{"id":2385,"date":"2025-12-18T08:41:25","date_gmt":"2025-12-18T11:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/?p=2385"},"modified":"2025-12-18T08:41:25","modified_gmt":"2025-12-18T11:41:25","slug":"o-que-fazer-com-esse-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/2025\/12\/18\/o-que-fazer-com-esse-corpo\/","title":{"rendered":"O que fazer com esse corpo?"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Beatriz de Souza Silva<br \/>\n<\/em><\/strong>Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia<\/p>\n<p>Cirurgias pl\u00e1sticas, harmoniza\u00e7\u00f5es faciais, botox, uso de horm\u00f4nios, pr\u00e1ticas intensivas de esportes, tatuagens\u2026 multiplicam-se em ritmo exponencial a variedade de interven\u00e7\u00f5es no corpo. Ou, como chamou Miller (2001) em \u201cElementos da biologia lacaniana\u201d, os \u201cnovos usos\u201d frente \u00e0 problem\u00e1tica do homem com seu corpo vivo (p. 74). Mauricio Tarrab (2018) nomeia o que acontece na atualidade como uma \u201ccompuls\u00e3o de fazer coisas no corpo\u201d (p. 36.)<\/p>\n<p>No entanto, apesar de a ci\u00eancia e a tecnologia serem grandes propulsoras hoje dessas interven\u00e7\u00f5es, nas mais diversas culturas, assim como as grandes tradi\u00e7\u00f5es religiosas, sempre se calcaram em rituais que tomavam os corpos como objetos a serem modificados. Mutila\u00e7\u00e3o feminina, como acontece predominantemente em alguns pa\u00edses da \u00c1frica e do Oriente M\u00e9dio; perfura\u00e7\u00e3o no corpo em rituais na \u00cdndia; a tradi\u00e7\u00e3o chinesa de enfaixar os p\u00e9s das mulheres jovens, chamado p\u00e9s de l\u00f3tus; at\u00e9 as tradi\u00e7\u00f5es brasileiras, como os brincos colocados nos beb\u00eas ainda na maternidade. Enfim, dos rituais menos aos mais elaborados, mais ou menos b\u00e1rbaros, os corpos sempre estiveram no lugar de objeto a ser domado e alterado pelo Outro social. A novidade da \u00e9poca, como aponta Tarrab (2018), \u00e9 que as novas altera\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais ordenadas pelo Outro social, n\u00e3o s\u00e3o mais prescritas pela figura de um pai como agente da castra\u00e7\u00e3o. \u00c9 a caracter\u00edstica da \u00e9poca em que o Outro n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Diferentemente destas tradi\u00e7\u00f5es que portavam a marca da castra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo literalmente em alguns casos, as modifica\u00e7\u00f5es nos corpos no s\u00e9culo XXI parecem portar outra marca: a da reivindica\u00e7\u00e3o do direito de gozar do corpo sem falhar. Um corpo que responda a imagem de sa\u00fade, juventude e pot\u00eancia, como pontua Clotilde Leguil (2015). Um corpo a ser oferecido ao olhar do Outro \u00e9 um corpo que passa a ser moldado, transformado, de modo a fazer desaparecer qualquer marca da idade, de inquieta\u00e7\u00e3o, de ang\u00fastia e tamb\u00e9m de desejo. Seguindo as palavras de Clotilde Leguil (2015), \u00e9 \u201cum corpo imagin\u00e1rio que hipnotiza suficientemente o olhar como forma de fazer desaparecer a marca da castra\u00e7\u00e3o\u201d (s\/p).<\/p>\n<p>A ci\u00eancia no casamento com o capitalismo, ao exacerbar a objetifica\u00e7\u00e3o do corpo, consegue apagar a dimens\u00e3o subjetiva e construir uma identifica\u00e7\u00e3o ao objeto de consumo. Como bem diz Lacan (2011), \u201ctoda ordem, todo discurso aparentado com o capitalismo deixa de lado o que chamaremos, simplesmente, de coisas do amor\u201d (p. 88). Foraclui o sujeito do seu campo discursivo.<\/p>\n<p>O saber tecnol\u00f3gico e a ci\u00eancia produzem objetos que visam tamponar a divis\u00e3o subjetiva. H\u00e1 uma uni\u00e3o entre sujeito e objeto, e estes passam a serem contabilizados, adquirem valor e s\u00e3o incorporados como objetos de gozo. O objeto fica no lugar em que vem complementar o corpo, numa ditadura de mais-de-gozar. Leguil (2015) chega a dizer que nessa nova rela\u00e7\u00e3o em que o corpo permanece o tempo todo conectado, em que h\u00e1 uma constante demanda ao olhar, ouvir, sentir, pode-se falar em uma nova rela\u00e7\u00e3o com a exist\u00eancia. Na era em que o Outro n\u00e3o existe e, portanto, em muitos casos o analista n\u00e3o ocupa mais o lugar de suposi\u00e7\u00e3o de saber \u2013 j\u00e1 que o saber est\u00e1 no bolso, como nos diz Miller (2016) \u2013, cabe interrogar por onde o analista pode caminhar.