav\u00e9s da ortografia, de uma forma diferente de escrever, algo soa diferente do que \u00e9 dito, do que \u00e9 dito com a inten\u00e7\u00e3o de dizer, conscientemente, ainda que a consci\u00eancia esteja bem longe. \u00c9 por isso que digo que, no que diz o analisante e no que diz o analista, n\u00e3o h\u00e1 outra coisa que escrita (Lacan, 1977b, p. 12, tradu\u00e7\u00e3o minha).<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o se pode confundir o artista com o analista ou o analisante, pois assim \u201cse perde o eixo orientador da an\u00e1lise, ao se confundir a edifica\u00e7\u00e3o de um contorno que faz borda e o objeto bordado no v\u00e9u da fantasia\u201d (Falbo, 2017, p. 1), mas podemos ver a\u00ed experi\u00eancias de certa forma correlatas, pois as montagens e desmontagens que todos eles podem experimentar t\u00eam sempre a marca do fora-de-sentido que faz emergir o indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nos convoca a um esfor\u00e7o de poesia e podemos pensar (por que n\u00e3o?) que se a poesia dos artistas pin\u00e7a o nervo da l\u00edngua, a poesia que podemos fazer, numa experi\u00eancia de an\u00e1lise, pin\u00e7a o nervo de lal\u00edngua.<\/p>\n<p>Talvez possamos dar \u00e0 sublima\u00e7\u00e3o um estatuto de efeito de poesia, efeito que possibilite bordar uma borda para \u201cO que n\u00e3o tem certeza, nem nunca ter\u00e1 \/ O que n\u00e3o tem conserto, nem nunca ter\u00e1 \/ [&#8230;] \/ O que n\u00e3o faz sentido\u201d (O que, 1976).<\/p>\n<p>*\u00a0 Este trabalho foi produto de um cartel sobre a Puls\u00e3o, acontecido entre 2022 e 2024.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">FALBO, Gisele. A-bordagens da arte em psican\u00e1lise: sublima\u00e7\u00e3o, psicobiografia e sinthoma. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online nova s\u00e9rie<\/em>, S\u00e3o Paulo, ano VIII, n. 22, p. 1-13, mar. 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>Le s\u00e9minaire<\/em>, livre XXIV: <em>L\u2019Insu que sait d\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre<\/em>. Le\u00e7on du 17 mai 1977a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>Le s\u00e9minaire<\/em>, livre XXV: <em>Le moment de conclure<\/em>. Le\u00e7on du 20 d\u00e9cembre 1977b.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 7: <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. (1959-1960) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: Ant\u00f4nio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. Os seis paradigmas do gozo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online nova s\u00e9rie<\/em>, S\u00e3o Paulo, ano III, n. 7, p. 1-49, mar. 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">O QUE ser\u00e1? (\u00c0 flor da terra). Int\u00e9rprete: Chico Buarque. Compositor: Chico Buarque. In: <em>Meus caros amigos<\/em>. Phonogram\/Philips, 1976.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">OUTRAS palavras. Int\u00e9rprete: Caetano Veloso. Compositor: Caetano Veloso. In: <em>Outras palavras<\/em>. Philips, 1981.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eucy de Mello Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia Tenho escutado, na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica, alguns pacientes que s\u00e3o pais e m\u00e3es de crian\u00e7as em idade escolar e que se encontram atormentados e angustiados pelos imperativos de um discurso que pretende arrum\u00e1-las nas prateleiras da funcionalidade, o que quer que isso queira dizer. Na&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2383","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-026","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2383","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2383"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2383\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2384,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2383\/revisions\/2384"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2383"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2383"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2383"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2383"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}