<\/p>\n<p>Lacan (1975-1976\/2007), no Semin\u00e1rio 23, diz que \u201co falasser adora o seu corpo, porque cr\u00ea que o tem\u201d (p. 64). O corpo aparece como aquilo que o homem pode ter e isso s\u00f3 se demonstra pela experi\u00eancia que vive de o perder. Ele acrescenta ainda que essa \u00e9 a debilidade inerente ao ser falante, uma vez que acredita na consist\u00eancia imagin\u00e1ria do mental, cr\u00ea na exist\u00eancia do seu corpo, enquanto este \u201csai fora a todo instante\u201d (p. 64). Lacan (1975-1976\/2007) diz ainda que \u201ca adora\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que o falasser tem com seu corpo\u201d e \u201cisso \u00e9 sempre suspeito, pois comporta o mesmo desprezo\u201d (p. 64).<\/p>\n<p>As harmoniza\u00e7\u00f5es, tatuagens, botox ou silicone, n\u00e3o s\u00e3o as primeiras modifica\u00e7\u00f5es que tocam o corpo e nem tampouco as mais importantes, nas quais o analista precisa se deter. A primeira grande altera\u00e7\u00e3o que o corpo vive, que o vivifica por sinal, \u00e9 o que vai portar a marca da inconformidade, mas o discurso do mestre moderno faz crer que existe uma modifica\u00e7\u00e3o que possa tamponar o mal-estar. As novas modalidades de padecimento buscam uma maneira de fazer calar o sintoma, de intoxic\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Freud introduz uma radical diferen\u00e7a entre a Psican\u00e1lise e o saber m\u00e9dico ao tomar como objeto de investiga\u00e7\u00e3o o que \u00e9 segregado, o que resta e aponta para a falha, para a aus\u00eancia de homeostase. \u00c9 exatamente nisso que n\u00e3o interessa a nenhum outro discurso que o analista pode operar. Ao tomar o que \u00e9 deixado de fora como causa de trabalho, \u00e9 poss\u00edvel produzir um saber, um giro que saia do sil\u00eancio da intoxica\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miller (2022), em \u201cComent\u00e1rio sobre \u2018A terceira\u2019\u201d, vai dizer que j\u00e1 \u00e9ramos \u201canimais doentes do pr\u00f3prio gozo\u201d (p. 74) antes da era eletr\u00f4nica e n\u00e3o deixamos de ser. \u00c9 o significante que afeta o corpo, deixa as marcas de gozo que torna esse corpo vivo e desarm\u00f4nico. \u00c9 nas rachaduras da imagem que uma demanda genu\u00edna pode ser apresentada. Na contram\u00e3o do discurso moderno, a psican\u00e1lise n\u00e3o se interessa com o que preenche as marcas do corpo, mas sim com os significantes que o vivificam e o fazem gozar.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o: S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>Estou falando com as paredes<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LEGUIL, Clotilde. Las pasiones del cuerpo em el siglo XXI. <em>Revista Freudiana<\/em>, Barcelona, 73, enero\/abr. 2015. Dispon\u00edvel em: https:\/\/freudiana.com\/las-pasiones-del-cuerpo-en-el-siglo-xxi\/.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. <em>Elementos de biologia lacaniana.<\/em> Belo Horizonte: EBP-MG, 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 72, p. 13-19, mar. 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. Coment\u00e1rio sobre \u201cA terceira\u201d. In: LACAN, Jacques. <em>A terceira, Teoria da lal\u00edngua<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2022. p. 63-74.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">TARRAB, Mauricio. <em>La mirada de las im\u00e1genes y otros textos psicoanal\u00edticos.<\/em> Olivos: Grama ediciones, 2018.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beatriz de Souza Silva Associada ao Instituto de Psican\u00e1lise da Bahia Cirurgias pl\u00e1sticas, harmoniza\u00e7\u00f5es faciais, botox, uso de horm\u00f4nios, pr\u00e1ticas intensivas de esportes, tatuagens\u2026 multiplicam-se em ritmo exponencial a variedade de interven\u00e7\u00f5es no corpo. Ou, como chamou Miller (2001) em \u201cElementos da biologia lacaniana\u201d, os \u201cnovos usos\u201d frente \u00e0 problem\u00e1tica do homem com seu corpo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[49],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2385","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed-026","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2385","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2385"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2385\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2386,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2385\/revisions\/2386"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2385"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.institutopsicanalisebahia.com.br\/lapsus\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}